terça-feira, 27 de julho de 2021

Histórias e Memórias de uns Tempos Vividos em Salvador - III- Uma Travessa só para Edimar.

Histórias e memórias de uns tempos vividos em salvador – III – Duas travessas de lasanha: uma era só para Edimar

 

Não é sem razão a má querência que este escrevedor nutre pela cidade de Salvador. Além de ser uma cidade muito pouco acolhedora para aqueles que não enxergam, e/ou precisam de auxílios mecânicos para se locomoverem, os seus administradores têm pouquíssimas preocupações com a criação e a manutenção de espaços que possam ser usados pelos pedestres que não vejam ou que tenham mobilidade reduzida por algum motivo. Os espaços urbanos da soterópolis tem como premissa básica o automóvel de uso individual. Estes, por sua vez, são colocados sobre os poucos passeios e, mesmo estes, sempre estão esburacados e sujos; são estreitos ou estreitados pela presença de barracas, bancas de camelô, entre outros obstáculos que dificultam a circulação de pessoas cegas e/ou pessoas com dificuldades de mobilidade, indicando a falta de atenção do poder público, bem como da população em geral, com aqueles que não se encontram no padrão social, econômico e físico tido como normal pela elite pensante responsável pelas políticas públicas visando o funcionamento da metrópole. E, como se disse antes, quanto mais os espaços públicos estão afastados do centro da cidade e dos espaços culturais/turísticos; quanto mais estão localizados nas periferias, tanto mais difíceis as condições de passeios, pavimentos, arruamentos, bem como de sua manutenção/organização.

Conforme já se disse, os casais formados por este garatujador e sua consorte e, dona Nair e seu Edimar, se visitavam com regularidade para conversas regadas a boas refeições e prolongadas conversas. O deslocamento do casal Nair e Edimar até a residência do primeiro casal, era facilitado pelo fato de ser feito no mesmo sentido de quem se dirigia para o Centro Administrativo da Bahia. O problema para eles, era o retorno para casa: ou voltavam andando enfrentando passeios irregulares, maltratados, mal construídos, malcuidados, ou atravessariam as pistas da avenida Paralela, aventurando encontrar quem desse informações sobre o ônibus que eles precisariam utilizar para os levar até o Trobogy, que, como já se disse, era onde eles moravam.

Em um agradável domingo de sol na “capital de todos os baiano”, recebeu-se a visita do casal do Trobogy, para mais um memorável almoço, cujo prato seria lasanha.

O grupo foi reforçado por dois amigos dos casais, que, diga-se de passagem, eram exímios “bons de garfo”, conforme se diz em relação a pessoas cujos apetites estão sempre abertos, diante de uma mesa farta.

Enquanto a massa era preparada, os quatro cidadãos conversavam animadamente sobre os assuntos mais diversos e descontraídos, quase sempre concluídos sobre abundantes gargalhares.

Anunciada a conclusão do processo de preparo e cozimento  da lasanha, cujo cheiro abrira ainda mais o apetite dos famintos comensais, este escrevedor dispôs-se imediatamente a servir os pratos de todos.

Duas travessas foram trazidas para a mesa e, claro, seis pratos fundos, como a ocasião exigia. Tendo feito cada prato, este servidor não economizou na distribuição de conteúdo, alertando aos dois visitantes que faria um prato ainda mais generoso para seu Edimar, observando se ele ainda repetiria...

Ah, cabe salientar que uma das duas travessas fora deliberadamente separada para o marido de dona Nair.

Assim, todos comeram o alimento que fora generosamente colocado nos recipientes, bem medidos, sacudidos e recalcados..., inclusive as duas senhôras.

Terminada a rodada, todos foram perguntados se ainda repetiriam. Todos, ou melhor, quase todos responderam negativamente. A exceção de seu edimar.

Diante do que, o “garçom” improvisado, logo o atendeu, colocando no prato do vizinho, a outra metade da travessa a ele destinada. Ele, por sua vez, não se fez de rogado: para o espanto e estupefação de todos que ali se encontravam e, de todos que depois vieram a saber do caso, seu Edimar devorou mais aquele prato cheio, sacudido e recalcado, sem a menor dificuldade.

