domingo, 23 de agosto de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – VI.

 

Vivanco, entre Passional e “Subversivo”: uma bala encravada na escada forja o “bom” pretexto para o golpe. – Parte II.

 

Em mais uma empreitada no campo da História, percebida a partir da literatura, chega-se ao venerando e paciente leitor deste espaço virtual, para discorrer mais um pouco sobre “O Senhor Embaixador”, livro que José Mário tivera nas mãos por pelo menos três vezes entre 1975 e os anos que se seguiram, quando tivera curso o seu processo de escolarização. Ele, no entanto, não conseguira compreender a proposta do autor daquilo que mais tarde se poderia denominar de “Romance Histórico”, pelas razões já esboçadas nos garatujares anteriores, acrescendo-se ainda, talvez, a sua dificuldade de abstração, inerente, saliente-se, ao seu processo geral de formação propedêutica, desprovido de disciplinas chave para desenvolver o cogitar crítico do mundo ao seu redor. Disto, crê-se, resultou em um baixo nível de capacidade reflexiva, visto não ter ele interlocuções com leitores mais avançados em termos de acesso à outras obras que lhes pudessem esclarecer as dúvidas de interpretação que se lhe assomavam ao espírito. Não tendo com quem dialogar acerca do que lia, do modo como lia e, principalmente, da possibilidade de haver outros modos de compreender o que lia, acabava por ficar com entendimento superficial das obras que lhe caíam nas mãos, portanto, impedindo o avançar da interpretação, para além do pensar ali exposto.

Desta maneira, José Mário, por esta e outras razões, não associava o conjunto de textos que acabara de ler, com a mensagem que nele se pretendia passar. Além disto, como já se indicou no escrevinhar anterior, o seu total desconhecimento da História, não só do Brasil e da Bahia em que vivia os seus anos formativos, como também da América Latina em que grassavam as ditaduras, as rupturas institucionais, os governos civis e militares que não tinham as suas populações na devida conta, mas, ao contrário, os interesses pessoais e das elites a que pertenciam e/ou representavam; os conglomerados econômicos nacionais e, sobretudo, os internacionais, eram considerados em seus desígnios e, de acordo com o que ditavam para controlar o poder político, a ordem social, o sistema econômico vigente, que, de um modo geral, submetia os “de baixo”, à exploração que alimentava o insaciável modo de produção capitalista, ferozmente defendido por aqueles regimes, por aquelas ditaduras, enfim, por aqueles que se alimentavam da fome e da miséria de grande parte dos habitantes das plagas latino-americanas.

Conforme se apontou nos arrazoares apresentados na postagem anterior, ao desenvolver algumas digressões em torno do tratado literário entabulado pelo escritor gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975) publicado em 1965, em que tece uma trama na qual pretendera dar a conhecer aos seus leitores, alguns enredos que, aqui, ali e alhures, se faziam entrelaçar no viver cotidiano da quase totalidade dos Estados Latino-americanos, sobretudo, entre as décadas de 1950 e 1980, em carta dirigida ao seu embaixador nos Estados Unidos da América, Juventino Carrera confabula com o seu “compadre” sobre a sua necessidade de encontrar um “bom” pretexto para “[...] fechar o Congresso e decretar Estado de Sítio, [...]”, que abriria a brecha constitucional que precisava para se fazer reeleger à presidência pela terceira vez, sem contrariar o governo de Washington, nem os demais Estados membros da Organização dos Estados Americanos. Observe-se, de passagem, que ao “generalíssimo”, pouco se lhe dava contrariar aqueles que por ele eram governados, dentro dos seus limites territoriais.  Mas, ainda que de modo retórico e protocolar, dizia se importar com a opinião mundial, sobretudo a de Washington, de quem ansiava pelos vultosos dólares que pretendia lhe fossem emprestados, que permitiriam construir a sua “Transacramentenha”, que se lhe serviria como um monumento para celebrar a grandeza da sua administração. Isto posto, retome-se um pouco mais do corolário de queixas do compadre presidente, ao compadre embaixador.

Continuando a leitura da carta recebida do presidente da República do Sacramento, Gabriel Heliodoro prossegue a percorrer aquela missiva presidencial, talvez, sorvendo cada palavra ali contida e, quiçá, maquinando em seu cérebro afeito às operações de força, qual resposta lhe daria, logo que terminasse de a examinar. Informa o missivista que, no dia anterior à escrita daquela carta, houvera almoçado com o embaixador Norte-Americano e com o Arcebispo local. Em seguida, diz do que tratara e o que pensara dos seus resultados.

