quarta-feira, 30 de junho de 2021

Vencido mais um semestre. Mas, e daí: milhares não o puderam completar!

 

Trinta de junho – mais de um ano (com)finados

Desde fevereiro de 2020, a Covid19 domina todos os cenários de mortes, angústias e aflições por todo o mundo habitado, sem que quaisquer roteirista de filmes ou séries fossem capazes de antecipar em sua quase inacreditável criatividade. Talvez não haja nenhum precedente entre os produtores de películas de “ficção científica” que tenha podido imaginar tão catastrófico período do viver humano.

Há pouco mais de cem anos era a insensatamente denominada “Gripe Espanhola” que roubava a cena e a vida de alguns milhões de pessoas mundo a fora; mas, diante da atual pandemia, parece que ela será desbancada tanto no que tange ao número de pessoas atingidas, quanto no tocante à duração de seus efeitos devastadores de vidas e relações de toda a ordem.

No Brasil, a Covid19 tem uma incidência ainda mais devastadora, no sentido de atingir a sociedade, a economia, a saúde – quando estas linhas estão sendo escritas, o número de mortes notificadas já avança para alcançar quinhentos e vinte mil pessoas – e, como se não já fosse grande a derrocada, arrastou um grande oceano de lama pútrida para a já putrefata política governamental ora vigente no País.

Os elementos que deveriam coordenar as ações impeditivas do avanço da pandemia; que deveriam envidar esforços para socorrer os que por ela fossem atingidos, passaram a ver a desgraça que se abate sobre grande número de famílias brasileiras, como uma oportunidade de lucrar, de ampliar ainda mais os ganhos financeiros, mediante os diversos mecanismos sobejamente conhecidos e utilizados pelos excelentíssimos senhores abutres que se lançam esfomeados sobre o erário, promovendo negociatas com os diversos itens de socorro e proteção da população.

O que para os atingidos pela pandemia tem sido motivo de tristeza e dor, para os achacadores da nação, trata-se de uma entre tantas maneiras de engordar os seus cofres pessoais, já obesos, mas nunca fartos, da gordura arrancada do contribuinte.

Quanto aos demais, eles recomendam ainda que tacitamente, que enterrem os seus finados, engulam o choro e prossigam se expondo para aumentar ainda mais o número dos que serão contaminados e/ou sejam mortos pelo Vírus original, ou por suas muitas variantes. Afinal, é assim que eles enriquecem um pouco mais; é assim que suas fortunas ficam ainda mais volumosas; é assim que surgem as oportunidades de encetarem negociatas para a obtenção de maiores vantagens, propinas e, sobretudo, reforçar as suas relações de poder, mediante a cooptação do legislativo que os sustentam e salvaguardam.

 

José Jorge Andrade Damasceno- 30 de junho de 2021.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

"Aquela não foi uma manhã comum" - Republicando um texto escrito em 2013

 

Histórias e memórias “daquela que não foi uma manhã comum”.

 

Originalmente publicado no Alagoinhas Hoje em março de 2013.

 

 

O amanhecer de 1º de abril de 1964, ficou gravado na história política e social brasileira, como tendo sido apenas o início de um tempo de muitas nuvens, com grande capacidade de formação de tempestades. Algumas gerações de ativistas políticos locais e nacionais, foram atingidas pelas inúmeras borrascas que se abateram sobre a frágil e instável democracia brasileira, instaurada a partir de 1945. As prisões, perseguições, torturas e mortes de lideranças políticas e sociais cujos efeitos ainda se fazem sentir, mesmo já tendo transcorrido quase 50 anos, revelam apenas uma das muitas faces do período que aquele abril, tristemente testemunhava.

 Como as folhas de outono, em todos os quadrantes do País, muitos líderes caíram, murcharam, secaram e morreram, tanto sob o ponto de vista físico, quanto no âmbito da atuação política partidária, artística e/ou sindical, na medida em que a brutal atividade repressiva, levada a efeito nos 21 anos de duração do inverno político brasileiro, não conheceu limites, nem mesmo fronteiras. Na medida em que se fechava o cerco em torno dos homens e mulheres envolvidos em atividades artísticas “engajadas”, políticas ou sindicais, a brutalidade da repressão e a dureza do Regime se fez mais sentida e presente, nas cidades onde os traços de “subversão” fossem pressentidos, ou, apenas presumidos.

Em Alagoinhas, cidade marcada por uma efervescente atividade política e sindical, sobretudo, pela presença de um operariado inserido em um processo de formação política bastante arraigado, aquele dia se afigurava com prenúncios de céu carrancudo e cinzento.

Através do rádio, então ainda o grande meio de transmissão das notícias do País e do mundo, alguns daqueles homens e mulheres eram informados que o País, amanhecia sob a marcha das Forças Armadas, em processo de sublevação, cujo objetivo era tomar o controle político e se empoleirar no comando do poder executivo, defenestrando um presidente que ali fora colocado pela via eleitoral.

Como muitos alagoinhenses já eram dotados de uma capacidade de compreensão do que se passava à sua volta, sobretudo os trabalhadores ferroviários e funcionários do Banco do Brasil, além de trabalhadores pertencentes a outras categorias, entendiam que era preciso levar aos demais munícipes, a explicação do que efetivamente se passava na conjuntura política do Brasil, com o intuito de, quem sabe, organizar alguma resistência ao golpe militar, àquela altura, já em curso.

Demonstrando grande capacidade de articulação e poder de mobilização, líderes políticos locais, conseguiram reunir um bom número de pessoas em um comício, realizado nas primeiras horas da manhã, na Praça Graciliano de Freitas, nas proximidades do prédio dos Correios e da Prefeitura Municipal, na expectativa de levar a explicação dos acontecimentos, aos que ali se encontravam ansiosos por entendê-los.

