Vivanco, entre Passional e “Subversivo”: uma bala encravada
na escada forja o bom pretexto para o golpe. – Parte I.
Em mais uma incursão nas leituras que José Mário fizera de
algumas obras literárias no curso do seu processo formativo escolar e
acadêmico, os arrazoares que ora o arguto leitor tem diante de si, pretende
aprofundar um pouco mais, o seu transitar pela obra “O Senhor Embaixador”, publicada
em 1965 – portanto, logo nos primeiros movimentos restritivos e repressivos da
Ditadura Militar, perpetrada no Brasil em abril do ano anterior –, saída da
lavra do gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975). Já consagrado por uma ampla produção
literária, reconhecido como um talentoso construtor de personagens e cenários, em
“O Senhor Embaixador”, ele desenvolve uma trama por meio da qual faz emergir
uma América Latina caracterizada por ditaduras, revoluções e golpes; trapaças,
patifarias e corrupções, que estava longe de realmente existir, nos
conhecimentos escolares daquele jovem que o lia entre 1975 e 1976, pouco mais
de dez anos após a publicação daquele material que lhe passara sob os dedos. Àquela
altura, o conhecimento da História, fora reduzido aos “Estudos Sociais”, o que,
além daqueles professores não terem formação propedêutica para o ensino daquela
disciplina esdrúxula – algum tempo depois, se inventou o curso para a sua legitimação
–, grande parte deles era comprometida com
o regime militar e/ou coagida por ele, limitando-se a fazer repetir os “ensinos”
contidos no material didático uniformemente distribuídos nas escolas brasileiras,
independentemente da sua localização regional, sem quaisquer análises e/ou reflexões,
que permitisse aos alunos levantar algum tipo de questionamento. Afinal, tudo
estava bem; o País crescia e ia “pra frente”; caminhava sob o bordão “levante a
cabeça, pra frente é que se anda”, vociferado dia após dia pelo rádio e pelas
pessoas que aderiram ou foram coagidos a tal. Logo, José Mário não poderia
imaginar que aquela América Latina desenhada por Veríssimo, em alguma hipótese,
fosse verossímil.
Conforme já é cediço de quantos acompanham estes
garatujares, José Mário fizera a primeira leitura daquela obra, quando contava
pouco mais de quinze anos; quando ainda se encontrava cursando os primeiros
anos daquilo que então se denominava primeiro grau; quando ainda não havia adquirido
o instrumental crítico necessário e suficiente para compreender plena e
adequadamente as linhas e, principalmente, as entrelinhas que foram ali delineadas
por Veríssimo, visto que ele pretendia, diferentemente do que pensava aquele seu
leitor voraz – não divertir ou entreter aqueles que se dispusessem a ler as
suas mais de quatrocentas páginas. Mas, ao contrário, o que Veríssimo pretendia,
salvo um juízo mais abalizado, era dar a conhecer uma realidade que os meios de
comunicação de maior alcance não queriam e/ou os seus proprietários/controladores,
não se interessavam em apresentar ao “venerável” público, quer fosse formado por
leitores de revistas e jornais, ouvintes de rádio ou telespectadores, estes
últimos, ainda em processo de formação e de consolidação, pois, as emissoras de
televisão brasileiras, ainda engatinhavam, no instante em que se desenvolvem os
fatos históricos romanceados na aludida obra literária. Malgrado o esforço
envidado por aqueles que se aboletaram nas esferas de poder mediante a execução
de golpes cívico militares e o estabelecimento de censuras que procuravam,
sobretudo, controlar a produção artística, cultural e/ou literária, um bom
número de autores e produtores, em diversos setores da cultura e das artes,
inclusive, a arte de escrever, inundaram as livrarias e as estantes de toda a
América Latina, denunciando os muitos desmandos, tanto os dos seus ditadores, quanto os daqueles que se
apresentavam como democratas; tanto os que se queriam plenipotenciários, quanto
daqueles que se apresentavam como “patrulhas” de uma América Latina que queriam
sob a sua “guarda”, a fim de pretensamente protegê-la de uma imaginada/indesejada
aproximação ao comunismo soviético. Tal acabou vindo a acontecer, quando Cuba,
algum tempo depois da revolução que defenestrou Fulgêncio Batista e caterva,
logrou se aproximar da tão temida URSS socialista, o que resultou em um maior
patrulhamento e uma verdadeira paranoia dos norte-americanos – conforme se deu
no início do século XIX, quando os proprietários de toda a América, diante da
possibilidade de uma ruptura com a metrópole europeia que os governava, temiam
o Haiti, recém liberto da França. Mas, isto é papo para um outro momento. Por
ora, volte-se ao caso da “República do Sacramento”, de onde ainda se poderá
tirar algumas lições para o que interessa na construção desta série.