Talvez seja preciso lembrar aos leitores que aquele comer abundante, também se fez acompanhar dos líquidos indispensáveis àquele tipo de refeição!

 

José Jorge Andrade damasceno  - 27 de julho de 2021.

sexta-feira, 23 de julho de 2021

"Só as pelancas, a gordura e os ossos"!

Histórias e Memórias de uns tempos vividos em Salvador – Dois casais e um cozido

 

Morar em Salvador é acima de tudo uma arte. E se este morar se dá nas áreas periféricas e por pessoas cegas, aí, crê-se que a arte é mais que uma arte: é um artifício. E, se este morar é tiro curto e a contragosto, passa a ser um sacrifício. Transporte, deslocamento, ajuste aos espaços exíguos das moradias; ajuste aos espaços públicos, disputados aos empurrões com pessoas, automóveis, vendedores de tudo quanto é bugiganga e quinquilharia; esperas pelo ônibus que precisa por tempo indefinido; informações que necessita obter, muitas vezes, relacionadas ao ônibus que o levará ao local de trabalho e/ou moradia; tudo isto somado e multiplicado com a má vontade de toda a ordem que tem de enfrentar dia após dia, leva aquele que já não nutre a menor simpatia pela cidade, a detestá-la cada vez, com mais força e convicção.

Como  já foi dito, este escrevedor e sua consorte, por dois anos mantiveram residência na cidade da Bahia, em um conjunto residencial rebatizado de “Condomínio”, que se situava na Paralela, em um dos acessos ao conjunto “Paralela Parque”.

Em um outro ponto mais acima, situava-se outro conjunto popular, que ostentava o esquisitíssimo nome de “Trobogy”. Ali, residia um outro casal com o qual se estabelecera uma relação amistosa, formado por seu Edimar e dona Nair, a mesma que havia indicado a sua diarista para que pudesse ajudar nos trabalhos domésticos do primeiro casal.

Embora o primeiro casal tivesse mais dificuldades de visitar o segundo, em razão do deslocamento até ao “Trobogy” ser dificultado pela sua localização estar na contramão da trajetória dos ônibus, que, diga-se de passagem, serviam aos dois conjuntos, no sentido Aeroporto Centro, passando primeiro no “Trobogy” e, só depois, passando na frente do dito “Condomínio”, em direção ao Paralela Parque.

Isto significava a dificuldade de se chegar ao “Trobogy”, pois o trajeto tinha que ser feito a pé. Ainda assim, algumas visitas foram trocadas e, claro, ideias e almoços.

Em uma de tais idas até a casa  de Nair e Edimar, as duas senhoras prepararam o famoso “Cozido”, aliás, muito saboroso guisado de carnes e verduras, acompanhado do indispensável pirão de farinha de mandioca.

Concluídos os trabalhos de preparo e cozimento da refeição, os quatro se puseram à mesa para refestelarem-se com aquele cozido, cujo delicioso odor invadia a sala onde os folgados conversavam e riam aos bocados.

As senhoras, dispondo-se a servir o almoço, elaboraram generosos pratos para si mesmas e para os seus consortes, que devoraram o guisado com a voracidade de quem estava há alguns dias em jejum preparatório.

O pitoresco ficou por conta de dona Nair que, a despeito de ter feito o prato a à altura do apetite do seu consorte, informou-lhe:

- Mô, se quiser mais, pode tomar conta das panelas...

E não é que “mô”, após devorar o que fora colocado no prato por dona Nair, visitou as panelas mais algumas vezes, até que só restasse as pelancas, a gordura e os ossos?

 

José Jorge Andrade Damasceno – 23 de julho de 2021.

 

  

quinta-feira, 22 de julho de 2021

"Eu num quero minhas panela preta"!

Histórias e Memórias de uns tempos vividos em Salvador – “Eu Num Quero Minhas panela Preta!”

 

Entre julho de 1998 e junho de 2000, muito a contragosto, este escrevedor residiu em um apartamento – apertamento -,no segundo andar de um conjunto  residencial construído ao longo da avenida Luís Viana Filho, mais conhecida como Avenida Paralela. Os moradores, talvez, para dar um ar de status social, chamava o dito conjunto de “Condomínio”.