Mas ao que tudo indica, tomando-se em conta o relato de uma pessoa que viveu o episódio e, conhecia líderes operários da época, a grande dificuldade estava justamente em encontrar, quem entendesse o que se passava e, ainda pior: quem pudesse explicar o que estava ocorrendo na política do País, de maneira que os participantes do evento ali, naquela praça, pudessem vir a compreender.

Enquanto se buscava desesperadamente alguém que pudesse fazer a conexão entre os fatos e os seus desdobramentos para a vida política e social da cidade, as forças repressivas ligadas ao “novo regime”, já estavam prontas para agir, de modo a não perder o controle da situação.

Naquela quarta-feira atípica, a cidade se pusera em movimento, de acordo com o seu caráter pacato de urbe com pouco mais de 60 mil habitantes, com o seu ir e vir de estudantes e professores para as escolas, de ferroviários para as suas atividades quotidianas, de aguadeiros e pãozeiros para o seu labor costumeiro.

 Entretanto, algumas pessoas estavam alertas a respeito dos acontecimentos da noite do dia anterior, sobretudo, da madrugada daquele primeiro de abril, quando alguns regimentos do sudeste, entre eles, o que estava sob o comando do gen. Olimpio Mourão Filho, iniciavam seu levante, contra o governo constitucionalmente eleito, indicando um golpe militar que, enfim, se perpetrara ao longo do dia.

Embora alertada pelo seu irmão Zé Gama, um então funcionário do banco do Brasil e, moço muito bem-informado a respeito do que se passava no País, a jovem professora Iraci Gama Santa Luzia, confessa não ter se dado conta, da gravidade da situação, para a qual ele pediu que se acautelasse e tivesse cuidado.

 Leitor voraz das diversas publicações de circulação nacional e, atento ouvinte de diversas emissoras de rádio, sobretudo, as do Rio de Janeiro, que tinham boa penetração na região, mormente nas noites/madrugadas, ainda pouco afetadas pelas interferências de estática, Zé Gama, por certo, estava acompanhando o desenrolar dos acontecimentos políticos daqueles últimos dias, principalmente os relacionados com as passeatas, os discursos de diversos setores da sociedade, (entre eles os de autoridades militares, de autoridades civis, setores da imprensa, dirigentes de trabalhadores rurais, de dirigentes sindicais) e com as manifestações de várias categorias operárias e camponesas, ocorridas no findo mês de março. Se ele já não sabia do golpe militar em curso, ao menos suspeitava que, mais cedo ou mais tarde, aquilo iria se tornar fato.

Assim, após desenvolver suas atividades docentes no Ginásio de Alagoinhas onde lecionava, a professora Iraci , então contando 20 anos, ao chegar na esquina da rua Conselheiro Franco com a Castro Leal, próximo ao prédio onde funcionou a delegacia de polícia por muitos anos, deparou-se com o Sr.Esmeraldino, um ferroviário aposentado e bastante politizado, que disse ir-lhe ao encontro, com o objetivo de a levar para tomar parte em um comício que se realizava no coreto que existia nas proximidades do prédio onde funcionou o Banco Econômico. Ali, ela deveria subir no palanque para explicar aos participantes daquele evento, o que de fato estava acontecendo, visto que todos que intentaram fazer, não lograram êxito.

Segundo seu interlocutor, conforme sua descrição em entrevista ao autor destas linhas, só ela poderia dizer o que efetivamente se passava na política nacional, para que, uma vez conhecendo e entendendo o que se dava em Brasília, caso preciso, se convocasse o povo para ir as ruas, quiçá, resistir à quebra constitucional, que, no instante em que trocavam aquelas palavras, aquela ruptura já estava consumada, mas que eles apenas temiam estar prestes a ocorrer.

Aquiescendo ao pedido do aposentado, dirigia-se ao local, quando foi interceptada por um outro homem, o Sr. Cláudio Costa. Este, com o intuito de que ela não chegasse ao palanque onde já a esperavam, retém-lhe os passos, literalmente erguendo-a pela cintura e tirando seus pés do chão e, a conduz ao interior de um Jeep, onde já se encontrava um funcionário do Banco do Brasil, rodando com eles por vários lugares e horas, impedindo-os de participar do tal comício.

Segundo contou a professora, soube-se depois que, todos aqueles que assomaram ao palanque, a fim de explicar os eventos daquela madrugada, acabaram entrando em sérios apuros junto ao regime militar que se instalara naquela data. Só não ocorrendo o mesmo com ela, precisamente pelo fato de ter tido seu caminho interceptado há apenas alguns poucos metros do local para onde se dirigia, disposta a tomar parte no aludido comício.

Ao ser deixada em casa, muito depois do meio-dia e encontrar seus familiares apreensivos por sua demora em chegar para o almoço, já o País vivia sob a presidência da República sendo exercida pelo presidente da Câmara dos Deputados, uma vez que a presidência do Congresso, declarara vaga a cadeira presidencial, em curtíssimo espaço de tempo, a despeito do seu legítimo ocupante, ainda se encontrar vivo e no Território Nacional.

 

Post-scriptum:

Desde então, sobraram relatos de horrores: mortos, exilados, desaparecidos... Até 1985, vinte e um anos depois, o Brasil foi espancado, desancado, aparelhado, aviltado e vilipendiado por instituições que teriam por dever precípuo cuidar do seu território e do seu povo. Com a justificativa de combater “o comunismo”, um fantasma que voltou a rodear a sociedade brasileira cinquenta e dois anos depois, massacres como o perpetrado na região do Araguaia, somam-se às mortes de Marighella (1911-1969) em uma emboscada e, a morte do capitão Lamarca (1937-1971) em ações nunca esclarecidas satisfatoriamente à sociedade brasileira; fazendo crer a sociedade que iria combater “a corrupção – motivação que também produziu o golpe de 2016 e o presidente eleito em 2018 -, o que a história registrou foi um volume ainda maior de corruptos e corruptores agindo sob o guarda-chuva da censura, as vezes driblada para fazer aparecer casos como “Coroa-Brastel”, o escândalo financeiro envolvendo o grupo “delfin”, caso Capemi e o dossiê Baumgarten, entre vários outros.

