domingo, 2 de agosto de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – III.


Introdução – segue

 

Mais uma vez, o paciente leitor tem diante de si, uma tentativa de refletir sobre o modo como José Mário se relacionava com a produção literária que lhe caíra nas mãos, nas mais diferentes etapas do seu processo formativo. Ali, de per si, ele procurava se moldar enquanto quem precisava apreender a realidade à sua volta, na medida mesmo das suas limitações sensoriais. Em tal contexto, o rádio e os livros eram, simultânea e paradoxalmente, o modo por meio do qual ele conseguia perceber o mundo e dele fazer a sua leitura, ainda que, em vários momentos, tal leitura não correspondesse precisamente ao que de fato era ou poderia vir a ser. Se a percepção de mundo a partir da radiodifusão era mediada pelas locuções oriundas de programas de tipo noticiarista, entretenimento ou opinativo, filtrada pela censura ou pela autocensura – situações que se originavam nos órgãos repressivos do Estado, chegando à ser perpetradas pela direção e pelo grupo proprietário das emissoras, quase sempre aliados ao Regime autoritário em vigência no Brasil pós-64 –, era ao mergulhar na literatura que ele poderia escapar dos filtros que o impediam de perceber o Brasil real, o Mundo real em que ele estava inserido. No entanto, mesmo com a liberdade de alcançar um mais amplo entendimento de uma parte daquilo que se lhe apresentava cotidianamente, faltava a ele, os elementos filosóficos que poderia chamar em seu socorro, no sentido de elaborar a interpretação do que lia e, principalmente, propiciar a aplicação à sua construção mental, daquilo que lia. Nem se está a falar de uma filosofia livresca e distante da sua realidade intrínseca; mas, sim, de um dia a dia cercado de gentes que lhe pudesse ajudar a compreender o que de fato se passava com a espécie humana, que insistia na guerra, na acumulação de haveres e mesmo de saberes, por um grupo de humanos, em detrimento do depauperamento de outros grupos tão humanos quanto os primeiros. Esta explicação nunca lhe fora dada, até porque, ele quase que não possuía tal percepção; mesmo ele sendo parte daquele grupo depauperado, talvez, sequer se desse conta de que aquele estado de coisas era socialmente construído e, sustentado à custa dos inúmeros que pouco ou nada possuíam.

Assim, era a literatura que o informava de tais diferenças, embora isto ele não percebesse de imediato, uma vez que, para ele, a literatura era fruto de imaginações vindas de cabeças férteis e, por assim dizer, “iluminadas”, que traziam para os livros os enredos por eles pensados, com o fito de promover uma espécie de torpor, naqueles leitores que, por acaso, se viessem a reconhecer em algum daqueles personagens que tivessem sido caracterizados de modo a aproximar-se de quem os encontrasse representados naquelas páginas. Para José Mário, a literatura não passava de um debate intelectual, por vezes romanesco, por outras mais próximo do mundo realmente vivido pelas pessoas de carne e osso, mas, sempre algo imaginado, criado, mentalmente elaborado, sem a pretensão de apresentar ao leitor alguma coisa factível. Para ele, aquele conjunto de enredos bem urdidos, sistematicamente elaborados, era, quase sempre, uma representação do real, sem nunca se pretender apresentar o que e como de fato era. José Mário não conseguia estabelecer quaisquer nexos que lhe permitisse compreender uma obra apresentada como realista, romântica ou naturalista, como sendo uma manifestação de seus autores em favor de uma mudança social ou mesmo, em defesa de um determinado status quo.

Talvez, se pudesse aqui conjecturar, evidentemente, com base na experiência já há muito passada, que, tivesse ele tido acesso à leitura de jornais, considerando-os, no que tange à variedade de suas tendências, na diversidade de sua circulação, no público leitor que pretendia alcançar, bem como no variado espectro do modo de pensar dos seus redatores e/ou proprietários, tendo contato com as suas notícias, os seus editoriais, com as suas reportagens/matérias e, principalmente com os seus artigos opinativos, José Mário teria adquirido elementos mais sólidos em que elaborar um melhor perceber da literatura, que é um pacote fechado que, quando entregue ao leitor, nenhum dos seus construtos poderia ser alterado. Houvera ele tomado contato com as crônicas e com os artigos que eram publicados nos diversos periódicos que circularam no tempo em que se dera a sua formação, é provável que lhe fornecessem os elementos que lhe faltavam para melhor compreender a produção literária que lhe formatara o pensar. Os jornais, embora igualmente submetidos à censura e à autocensura, conseguiam contornar melhor os interditos e, por conta da sua imediaticidade, os filtros se tornavam menos eficazes. O fato de ser publicado logo no dia seguinte ao acontecido, ao escrito e ao reportado, acabava por transformar o jornal em um cabedal de criticidade entregue ao crivo dos seus leitores. Qualquer deles, em acesso de humor conduzido pela biles, só poderia propor alguma interdição ao escrito ou ao reportado que se lhe não fosse agradável e/ou lhes ferisse os brios, depois de ter o periódico já circulado e sido lido por um bom número de outros cidadãos pelo Estado, pelo País ou mundo a fora.

Pois bem: José Mário não tivera acesso a este pântano de sapos, cobras e lagartos, que lhe poderia fornecer um excelente ferramental a partir do qual ele poderia aprofundar a sua compreensão de mundo, oferecida pela literatura. Por certo, é da falta daqueles elementos norteadores de um pensamento crítico, capaz de perceber nas linhas e nas entre linhas, nos textos e nos intertextos, as vicissitudes de uma humanidade em crise “existencial” permanente, que tornou José Mário um leitor maquinal, que não conseguia estabelecer relações entre o escrito nos livros que lera e à realidade que vivera, inclusive, no seu cotidiano pessoal. Quando lera em “O Senhor Embaixador” as pequenas exposições feitas por Veríssimo de algumas circunstâncias vividas por alguns de seus personagens, não conseguia perceber a sociedade latino-americana cruamente retratada nelas. Como ilustração da premissa acima engendrada, considere-se a atitude da jovem Glenda Doremus, ao ser apresentada a um dos embaixadores africanos presentes na festa que Gabriel Heliodoro dera por ocasião do seu credenciamento junto ao governo norte-americano e, a explosão de ira manifesta pela moça, ao se encontrar sozinha com o seu anfitrião, Pablo Ortega, a quem se declarou racista, porém, não antes de o censurar por tê-la forçado a apertar a mão “daquele negro”. É preciso salientar que, José Mário não conhecia aquela expressão, aquela atitude de repulsa a uma pessoa negra – nem mesmo aquela diferença manifesta na cor da pele – e, nem mesmo o conceito de racismo, enquanto manifestação de não aceitação de uma pessoa por conta de sua etnia, era do seu conhecimento.

Assim, por acreditar tratar-se de ficção magistralmente construída pelo seu autor, não compreendia que ali estava representada a humanidade – ainda que partes dela – com suas idiossincrasias Isto é, o que José Mário tinha sob os seus dedos, era elementos romantizados de uma realidade efetivamente vivida e, que ele não conhecia, embora, também fosse parte daqueles circunstanciares que Veríssimo lhe apresentava através da “República do Sacramento”, descrita em cenas passadas na capital norte-americana, entre a primavera e o verão de 1959.

 

Alagoinhas – 02 de agosto de 2026 – inverno brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

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