Segundo o proprietário do imóvel, era um apartamento de 51 metros quadrados, que mais parecia uma gaiola de concreto, sobretudo, para quem sempre residiu em casa, embora modesta, porém, ampla, arejada e, principalmente, sem quaisquer tipos de vigilância, claro, excetuando-se aquelas exercitadas por vizinhos ávidos de novidades sobre a vida dos outros. Aliás, tal vigilância era potencializada naquele dito condomínio, visto que a entrada e a saída, a comida e a bebida dos moradores, era vigiada, sabida e criticada por quase todos. As janelas de vidro inteiriço, obrigava a posse de cortinas, sob pena de se bisbilhotar, até mesmo o que um casal fazia sob os lençóis de linho!

O piso era do tipo “Paviflex” e, o da cozinha, saliente-se, estava bastante destabocado; enquanto o banheiro, a qualquer descuido, vazava no apartamento de baixo! Imagine-se o transtorno!

Dona Nair, moradora em um conjunto próximo e conhecida do casal recém aportado na cidade da Bahia – aliás, só o tabaréu que era de Alagoinhas -, indicou uma jovem que lhe prestava serviço de diarista, para que também o fizesse àquele casal, visto que era uma jovem senhora, sem maus hábitos e de confiança, embora, cá entre nós, fosse um tanto quanto atrapalhada das faculdades pensantes!

Certa vez, enquanto fazia o seu serviço, a diarista contou que a senhora sua mãe, ganhara de um dos filhos, uma panela “antiaderente” e, ficou encafifada, pois não entendia por que aquela panela, embora nova, já estivesse preta. A jovem explicou que a panela era de “telefone”... Diante das caras interrogativas do casal, ela explicou:

- Aquela que não gruda...

- Ah, sim, teflon! – Disse a dona da casa...

- Isso, “telefone”, repetiu....

Pois bem, disse ela que sua mãe, não conformada com o “defeito” da panela e, vendo infrutíferos os seus esforços de limpar a sujeira persistente, lançou mão de um pedaço de “Bombril” e, esfregou a dita panela, até que ela ficasse alvinha, como deveria ser...

Sendo chamada a atenção pela filha, dizendo que aquela panela era “moda” e as senhoras para quem trabalhava também possuía, a mamãe argumentou :

- “minha fia, eu num quero minhas panela preta”! 


José Jorge Andrade damasceno - 22 de julho de 2021.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Dona Bidôga: "Eu bebo por esporte"!

 

Dona Bidôga – entre o ferro de brasas e a lágrima de amor perdido: uma música

 

 

Justina Santos. Mas, ninguém a procurava por este nome. Bidôga, era como queria ser chamada e, assim, sempre fora chamada, inclusive pelos mais próximos: pela mãe – Dona Maria -, pela única filha – Ana Cristina(neném) -, pelas amigas e vizinhas e, como não poderia deixar de ser, pelos filhos destas últimas.

Conforme era a sua vida, assim o era para uma boa parte das suas vizinhas: lavadeira de ganho, atividade composta de movimentos que as levava à beira do rio, para ali, lavar, quarar e enxugar as roupas que as patroas lhes incumbiam fazer. O penoso trabalho semanal era levado a bom termo, com pouco sabão e, com remuneração insuficiente para atender as necessidades intrínsecas de uma pessoa humana, sobretudo, daquelas que, quase sempre, eram o arrimo da família, fosse ela pequena ou numerosa. Isto as obrigava a ter várias lavagens de roupas, de forma que as possibilitassem a realização dos “arranjos”, expressão por elas usada, querendo significar a obtenção do mínimo que pudesse mitigar as necessidades de alimento, de vestuário, bem como de outras necessidades repentinamente surgidas, como remédios, por exemplo.

A atividade iniciada à beira do rio, era complementada com o “passar” e, em ocasiões especiais ‘engomar”, sempre com ferros de passar, que, nos primeiros tempos e até o fim da década de 1960 – quando elas adquirem os primeiros ferros elétricos (TUPI) -, eles eram de carvão – também eram conhecidos como “ferros de brasa”.