Felizmente, há uma pesquisa consolidada em torno do período, que deve ser consultada por quem se interessar em saber um pouco mais dos obscuros “anos de chumbo”, tempo infeliz da nossa história” que teima em querer voltar a se abater sobre o brasil.

 

Republicado em 01 de abril de 2021

 

Professor José Jorge Andrade Damasceno  

terça-feira, 30 de março de 2021

Idos de 1991 -Histórias e Memórias de um Estágio que não terminou.

 

Idos de 1991 – trinta anos de um estágio que não terminou

 

Era uma segunda feira e, logo cedo, este escrevedor se dirigiu ao centro da cidade, com o intuito de comprar material de apoio para o seu estágio supervisionado, como cumprimento da última etapa para a conclusão do curso de Licenciatura em História, que já se arrastava à longos cinco anos.

Ao entrar em uma das papelarias, iniciara o seu atendimento uma jovem que comentava um fato que iria marcar a sua memória: dizia a vendedora, que ouvira falar de um acidente que interrompia a vida e a carreira de Gonzaguinha, um dos marcos musicais de uma juventude ainda interessada em boas canções.

Aquela informação fora impactante demais para ser esquecida. Sempre que este escrevedor é remetido àquele momento de sua vida acadêmica, relaciona imediatamente estes dois elementos, a partir dos quais desenvolve o seu rememorar do tão esperado quanto temido dia em que enfrentaria pela primeira vez uma turma de verdade: o estágio.

De posse do material com o qual confeccionaria alguns elementos de apoio às suas aulas, como mapas e quadros esquemáticos, o estagiário voltou para casa em busca do seu inseparável receptor de rádio, a fim de confirmar o que ouvira na loja. Era verdade: Gonzaguinha fora vítima de acidente automobilístico que lhe fora fatal.

É verdade que aquele estagiário pouco conhecia da obra de Gonzaguinha, salvo algumas clássicas e uma antológica que cantava juntamente com o seu pai adotivo, o velho “rei do baião”, aliás, falecido quase dois anos antes. Era “Vida de viajante”, cujo link segue abaixo.

https://youtu.be/hh5BMG69WVI

Mas, o que talvez lhe tenha chamado a atenção, fôra as circunstâncias trágicas daquela morte, em idade tão precoce – Gonzaguinha contava 45 anos (setembro de 1945, abril de 1991) -, bem como a aludida proximidade da morte do quase octogenário Luís Gonzaga.

Mas, voltando ao estágio, dali há alguns dias, depois de ter contado com alguns mapas pertencentes à biblioteca da FFPa e, de contar com o inestimável apoio de Marcos, que com a sua grande habilidade serigráfica, interpretou em quadros esquemáticos as confusas ideias do atemorizado estagiário, tem início as aulas em uma turma do primeiro ano de desenho arquitetônico, aliás, turma cuidadosamente escolhida, no matutino do Centro Integrado Luiz Navarro de Brito – o bem conhecido Estadual -, onde aquele estagiário estudara grande parte de sua vida, espaço que lhe era muitíssimo bem conhecido, o que facilitaria o seu ir e vir, no período que o estágio duraria.

Depois de breve apresentação feita pela professora responsável pela turma, com algum receio, começou enfim aquela atividade que fôra o teste de fogo para este escrevente, visto que, àquela altura, prestes a concluir a Licenciatura em História, jamais entrara em uma sala de aula, para o exercício docente, o que para os demais colegas, inclusive os de semestres menos avançados, era lugar comum.

Um episódio que marcou aquela experiência, foi preconizado por um aluno que o procurara em sua carteira de professor, com o objetivo de dirimir uma dúvida que o assaltara. Perguntou o aluno ao estagiário: “professor, o que é estauto”?

Tendo ouvido o questionamento, percorreu lhe um calafrio, pois a dúvida do aluno estava relacionada a um texto que fora dactilografada pelas funcionárias da “mecanografia” da FFPA, famosas pelos seus erros de datilografia, desde os primeiros semestres cursados pela primeira turma, que ingressara em 1986.

Recobrado do susto, tendo procurado manter a calma, o estagiário pergunta: “meu filho, onde você leu isto”?

- Aqui, professor, no texto: “estauto político da colônia”.

Sem ter qualquer possibilidade de conferir o modo como estava escrito no texto, pediu-se ao aluno que lesse todo o trecho em que ele encontrara a dúvida. Ele foi até a sua carteira, pegou o texto e voltou para ler:

- “Estauto político ...ôh, é estatuto, professor...”

Ufa! Que alívio; não fora a dactilógrafa quem errara, fora o aluno que lera mal!

Tratava-se de uma obra clássica de Caio Prado Júnior, intitulada “Evolução política do Brasil”, de onde se retirou o capítulo “O sentido da colonização”.

Exceto este incidente indicativo da má formação escolar     do aluno, todo o estágio transcorreu com alguma normalidade, tendo até alguns momentos de empatia entre estagiário e alunos.

No entanto, logo após a primeira avaliação feita para aferir o que fora aprendido pela turma e, claro, o êxito do aprendiz de professor em sua tarefa de “ensinar”, eclodiu uma greve de professores, que, ao terminar, inviabilizou a conclusão do estágio, deixando um certo gosto de frustração, visto que o teste a que era submetido o estagiário, não foi levado até ao seu final.