“[...]. Sondei o gringo, que tem ar e riso de bobo, mas é matreiro, e cheguei à conclusão que ele também quer me ver pelas costas. Perguntei a Don Pánfilo, sem mais rodeios, qual era a sua opinião sobre a emenda. O homem fez um discurso muito bonito, com aquela habilidade e aquela elegância que conheces, mas desconversou. [...].”.

 

E, com a naturalidade inerente aos ditadores latino-americanos de anteontem, de ontem e de sempre, Juventino Carrera sentencia:

“[...]. Assim sendo, compadre, o remédio é esperar que os agitadores botem a cabeça de fora para agirmos. Se não botarem, antes de novembro, seremos obrigados a inventar um novo plano subversivo e assustar mais uma vez com o fantasma do comunismo tanto o Departamento de Estado como essa classe que teu” amigo” Gris, esse crápula apátrida, chama de “oligarquia rural”. O diabo é que qualquer comoção político-social nesta hora poderá prejudicar esse negócio do empréstimo. [...].”.

E prossegue elogioso ao seu fiel escudeiro, transformado em diplomata:

“[...]. Às vezes me arrependo de ter-te mandado para a nossa embaixada em Washington. És dos poucos homens de cuja lealdade e amizade não duvido nem nunca duvidei. Mas vai ficando por aí, por enquanto, e trata de desencavar esse empréstimo, que é vital para nossa terra. Quanto ao mais, vamos deixar o barco correr. [...].”.

Depois de enfatizar o seu sonho de grandeza em relação à posteridade, arremata pedindo que o seu embaixador envie com a maior brevidade a sua opinião sobre tudo aquilo e, dizendo confiar na sua “boa estrela”, assegura que “[...]. Antes de novembro, encontraremos um bom pretexto para o golpe. [...].”

No entanto, antes de seguir adiante no propósito de examinar os desdobramentos da busca pelo “bom pretexto para o golpe”, faz-se necessário observar algumas elaborações encontradas na mensagem dirigida pelo presidente da República do Sacramento, ao seu compadre e leal embaixador em Washington. E, por conseguinte, aquelas considerações acabaram saltando para as páginas da aludida obra, saídas que foram dos pensares de quantos foram marcados pelo “macartismo”, ideário que marcou a História política do continente, a partir de 1947, irradiando-se de Washington para praticamente, todo o mundo ocidental. Embora à época que José Mário fizera passar sob os seus dedos as mais de quatrocentas páginas de O Senhor Embaixador, ele não houvesse tido a compreensão histórica do enredo magistralmente construído por Veríssimo, pensando se tratar de uma ficção literária inocente e vaga, ali, conforme o arguto leitor destas linhas já percebeu, a obra está eivada de expressões e construções frasais que circulavam abundantemente nos círculos diplomáticos, militares, governamentais e financeiros de toda a América, mormente, aquela situada entre o Canadá e o México. De acordo com os agora abundantes estudos e pesquisas dedicados à compreensão dos inúmeros golpes de Estado, perpetrados sobretudo, nos Países da América Central e da América do Sul, direta ou indiretamente patrocinados e/ou apoiados pelos governos norte-americanos, no bojo da “Guerra Fria”, elaborações como “Subversivos”, “agitadores de esquerda”, ensejaram ações militares ou não, forjadas e levadas à cabo sob a égide daquilo que Juventino Carrera pretendia habilmente fazer tremer, tanto o Departamento de Estado quanto as elites dominantes no seu País e fora dele: “o fantasma do comunismo”. Impressiona, sobretudo, àquele leitor mais atento, o fato daquele presidente que se queria eternizar à frente do seu País, admitir que, o tal “comunismo” que tanto temiam os governos da América, nada mais era do que um “fantasma”, cuja circulação não se limitava às elites sociais e econômicas; ele também circulava entre aqueles desprovidos de quaisquer bens materiais. Aquele “fantasma” fazia grassar um anticomunismo – que, saliente-se, persiste ainda agora, quando estas linhas estão sendo escritas –, incutindo em toda a população, mesmo naquela parcela que nada tem de seu, muitas vezes, nem o básico para sobreviver, o medo de lhe ser tirado, mesmo aquilo que não possui. Imagine-se, a ideia estapafúrdia de se cobrar mais impostos daqueles que formam uma elite endinheirada, que possuem bens sempre avaliados na casa dos milhões... Que absurdo, gritam aqueles que mal dispõe de uma renda pouco superior ao salário recebido pela maioria dos viventes... Cobrar IPVA de iates, helicóptero, avião executivo... Inaceitável! vocifera o proprietário de um Fiat 147, de 1980, ou de um fusca 1300, saído da fábrica em 1976.

 

Alagoinhas – 23 de agosto de 2026 – inverno brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – www.historias-e-memorias.blogspot.com 

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