Após completar as etapas de seus labores com as “roupas” das patroas, chegava a hora de fazer a entrega das limpas e trazer as sujas para a semana seguinte, quando retomariam o labutar cotidiano, levado a cabo por anos a fio dos seus existires, com o qual proviam suas vidas e as de todos que tivessem sob o seu encargo.

Mas, havia que se encontrar meios para suportar o peso de tão grande labor e responsabilidade, visto que, qualquer avaria ou extravio de alguma peça, as lavadeiras eram obrigadas a ressarcir as patroas, quer com descontos em seus parcos vencimentos, quer por restituição da peça extraviada ou avariada, o que, saliente-se, era tarefa quase impossível para aquelas mulheres que nada tinham de seu, a não ser a sua força de trabalho.

Elas Também precisavam lidar com os “amores’, que, quase sempre, eram fugazes e fugidios, produzindo melancolias e dores de “amor”, que levava algumas delas a procurar afogar no copo de pinga ou, a consolarem-se em músicas que aliviassem os seus “ais”.

Dona Bidôga, inúmeras vezes, valeu-se dos dois artifícios para prosseguir no seu labor, sem prostrar-se diante da desventura afetiva que lhe abatera com alguma frequência. Boa praticante da arte de “virar copos”, algumas vezes sacrificou tal “esporte”, para não perder o amado; outras vezes, mergulhara fundo no “beber por esporte”, como dizia, a fim de afogar a decepção que um ou outro amor lhe causara.

Mas, Dona Bidôga também cantava. Principalmente quando o amado vinha para os seus braços e, claro, quando alguma alegria enxia aquele peito sofrido de fainas diárias e de labutares constantes.

Ficou na memória deste escrevedor, uma frase que ela cantava, que muitas vezes vinha aos ouvidos, quando dela se rememorava alguma coisa, alguma palavra. Muito amiga de mãe e, muitas vezes brigaram ambas, de modo que a vida de uma e de outra, em vários momentos se imiscuem em tais memórias.

Algumas vezes, se chegou a perguntar se aquela música existia mesmo, sempre adiando uma pesquisa para ver se de algum modo a encontraria por aí.

Assim dizia a única frase – que era cantada, ou que ficou neste rememorar: “A mulher quando chora pelo homem, é mentira pura”.

Hoje pela manhã, decidido a saber se tal música de fato existira, uma grande surpresa para quem escreve estas linhas: a música existe, cantada por Ataulfo Alves, música que certamente ela ouvira, em algum rádio, de algum vizinho mais bem aquinhoado ou, quem sabe, em casa de alguma patroa, no pouco tempo que lá passava, enquanto entregava a roupa limpa, recebia a roupa suja e, se fosse remunerada por semana, receberia o seu minguado dinheiro, para o “arranjo” do sábado.

A música, de fato, tem como título “Mentira Pura”. Mas, a surpresa está por conta da re(leitura feita por Dona Bidôga, talvez por ouvir poucas vezes; talvez por não ter podido compreender a complexidade da letra – complexidade para ela, saliente-se, que além de ter um acesso parcial aos veículos de execução musical, também estava alijada dos processos de leitura e escrita.

A poesia de Ataulfo Alves diz no seu refrão “Mulher que chora/homem que jura/não acreditem não/ é mentira pura”. Na sua simplicidade de lavadeira e passadeira de ganho, ela simplificou a frase, evidentemente, descrevendo aquilo que talvez vivesse ou vivenciasse no seu farfalhar diário.

 

https://youtu.be/oN-HO1DxglI

 

José Jorge Andrade Damasceno

 - 19 de julho de 2021.

quarta-feira, 30 de junho de 2021

Vencido mais um semestre. Mas, e daí: milhares não o puderam completar!

 

Trinta de junho – mais de um ano (com)finados

Desde fevereiro de 2020, a Covid19 domina todos os cenários de mortes, angústias e aflições por todo o mundo habitado, sem que quaisquer roteirista de filmes ou séries fossem capazes de antecipar em sua quase inacreditável criatividade. Talvez não haja nenhum precedente entre os produtores de películas de “ficção científica” que tenha podido imaginar tão catastrófico período do viver humano.