Alagoinhas 30 de março de 2021.

Professor José Jorge Andrade Damasceno

segunda-feira, 22 de março de 2021

Idos de 1996

 

Idos de 1996 - Vinte e cinco anos de docência na Uneb.

 

Era uma manhã de sol de outono, daquele ano da Graça de 1996. Logo cedo, este escrevente tomou o seu café e, se preparou para cumprir um compromisso que ansiosamente esperara por alguns longos, ou, porque não dizer, quase intermináveis meses. Há cerca de quarenta dias, depois de mobilizar algumas pessoas para esquadrinhar o Diário Oficial do Estado, saíra a convocação para que se apresentasse munido de documentação e laudos médicos, para que se desse início ao processo de sua contratação, em cumprimento de sua aprovação em concurso público.

Assim, não sem alguma apreensão, deixara a sua casa e se dirigira até a rodoviária de Alagoinhas, urbe de sua moradia, com o objetivo de se deslocar até a cidade de salvador, para lá iniciar as tratativas junto ao Governo do Estado, atendendo a aludida convocação.

Ao chegar no Cab, se apresentara como tendo sido aprovado em concurso e convocado através do Diário Oficial do Estado para comparecer àquela unidade administrativa, de posse da documentação exigida, com o fito de atender aos requisitos admissionais para o cargo que fizera jus.

Ali começara um périplo que durara todo o dia, uma vez que a médica que o examinara, juntamente com a documentação apresentada, achou por bem exigir que outros laudos lhe fossem entregues, para que pudesse estabelecer o seu juízo a respeito do caso.

Um atestado comprobatório de cegueira e um eletrocardiograma foi suplementarmente pedido, o que obrigou o candidato a se dirigir ao hospital Aliança e, muito bem atendido pelo oftalmologista, dirigiu-se ao Centro Médico e Odontológico do antigo IAPSEB, nas proximidades do Centro Empresarial Iguatemi. Lá contou com a benevolência de funcionários e médicos, o que lhe permitiu não só a realização do exame, como a obtenção do laudo pouco antes do horário de almoço.

Enfim, de posse dos novos laudos exigidos, volta-se ao Cab e lá uma espera que parecera não ter fim, se conclui por volta das dezessete horas, sendo atestado apto para o ingresso no serviço público.

Chegara no setor administrativo da Uneb por volta das dezoito e trinta, após uma longa espera de ônibus que tivesse o cabula como destino; após um trajeto marcado por retenções no trânsito. Ao chegar nas salas onde funcionava o RH, quase não fora atendido, pois, apesar de ainda estar no horário de serviço, a funcionária já se encontrava de bolsa ao ombro, dirigindo-se à saída do setor. Depois de muito argumentar, ela resolveu atender ao candidato, chegado do interior, que teria grande despesa e desgastes caso precisasse voltar no dia seguinte para concluir o processo admissional iniciado no Cab.

Enfim, depois de alguns concursos sem êxito; depois de aguardar quase um ano para ser convocado mediante o concurso exitoso de 1995, em 20 de março de 1996, quarta feira, por volta das dezenove e trinta horas, depois de um dia inteiro de idas e vindas, este relator assinava a documentação que lhe propiciava a admissão nos quadros da Universidade do Estado da Bahia, para o exercício docente na ainda Faculdade de Formação de Professores de alagoinhas, no departamento de Ciências Humanas, no colegiado de História.

 

alguns dias depois, assumia o encargo de ensinar História da américa, o que ainda hoje faz, embora tendo precisado realizar um grande esforço intelectual e um grande investimento em bibliografia, para que pudesse desenvolver a tarefa com alguma qualidade, visto não ser ele pesquisador da área, o que, aliás, seria muitíssimo relevante para a sua carreira acadêmica e para a sua docência.

Aqui cabe uma menção especial ao papel desempenhado pela professora Lina Maria brandão aras, na medida em que foi a pessoa que acolheu a este garatujador; que forneceu dicas de como ele poderia montar o programa de américa II que lhe caberia ministrar; que lhe instruiu no tocante à bibliografia e, até mesmo, passou materiais com os quais se pôde trabalhar naquele iniciar de caminhada. Portanto, vale explicitar a imensa dívida que se tem para com a Professora Doutora Lina Maria Brandão Aras que, mesmo em meio às suas muitas ocupações pessoais e acadêmicas, recebeu este escrevedor em sua residência para estimular, encorajar e orientar aquele atabalhoado e assustado marinheiro que estava prestes a começar a sua primeira viagem na condição de docente do ensino superior.

vai aqui a gratidão deste escrevinhador, ao Deus Eterno que lhe propiciou iniciar e prosseguir neste labor constante; vai aqui o agradecimento e caloroso abraço a todos os alunos que, desde aquela data, passaram pelas mãos desde hoje já sexagenário professor, exigente, chato, insuportável, intragável, rigoroso, dependendo o modo como este ou aquele aluno o avaliara, por todos estes vinte e cinco anos.

Não se pode deixar de reconhecer que com um bom número de alunos se construiu bons laços de amizade, de cooperação, de troca de experiências, tanto de vida, quanto de aprendizado, a partir de leituras em comum, de boas e frutuosas conversas presenciais, através de ferramentas de trocas de mensagens ou, longas chamadas telefônicas; outros tantos, certamente cresceram e amadureceram intelectual e pessoalmente, ao aprenderem com este e com os demais professores pelos quais passaram. É gratificante a possibilidade de ter influenciado, de alguma maneira na vida e na carreira de alguns, poucos, é certo, mas, não se crê que tenha passado em branco na vida de diversos profissionais que hoje atuam no ensino fundamental ou médio, em escolas públicas ou privadas.