Há pouco mais de cem anos era a insensatamente denominada “Gripe Espanhola” que roubava a cena e a vida de alguns milhões de pessoas mundo a fora; mas, diante da atual pandemia, parece que ela será desbancada tanto no que tange ao número de pessoas atingidas, quanto no tocante à duração de seus efeitos devastadores de vidas e relações de toda a ordem.

No Brasil, a Covid19 tem uma incidência ainda mais devastadora, no sentido de atingir a sociedade, a economia, a saúde – quando estas linhas estão sendo escritas, o número de mortes notificadas já avança para alcançar quinhentos e vinte mil pessoas – e, como se não já fosse grande a derrocada, arrastou um grande oceano de lama pútrida para a já putrefata política governamental ora vigente no País.

Os elementos que deveriam coordenar as ações impeditivas do avanço da pandemia; que deveriam envidar esforços para socorrer os que por ela fossem atingidos, passaram a ver a desgraça que se abate sobre grande número de famílias brasileiras, como uma oportunidade de lucrar, de ampliar ainda mais os ganhos financeiros, mediante os diversos mecanismos sobejamente conhecidos e utilizados pelos excelentíssimos senhores abutres que se lançam esfomeados sobre o erário, promovendo negociatas com os diversos itens de socorro e proteção da população.

O que para os atingidos pela pandemia tem sido motivo de tristeza e dor, para os achacadores da nação, trata-se de uma entre tantas maneiras de engordar os seus cofres pessoais, já obesos, mas nunca fartos, da gordura arrancada do contribuinte.

Quanto aos demais, eles recomendam ainda que tacitamente, que enterrem os seus finados, engulam o choro e prossigam se expondo para aumentar ainda mais o número dos que serão contaminados e/ou sejam mortos pelo Vírus original, ou por suas muitas variantes. Afinal, é assim que eles enriquecem um pouco mais; é assim que suas fortunas ficam ainda mais volumosas; é assim que surgem as oportunidades de encetarem negociatas para a obtenção de maiores vantagens, propinas e, sobretudo, reforçar as suas relações de poder, mediante a cooptação do legislativo que os sustentam e salvaguardam.

 

José Jorge Andrade Damasceno- 30 de junho de 2021.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

"Aquela não foi uma manhã comum" - Republicando um texto escrito em 2013

 

Histórias e memórias “daquela que não foi uma manhã comum”.

 

Originalmente publicado no Alagoinhas Hoje em março de 2013.

 

 

O amanhecer de 1º de abril de 1964, ficou gravado na história política e social brasileira, como tendo sido apenas o início de um tempo de muitas nuvens, com grande capacidade de formação de tempestades. Algumas gerações de ativistas políticos locais e nacionais, foram atingidas pelas inúmeras borrascas que se abateram sobre a frágil e instável democracia brasileira, instaurada a partir de 1945. As prisões, perseguições, torturas e mortes de lideranças políticas e sociais cujos efeitos ainda se fazem sentir, mesmo já tendo transcorrido quase 50 anos, revelam apenas uma das muitas faces do período que aquele abril, tristemente testemunhava.

 Como as folhas de outono, em todos os quadrantes do País, muitos líderes caíram, murcharam, secaram e morreram, tanto sob o ponto de vista físico, quanto no âmbito da atuação política partidária, artística e/ou sindical, na medida em que a brutal atividade repressiva, levada a efeito nos 21 anos de duração do inverno político brasileiro, não conheceu limites, nem mesmo fronteiras. Na medida em que se fechava o cerco em torno dos homens e mulheres envolvidos em atividades artísticas “engajadas”, políticas ou sindicais, a brutalidade da repressão e a dureza do Regime se fez mais sentida e presente, nas cidades onde os traços de “subversão” fossem pressentidos, ou, apenas presumidos.

Em Alagoinhas, cidade marcada por uma efervescente atividade política e sindical, sobretudo, pela presença de um operariado inserido em um processo de formação política bastante arraigado, aquele dia se afigurava com prenúncios de céu carrancudo e cinzento.

Através do rádio, então ainda o grande meio de transmissão das notícias do País e do mundo, alguns daqueles homens e mulheres eram informados que o País, amanhecia sob a marcha das Forças Armadas, em processo de sublevação, cujo objetivo era tomar o controle político e se empoleirar no comando do poder executivo, defenestrando um presidente que ali fora colocado pela via eleitoral.

Como muitos alagoinhenses já eram dotados de uma capacidade de compreensão do que se passava à sua volta, sobretudo os trabalhadores ferroviários e funcionários do Banco do Brasil, além de trabalhadores pertencentes a outras categorias, entendiam que era preciso levar aos demais munícipes, a explicação do que efetivamente se passava na conjuntura política do Brasil, com o intuito de, quem sabe, organizar alguma resistência ao golpe militar, àquela altura, já em curso.

Demonstrando grande capacidade de articulação e poder de mobilização, líderes políticos locais, conseguiram reunir um bom número de pessoas em um comício, realizado nas primeiras horas da manhã, na Praça Graciliano de Freitas, nas proximidades do prédio dos Correios e da Prefeitura Municipal, na expectativa de levar a explicação dos acontecimentos, aos que ali se encontravam ansiosos por entendê-los.

Mas ao que tudo indica, tomando-se em conta o relato de uma pessoa que viveu o episódio e, conhecia líderes operários da época, a grande dificuldade estava justamente em encontrar, quem entendesse o que se passava e, ainda pior: quem pudesse explicar o que estava ocorrendo na política do País, de maneira que os participantes do evento ali, naquela praça, pudessem vir a compreender.

Enquanto se buscava desesperadamente alguém que pudesse fazer a conexão entre os fatos e os seus desdobramentos para a vida política e social da cidade, as forças repressivas ligadas ao “novo regime”, já estavam prontas para agir, de modo a não perder o controle da situação.

Naquela quarta-feira atípica, a cidade se pusera em movimento, de acordo com o seu caráter pacato de urbe com pouco mais de 60 mil habitantes, com o seu ir e vir de estudantes e professores para as escolas, de ferroviários para as suas atividades quotidianas, de aguadeiros e pãozeiros para o seu labor costumeiro.

 Entretanto, algumas pessoas estavam alertas a respeito dos acontecimentos da noite do dia anterior, sobretudo, da madrugada daquele primeiro de abril, quando alguns regimentos do sudeste, entre eles, o que estava sob o comando do gen. Olimpio Mourão Filho, iniciavam seu levante, contra o governo constitucionalmente eleito, indicando um golpe militar que, enfim, se perpetrara ao longo do dia.

Embora alertada pelo seu irmão Zé Gama, um então funcionário do banco do Brasil e, moço muito bem-informado a respeito do que se passava no País, a jovem professora Iraci Gama Santa Luzia, confessa não ter se dado conta, da gravidade da situação, para a qual ele pediu que se acautelasse e tivesse cuidado.

 Leitor voraz das diversas publicações de circulação nacional e, atento ouvinte de diversas emissoras de rádio, sobretudo, as do Rio de Janeiro, que tinham boa penetração na região, mormente nas noites/madrugadas, ainda pouco afetadas pelas interferências de estática, Zé Gama, por certo, estava acompanhando o desenrolar dos acontecimentos políticos daqueles últimos dias, principalmente os relacionados com as passeatas, os discursos de diversos setores da sociedade, (entre eles os de autoridades militares, de autoridades civis, setores da imprensa, dirigentes de trabalhadores rurais, de dirigentes sindicais) e com as manifestações de várias categorias operárias e camponesas, ocorridas no findo mês de março. Se ele já não sabia do golpe militar em curso, ao menos suspeitava que, mais cedo ou mais tarde, aquilo iria se tornar fato.

Assim, após desenvolver suas atividades docentes no Ginásio de Alagoinhas onde lecionava, a professora Iraci , então contando 20 anos, ao chegar na esquina da rua Conselheiro Franco com a Castro Leal, próximo ao prédio onde funcionou a delegacia de polícia por muitos anos, deparou-se com o Sr.Esmeraldino, um ferroviário aposentado e bastante politizado, que disse ir-lhe ao encontro, com o objetivo de a levar para tomar parte em um comício que se realizava no coreto que existia nas proximidades do prédio onde funcionou o Banco Econômico. Ali, ela deveria subir no palanque para explicar aos participantes daquele evento, o que de fato estava acontecendo, visto que todos que intentaram fazer, não lograram êxito.