Enfim: toda gratidão Ao Deus eterno, o doador da vida e pleno em Graça, abundante em misericórdia, de onde se tirou forças para começar, para continuar, para prosseguir até aqui; é grande o contentamento por ter tido todos vocês como alunos.

domingo, 8 de novembro de 2020

O Voto é "antes de tudo" um direito

 

O voto é antes de tudo, um direito do cidadão – uma responsabilidade de cada eleitor.

 

 

O Brasil construiu a ideia de voto “obrigatório”, talvez por ter uma democracia com raízes pouco profundas, com o fito de evitar que os mais politizados – ou aqueles que resolvessem trocar o seu voto por quinquilharias -, escolhessem por aqueles que não julgassem importante comparecer aos locais de votação, para exercer ali o seu direito de cidadão. Isto equivale a dizer que, se você não escolher, outros escolherão por você e, o seu direito a corrigir uma “escolha” que não fez ou não quis fazer, só poderá voltar a ser exercido quatro anos depois.

 

Alagoinhas tem um histórico eleitoral muito complexo, na medida em que se observa a trajetória das eleições nos últimos quarenta anos. Em 1982, mesmo com o apoio do PCdoB dado ao candidato João Paulilo, Judélio Carmo foi eleito para governar a cidade por seis anos. Sua intervenção no processo urbanístico da cidade ainda se faz perceber, na medida em que estruturou a urbe alagoinhense para receber diversos equipamentos que ainda hoje conformam a paisagem urbanística do município.

Em 1996, como muitos dos leitores devem lembrar, a cidade elegeu o pior gestor que esteve à frente do município, considerando-se o período mencionado. Ao concluir o mandato, além de nada ter sido feito de duradouro, a cidade estava mergulhada no lixo, administrativamente afundada em dívidas, inclusive com os seus trabalhadores há vários meses sem os seus salários e, os demais setores vitais, inteiramente combalidos.

A eleição de 2008, repetida em 2012, apenas para refrescar a memória dos mais velhos e informar aos mais jovens, marcou o retrocesso no cuidado com a coisa pública. Os dois mandatos foram permeados por má administração e pouco transparente gestão dos recursos públicos, implicando em um trabalho pouco voltado para o benefício da população como um todo, ocasionando obras megalomaníacas e grandiloquentes, que só beneficiariam aquele espectro dos munícipes que sempre desfrutaram do melhor quinhão do conforto propiciado pela sua posição econômica e social e, do bem-estar da localização de suas moradias.

Portanto, é preciso salientar que o voto, embora seja um direito do cidadão é, sobretudo, um exercício que deve ser calcado na responsabilidade. O voto em branco não pode ser entendido como uma decisão sábia; tão pouco o voto anulado, significa um ato inteligente. Ambas as ações apontam para uma fuga daqueles que não querem assumir posições claras, no que tange às suas escolhas. Com tais atitudes, estão abrindo mão do direito à escolha, e, por via de consequência, recusando o direito ao “jus esperniandi”.

Por estas e ainda muitas outras razões, crê-se que as eleições para prefeitos e vereadores deveriam ser tratadas com muito mais atenção do que as demais. Elas são o instrumento de que os eleitores dispõem para dar à sua cidade a oportunidade de ajudar no processo de transformação e de desenvolvimento do seu local de moradia, onde moureja no dia a dia, no intento de construir uma urbe limpa, saneada, com boas escolas e com atendimento básico à saúde.

É assim que os eleitores ganham a cada quatro anos a chance de escolher o seu prefeito. Para aproveitar bem a oportunidade que é dada ao cidadão de fazer uma escolha que traga segurança aos munícipes de que se fará bom uso dela, cada eleitor deve aproveitar o ensejo para fazer as suas escolhas baseadas em sua consciência cidadã. as propostas dos candidatos devem ser colocadas de forma clara, e o eleitor deve:

- Julgar racionalmente aquilo que lhe é apresentado;

- Observar a postura do candidato propositor, considerando a seriedade com que se dirige em busca do voto;

- Avaliar, criteriosamente o discurso tanto do candidato que se dirige ao eleitor propondo intervenções urbanas, quanto a viabilidade delas;

- Questionar as propostas, considerando de modo equilibrado a sua capacidade de gerenciar os recursos financeiros de que disporá;

- Usar o seu voto para fazer a sua escolha, não como moeda de troca;

- Impedir que sejam eleitos candidatos que nada proponham de plausível – que aliás é o que faz a grande maioria deles -;

- Meditar friamente diante do que lhe for apresentado, para enfim, tomar a decisão.

Portanto, em 15 de novembro de 2020, é preciso sepultar de uma vez a carreira política daquele que esteve à frente da gestão municipal por oito anos. Ele deveria ser rejeitado nas urnas, não só pela péssima gestão da coisa pública quando governou com os seus amigos e para os seus amigos, como também pela sanha de querer voltar ao paço municipal, sabe-se lá porque e para quê!

 

Jorge Damasceno – 08 de novembro de 2020.

Alagoinhas em vésperas de eleições - 1988

 

Alagoinhas em Vésperas de eleições – 1988 – Nova Carta, velhos jogadores.

 

Na terceira de quatro crônicas em que o seu autor se propõe a fazer algumas incursões acerca de momentos “pré-eleitorais” em Alagoinhas, se procurará promover um rápido rememorar do ano em que o então prefeito Judélio de Souza Carmo(1945-2009) completaria o segundo mandato que lhe fora conferido pelo escrutínio realizado em 1982, que tivera a duração de seis anos e que fora iniciado exatamente dez anos após o tão conturbado primeiro exercício como alcaide, transcorrido entre 1973-1976. Naquele segundo governo, ele implementou algumas intervenções no processo urbanístico da urbe alagoinhense que ainda hoje podem ser percebidas, na medida em que estruturou a cidade para receber diversos equipamentos que ainda hoje conformam a paisagem urbanística do município.

O ano de 1988 chega para ser vivido sob a expectativa da conclusão dos trabalhos da assembleia Nacional Constituinte, que apresenta como parte dos longos debates havidos em todo o seu transcurso, a revogação da Censura – que prevaleceu por toda a vigência do Regime Militar sobre as artes e diversas atividades culturais e intelectuais -, da Tortura – ostensivamente praticada contra presos políticos e/ou suspeitos de “subversão” da “ordem e dos costumes” -, bem como o reestabelecimento da “liberdade” de imprensa, de expressão e de criação. Nas olimpíadas e no automobilismo, Aurélio Miguel e Ayrton Senna ganham medalha de ouro e se torna campeão mundial, respectivamente. É também naquele ano que a siderúrgica de Volta Redonda é invadida pelo exército brasileiro, com o objetivo de desalojar operários em greve, cujo resultado foi de 3 operários mortos e nove gravemente feridos. E no último dia de dezembro, um barco de turismo naufraga na Baía de Guanabara, deixando cinquenta e cinco mortos.

Naquele mesmo ano de 1988, ainda como desdobramento dos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, a chamada “Constituição Cidadã” foi promulgada em 05 de outubro, fazendo com que as instituições do País passassem a ser regidas por aquele novo diploma legal, que nortearia as ações públicas perpetradas no âmbito do Estado de direito. Era uma nova “carta magna” que se destinava a reestruturar o ordenamento jurídico do País, esgarçado pelo regime de exceção que se impôs sobre o Brasil por vinte e um anos, indo um pouco mais além, já que a “Nova República” fora conduzida até então, sob a égide da Carta de 1967/69.

No entanto, a despeito da promulgação da “nova” Carta Magna, o jogo eleitoral de 1988 já estava em andamento e, os times alinhados em torno dos velhos jogadores que os formavam. Marcadas para o dia 15 de novembro de 1988, aquelas eleições transcorreriam pouco mais de quarenta dias após a promulgação do novo texto constitucional.

Assim, o embate pela sucessão de Judélio seria travado por velhos jogadores da cena política alagoinhense, alguns deles travestidos de novos contendores – ao menos, os principais dentre eles -, apresentando-se aos eleitores, como propositores de novos rumos para a cidade que pretendiam governar a partir de 1989.

O próprio então prefeito apresentara um candidato à sua sucessão, que, no entanto, fazia a sua campanha eleitoral, apresentando-se como “diferente” daquele que o apoiava.

Embora houvesse outros postulantes ao Paço municipal – para citar alguns exemplos, teve o candidato pelo PT, Péricles Magalhães, Antônio Carneiro, pelo PFL e a candidata Maria Risélia, cujo partido este autor não se lembra -, a refrega eleitoral foi travada, efetivamente, pelo bancário José Francisco dos Reis, pelo PSB, paradoxalmente apoiado pelo então ocupante da principal cadeira do executivo municipal.  O paradoxo está no fato de “Chico Reis”, como era conhecido na cidade, ter sido o algoz de Judélio Carmo, durante o seu primeiro mandato. Na condição de vereador pela Arena, ele requerera e obtivera o impeachment do cargo de prefeito, – o que trouxera grandes transtornos para Judélio se fazer reinvestir no cargo e concluir o mandato que lhe fora conferido nas urnas.

O outro contendor no embate eleitoral daquele ano, era o comerciante João Paulilo – que contara com o igualmente paradoxal apoio do PCdoB. Tal apoio foi articulado pela cúpula diretiva do “partidão”, formada por comunistas “históricos” como Antônio Fernando (Aranha”, Gavazza, além de Pedro Marcelino, que iniciava o seu ciclo como dirigente partidário.

Tendo recebido apoio de uma parcela significativa da sociedade alagoinhense; contando com o não menos expressivo prestígio relacionado à sua atuação como funcionário do banco do Brasil, concomitante com a sua participação no rádio esportivo local, Chico Reis fez-se eleger com uma grande margem de votos.

No entanto, sua eleição também deve ser creditada ao trabalho desenvolvido por Judélio, não só emprestando-lhe apoio como candidato à sua sucessão, mas, principalmente, com o seu desempenho à frente do governo municipal, durante todo o mandato. Este escrevente não tem memória de nenhum outro prefeito, que tenha governado a cidade nos últimos 50 anos, que tenha conseguido fazer o sucessor, direta ou mesmo indiretamente.

 

Jorge Damasceno – 08 de novembro de 2020.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Há quinze anos, em um dia como o de hoje - 06 de novembro de 2005.

 

Em meio a aspereza da vida de lavadeira, ela ainda encontrava pedaços de versos para cantar! - republicação

 

José Jorge Andrade Damasceno

professordamasceno@gmail.com

historiadorbaiano@gmail.com

 

 

Este texto foi escrito originalmente em 2012, em um dia de junho que se levantou um voluptuoso rio de saudades, que envolveu completamente este que ora escreve estas linhas. Ele será republicado em sua íntegra, acrescido dos links para as músicas comentadas e de um “Post scriptum”, com um pequeno comentário do seu autor.

 

 

Era um dia já distante, no segundo mês da Primavera de 1935. Lá para as bandas de Piritiba, ou mesmo de Andaraí, região de Jacobina, nascia Armanda, ou Amanda, como gostava de ser chamada e, nome que parece ter adotado para si. A primeira das três filhas de Vicente com Epifania, trazendo consigo esperanças. Esperanças que talvez seus pais nutrissem. Talvez não fossem grandes, grandiosas..., mas, esperanças. Ou quem sabe, para aquele lavrador, não seria um desgosto por ser uma filha e não um filho?