Segundo seu interlocutor, conforme sua descrição em entrevista ao autor destas linhas, só ela poderia dizer o que efetivamente se passava na política nacional, para que, uma vez conhecendo e entendendo o que se dava em Brasília, caso preciso, se convocasse o povo para ir as ruas, quiçá, resistir à quebra constitucional, que, no instante em que trocavam aquelas palavras, aquela ruptura já estava consumada, mas que eles apenas temiam estar prestes a ocorrer.

Aquiescendo ao pedido do aposentado, dirigia-se ao local, quando foi interceptada por um outro homem, o Sr. Cláudio Costa. Este, com o intuito de que ela não chegasse ao palanque onde já a esperavam, retém-lhe os passos, literalmente erguendo-a pela cintura e tirando seus pés do chão e, a conduz ao interior de um Jeep, onde já se encontrava um funcionário do Banco do Brasil, rodando com eles por vários lugares e horas, impedindo-os de participar do tal comício.

Segundo contou a professora, soube-se depois que, todos aqueles que assomaram ao palanque, a fim de explicar os eventos daquela madrugada, acabaram entrando em sérios apuros junto ao regime militar que se instalara naquela data. Só não ocorrendo o mesmo com ela, precisamente pelo fato de ter tido seu caminho interceptado há apenas alguns poucos metros do local para onde se dirigia, disposta a tomar parte no aludido comício.

Ao ser deixada em casa, muito depois do meio-dia e encontrar seus familiares apreensivos por sua demora em chegar para o almoço, já o País vivia sob a presidência da República sendo exercida pelo presidente da Câmara dos Deputados, uma vez que a presidência do Congresso, declarara vaga a cadeira presidencial, em curtíssimo espaço de tempo, a despeito do seu legítimo ocupante, ainda se encontrar vivo e no Território Nacional.

 

Post-scriptum:

Desde então, sobraram relatos de horrores: mortos, exilados, desaparecidos... Até 1985, vinte e um anos depois, o Brasil foi espancado, desancado, aparelhado, aviltado e vilipendiado por instituições que teriam por dever precípuo cuidar do seu território e do seu povo. Com a justificativa de combater “o comunismo”, um fantasma que voltou a rodear a sociedade brasileira cinquenta e dois anos depois, massacres como o perpetrado na região do Araguaia, somam-se às mortes de Marighella (1911-1969) em uma emboscada e, a morte do capitão Lamarca (1937-1971) em ações nunca esclarecidas satisfatoriamente à sociedade brasileira; fazendo crer a sociedade que iria combater “a corrupção – motivação que também produziu o golpe de 2016 e o presidente eleito em 2018 -, o que a história registrou foi um volume ainda maior de corruptos e corruptores agindo sob o guarda-chuva da censura, as vezes driblada para fazer aparecer casos como “Coroa-Brastel”, o escândalo financeiro envolvendo o grupo “delfin”, caso Capemi e o dossiê Baumgarten, entre vários outros.

Felizmente, há uma pesquisa consolidada em torno do período, que deve ser consultada por quem se interessar em saber um pouco mais dos obscuros “anos de chumbo”, tempo infeliz da nossa história” que teima em querer voltar a se abater sobre o brasil.

 

Republicado em 01 de abril de 2021

 

Professor José Jorge Andrade Damasceno  

terça-feira, 30 de março de 2021

Idos de 1991 -Histórias e Memórias de um Estágio que não terminou.

 

Idos de 1991 – trinta anos de um estágio que não terminou

 

Era uma segunda feira e, logo cedo, este escrevedor se dirigiu ao centro da cidade, com o intuito de comprar material de apoio para o seu estágio supervisionado, como cumprimento da última etapa para a conclusão do curso de Licenciatura em História, que já se arrastava à longos cinco anos.

Ao entrar em uma das papelarias, iniciara o seu atendimento uma jovem que comentava um fato que iria marcar a sua memória: dizia a vendedora, que ouvira falar de um acidente que interrompia a vida e a carreira de Gonzaguinha, um dos marcos musicais de uma juventude ainda interessada em boas canções.