Cresce a menina e, ainda na infância, se lhe vai a mãe e, se lhe impõe uma madrasta. A nova mulher do seu pai, certamente não lhe tivera o amor que lhe teria sua finada mamãe. Corre o tempo; crescem as três, em meio a travessuras, brincadeiras, peraltices folguedos infantis;mas também em meio a intrigas, brigas; surras; queixas... Sem letras, sem cultura; só a cultura da luta pela sobrevivência, já se apresentava diante delas, visto não terem o apoio materno, o agrado paterno; nem mesmo a possibilidade de educarem-se para a vida.

Ah Amanda... Aos dezoito se desencaminha; como ela dizia dera o “passo errado”. Ganhara uma brutal reprimenda, o olho da rua e a separação de suas duas irmãs, como conseqüência da decisão de se dar a alguém que não fosse aquele que lhe faria esposa!

E daí para frente, só sofrer; só tentar quantas soluções e alternativas lhe aparecessem, muito poucas, para aquela que sequer sabia “garatujar” seu nome! Não se sabe como, chegara em Salvador, onde fora doméstica; do mesmo modo não sabido, acabara em Alagoinhas, onde se envolvera com homens que vieram a ser pais dos três filhos que vingaram!

E para os abrigar, alimentar, vestir, calçar, instruir? A única profissão que se lhe apresentou desempenhar foi a de “lavadeira de ganho”, que apenas requeria a força dos jovens braços e o cuidado com as peças que lhes fossem confiadas para lavar, passar, engomar e entregar, de casa em casa, a cada uma de suas ”patroas”.

Tinha vinte e cinco anos completos, quando lhe nasceu o terceiro dos cinco filhos que tivera. Quase dois anos depois, aquele se tornara o que lhe demandaria mais preocupações, desvelos e esforços, pois ficara cego e, seria mais um encargo que viria sobre ela, pois, tão cedo, não poderia ajudar-lhe na faina pelo pão, pelo abrigo e demais necessidades que a sobrevivência imporia a ela.

Vencida mais aquela desdita em sua vida, dona Amanda se tornava hábil em desempenhar as atividades braçais que se lhe apresentara como forma de bastar a si e aos seus: tinha já sua freguesia; empunhava o ferro de brasas, com esmero e competência, propiciando-lhe demanda por seu serviço.

E nas mornas tardes de quinta e sexta-feira, quando passava as roupas lavadas entre a segunda e a quarta, embatia-se no trabalho de passar e engomar, tarde a fora, noite a dentro, entre soprares de ferro, reposição de carvões e brasas... Quase sempre em pé, sentando-se só para as parcas e rápidas refeições, dividida entre os afazeres do ganho e o cuidado com os filhos, ia dona Amanda, de semana em semana, de mês em mês, de anos em anos, enfrentando sua lida, quem sabe, esperando que algum dia, pudesse vir a ver algo melhor na vida.

Mas, a ela não faltou a melodia; os versos do cancioneiro, talvez aquelas músicas ouvidas quando ainda menina-moça, em meio às angústias de órfã de mãe.

E, a despeito das exigências que a vida e o trabalho que lhe esgotava as forças físicas, em seus lábios desfilavam pedaços de versos, ou mesmo trechos inteiros, que eram cantados em voz que exprimia sofrimento e, quem sabe, esperança de melhor sorte.

Boleros que exprimiam tristezas, desilusões e desventuras de amores, talvez exprimissem mesmo o seu viver de mulher que nunca tivera “sorte” no amar. Na memória de quem escreve estas linhas, a lembrança viva de sua voz cantando uma música que parecia ser ela própria a autora, cheia de dor e dolência, talvez pelas marcas das feridas que já marcavam aquela alma ainda tão moça, mas já esmagada pelo peso do viver quase errante, de quem fora lançada ao mundo, ainda tão precocemente, obrigada que fora a enfrentar a vida, sem o preparo para entender as suas armadilhas e, preencher as suas exigências:

“Vem o cigana bonita,

 ler o meu destino,

 que mistérios tem;

“Tu com estes olhos de quem vê o amor da gente;

 põe nas minhas mãos, o teu olhar ardente;

 E, procura desvendar o meu segredo;

a dor, cigana, do meu amor;

“Mas, nunca digas oh Zíngara,

que ilusão me espera

qual o meu futuro!”

Só aquela por quem vou vivendo assim à toa;

 tu dirás se a sorte será má ou boa;

Para que ela venha consolar-me um dia;

 a dor, cigana, do meu amor

https://youtu.be/v8JAsBiBGWs

Se lhe fosse perguntado, ela pouco ou nada saberia sobre os intérpretes e compositores das melodias que cantarolava; ainda menos conhecia as circunstâncias e contextos nos quais foram escritas aquelas letras, que encontravam em seu espírito não alcançado pelos laivos de cultura e letramento, terreno fértil no qual espalhavam suas significações. Nunca tivera lido nada sobre quaisquer movimentos culturais, artísticos, visto seu total analfabetismo. Seu primeiro contato com livros, só acontece quando contava mais ou menos trinta e cinco anos, por meio do “Movimento Brasileiro de Alfabetização”, o (MOBRAL).

Como que se embalasse pelas lembranças e estas a ajudasse a encarar sua faina com um pouco mais de resignação, diante dos percalços que se lhe oferecia a vida difícil de uma trabalhadora braçal, entoava esta de Lupicínio Rodrigues (1914-1974), que talvez ela conhecesse pela imortal interpretação de Linda Batista (1919-1988):

https://youtu.be/7xi9hi1NnBA

“Eu gostei tanto,

Tanto quando me contaram;

Que te encontraram chorando e bebendo na mesa de um bar.

É que quando os amigos do peito pormim,

Perguntaram;

Um soluço cortou sua voz e não lhe deixou falar;

“Mas eu gostei tanto, tanto quando me contaram,

Que tive mesmo,

De fazer um esforço

Pra ninguém notar.