Aquela informação fora impactante demais para ser esquecida. Sempre que este escrevedor é remetido àquele momento de sua vida acadêmica, relaciona imediatamente estes dois elementos, a partir dos quais desenvolve o seu rememorar do tão esperado quanto temido dia em que enfrentaria pela primeira vez uma turma de verdade: o estágio.

De posse do material com o qual confeccionaria alguns elementos de apoio às suas aulas, como mapas e quadros esquemáticos, o estagiário voltou para casa em busca do seu inseparável receptor de rádio, a fim de confirmar o que ouvira na loja. Era verdade: Gonzaguinha fora vítima de acidente automobilístico que lhe fora fatal.

É verdade que aquele estagiário pouco conhecia da obra de Gonzaguinha, salvo algumas clássicas e uma antológica que cantava juntamente com o seu pai adotivo, o velho “rei do baião”, aliás, falecido quase dois anos antes. Era “Vida de viajante”, cujo link segue abaixo.

https://youtu.be/hh5BMG69WVI

Mas, o que talvez lhe tenha chamado a atenção, fôra as circunstâncias trágicas daquela morte, em idade tão precoce – Gonzaguinha contava 45 anos (setembro de 1945, abril de 1991) -, bem como a aludida proximidade da morte do quase octogenário Luís Gonzaga.

Mas, voltando ao estágio, dali há alguns dias, depois de ter contado com alguns mapas pertencentes à biblioteca da FFPa e, de contar com o inestimável apoio de Marcos, que com a sua grande habilidade serigráfica, interpretou em quadros esquemáticos as confusas ideias do atemorizado estagiário, tem início as aulas em uma turma do primeiro ano de desenho arquitetônico, aliás, turma cuidadosamente escolhida, no matutino do Centro Integrado Luiz Navarro de Brito – o bem conhecido Estadual -, onde aquele estagiário estudara grande parte de sua vida, espaço que lhe era muitíssimo bem conhecido, o que facilitaria o seu ir e vir, no período que o estágio duraria.

Depois de breve apresentação feita pela professora responsável pela turma, com algum receio, começou enfim aquela atividade que fôra o teste de fogo para este escrevente, visto que, àquela altura, prestes a concluir a Licenciatura em História, jamais entrara em uma sala de aula, para o exercício docente, o que para os demais colegas, inclusive os de semestres menos avançados, era lugar comum.

Um episódio que marcou aquela experiência, foi preconizado por um aluno que o procurara em sua carteira de professor, com o objetivo de dirimir uma dúvida que o assaltara. Perguntou o aluno ao estagiário: “professor, o que é estauto”?

Tendo ouvido o questionamento, percorreu lhe um calafrio, pois a dúvida do aluno estava relacionada a um texto que fora dactilografada pelas funcionárias da “mecanografia” da FFPA, famosas pelos seus erros de datilografia, desde os primeiros semestres cursados pela primeira turma, que ingressara em 1986.

Recobrado do susto, tendo procurado manter a calma, o estagiário pergunta: “meu filho, onde você leu isto”?

- Aqui, professor, no texto: “estauto político da colônia”.

Sem ter qualquer possibilidade de conferir o modo como estava escrito no texto, pediu-se ao aluno que lesse todo o trecho em que ele encontrara a dúvida. Ele foi até a sua carteira, pegou o texto e voltou para ler:

- “Estauto político ...ôh, é estatuto, professor...”

Ufa! Que alívio; não fora a dactilógrafa quem errara, fora o aluno que lera mal!

Tratava-se de uma obra clássica de Caio Prado Júnior, intitulada “Evolução política do Brasil”, de onde se retirou o capítulo “O sentido da colonização”.

Exceto este incidente indicativo da má formação escolar     do aluno, todo o estágio transcorreu com alguma normalidade, tendo até alguns momentos de empatia entre estagiário e alunos.

No entanto, logo após a primeira avaliação feita para aferir o que fora aprendido pela turma e, claro, o êxito do aprendiz de professor em sua tarefa de “ensinar”, eclodiu uma greve de professores, que, ao terminar, inviabilizou a conclusão do estágio, deixando um certo gosto de frustração, visto que o teste a que era submetido o estagiário, não foi levado até ao seu final.

Alagoinhas 30 de março de 2021.

Professor José Jorge Andrade Damasceno