“O remorso talvez seja a causa do seu desespero;

Você deve estar bem consciente do que praticou;

Em me fazer passar essa vergonha, como um o companheiro

E a vergonha, é a herança maior, que meu pai me deixou;

“Mas enquanto houver voz em meu peito eu não quero mais nada,

Só vingança, vingança, vingança, aos santos clamar”

E você há de rolar como as pedras,

Que rolam na estrada;

Sem ter nunca, um cantinho de seu,

Pra poder descansar”.

 

Talvez nos dias em que alguma saudade lhe explodisse no peito, cantarolava este bolero de Waldick Soriano (1933-2008), típico cantor de amores frustrados:

https://youtu.be/eK3D2jLHNVw

“Hoje que a noite está calma, e que a minha alma esperava por ti...

Apareceste afinal, torturando este ser que te adora

Volta, fique comigo só mais uma noite;

Quero viver junto a ti,

 volta meu amor,

fique comigo,

 não me desprezes,

a noite é nossa

e o meu amor pertence a ti;

Hoje eu quero paz, quero ternura, em nossas vidas; quero viver por toda vida, pensando em ti.

 

E dona Amanda, sempre de posse de seu ferro de brasas, pouco depois substituído pelo elétrico, mais prático e, que dispensava os assopros e usos de abanos para voltar a esquentar satisfatoriamente, ainda arriscava um samba, como este de Benedito Lacerda (1903-1958) e David Nasser (1917-1980), imortalizado na clássica voz de Nelson Gonçalves (1919-1998):

https://youtu.be/41gdJzBDPrA

“Vestida de azul e branco,

  Trazendo um sorriso franco

Num rostinho encantador;

Rapidamente conquista meu coração sem amor;

Eu que trazia fechado,

Dentro do peito guardado

Meu coração sofredor;

Estou Bastante inclinado

A entregá-lo ao cuidado,

Daquele brotinho em flor

“Mas a Normalista linda, não pode casar ainda, só depois de se formar;

Eu estou apaixonado, o pai da moça é zangado, o remédio é esperar”.

 

Era a partir daquelas músicas que lhe saltavam as lembranças, que ela contava aos filhos, algumas passagens de sua vida; momentos de sua infância cheia de desditas familiares,que explodiam em sua memória, trazendo à tona, as recordações do lugar onde nascera e vivera, toda infância e pequena parte da juventude, se não esplendorosa, ao menos ao lado dos que eram seus.

Desde que expulsa de casa, nunca mais teve com quem contar em quem se ancorar, onde se abrigar, a não ser patrões, estranhos; amores momentâneos e ilusórios...

Era tudo isto evocado do fundo do seu silêncio, a partir daquelas músicas que, em meio as asperezas da vida de lavadeira de ganho, ela podia cantarolar, em um misto de alegria, nostalgia e melancolia, ao cair da tarde das quintas ou sextas-feiras.

Mas, pouco antes de completar trinta e nove anos, naquele junho de 1974, em uma noite fria de inverno, a morte do seu primogênito, ainda moço, aquele que a ajudava no arrimo familiar, fê-la calar de vez sua voz para o canto, dando lugar ao pranto,que nunca mais pôde enxugar.

 

Post scriptum:

 

Há já quinze anos, aquela voz foi calada para sempre. Aos seis dias de novembro de 2005, não mais falou, não mais cantou, não mais mourejou aquela mulher que mal completara setenta de existência, ingressou na eternidade, separando-se deste que hora escreve estas linhas prenhes de saudade. Era ela a razão de tanto esforço que este escrevedor fizera para alcançar os títulos de mestre e doutor, embora para a sua compreensão fosse algo difícil, mas enxia aquela criatura de orgulho pelo seu filho que, não obstante tenha lhe causado tanta aflição, pudera promover ‘lhe a tranquilidade de morrer, sabendo que aquele filho “disoficiente visual” não ficaria à mercê da irmã mais velha e/ou à mercê da caridade pública, o que daria no mesmo!

Durante todo aquele ano de 2005, parte dele passado cursando o doutorado em Niterói, este filho de dona Amanda ouvira  uma belíssima música cristã, genuína, que acabou sendo a sua música de consolo, enquanto chorava a saudade, sofria a dor da separação definitiva e lamentava a perda daquela que fora a única mulher que a ele amou e que por ele foi amada: a sua mãe. Parecia que o seu espírito estava sendo preparado para suportar o que se avizinhava. Uma rádio de Curitiba, escutada através da internet, executava aquele belíssimo hino, em várias ocasiões durante o dia; e, a vontade de chorar ao ouvi-lo, parecia indicar estar próxima alguma coisas que traria grande tristeza àquele ouvinte virtual da BBNRádio.

O então nonagenário cantor evangélico, Feliciano Amaral (1920-2019), com sua magistral interpretação e inconfundível voz, interpretava “Não há melhor Amigo”, que soava como um bálsamo colocado sobre o coração que sangrava. Ainda hoje, ao ouvir aquela maviosa melodia, parece estar vivendo aqueles dias de pranto e tristeza.

 

- Não há melhor amigo,

- Do que Cristo meu Senhor,

-Nos transes que passei

- Foi o meu consolador;

- Tranquilo e paciente

- Muitas dores enfrentei

- Mas, ele me ajudou

- E a dor passou.

- Na hora do sofrer,

- É que a gente vê o amigo;

- E no meu padecer,

- Jesus caminhou comigo!

-Riquezas, ambições

- Do mundo nada me seduz:

- Enquanto meu amigo for Jesus,

- Enquanto meu amigo for Jesus.

https://youtu.be/01JTi8VxM5I

 

José Jorge andrade Damasceno – 06 de novembro de 2020.