Tendo sido credenciado junto ao governo Norte-Americano, o
novo embaixador da República do Sacramento, logo passou a trabalhar junto ao
departamento de Estado, visando corresponder a razão pela qual fora enviado
como representante do seu País. O “presidente” Juventino Carrera precisava
obter um volume de recursos que lhe permitisse construir obras de
infraestrutura que demarcasse a sua passagem pela condução do País e, melhor
ainda, lhe permitisse pleitear mais um mandato, embora, uma Constituição por
ele mesmo construída, vedasse tal intento. Assim, a “Transacramentenha”
precisava ser levada à bom termo, antes que novembro chegasse e, com ele,
aquelas eleições das quais o Generalíssimo Juventino Carrera não poderia se
apresentar mais uma vez na condição de candidato.
Portanto, foi para obter o empréstimo junto aos financistas
de Nova Yorque que permitisse a construção de uma estrada que, além de ligar as
diversas regiões do País, desse ao seu presidente o cacife de que precisava para
implementar a sua pretensão de continuar à frente do seu Estado, é que Gabriel
Heliodoro, o seu compadre fiel, ali estava na elevada condição de embaixador,
embora não fosse talhado para tal, conforme entendiam diplomatas de carreira
que com ele tivera contato e, mesmo alguns de seus auxiliares, assim avaliavam,
considerando embaixadores anteriores que por ali passaram. Seja como for,
Veríssimo apresenta ao seu leitor, uma carta escrita pelo presidente Carrera,
dirigida ao seu representante legal em Washington, a quem trata por “meu
querido compadre” e, em tom ao mesmo tempo coloquial e confidencial: “[...], A situação aqui não anda boa. Como sabes, conforme
determina a Constituição, temos de fazer eleições presidenciais em novembro
deste ano. Pensei que estava preparado para entregar o Governo ao meu sucessor
legal e retirar-me definitivamente para a minha granja de Los Plátanos, pois
ando meio doente e muito cansado. [...]”. Afirma o missivista que “[...]. Infelizmente
minha missão não está ainda cumprida, quero
deixar pelo menos começadas as grandes obras da estrada transacramentenha,
e terminados muitos outros empreendimentos que já iniciei. [...].”.
Aquele leitor que nada
conhecia da história da América Latina, não pudera perceber que aquele palavrar
do Generalíssimo sacramentenho, era o palavrar de grande parte daqueles que
exerciam governos ditatoriais, como mais tarde veio a saber ser o caso de
Leonidas Trujillo – aliás, nome que diversas vezes aparece
na trama de Veríssimo -, todas as vezes que o seu mandato se aproxima do fim
legal e/ou se sente ameaçado, de alguma forma, pela oposição calada ou exilada.
A tal respeito, observe-se o que diz Juventino Carrera ao seu fiel escudeiro. Na
missiva aludida acima, ele diz não achar “[...] que nosso país esteja preparado para resistir às
comoções dum pleito presidencial”. E, acrescenta um ditado popular, de origem hispânica
e, provavelmente espalhado pela América Latina, quando diz que “o Diabo
sabe muito mais por ser velho do que por ser diabo. E explica ao
interlocutor, o motivo de ter usado aquele “dizem que”, asseverando que: “[...].
Pois este teu compadre, raposa velha, anda farejando algo no ar. Sinto uma
certa inquietação não só na Universidade, entre professores e
estudantes, como também nas ruas e até nas camadas mais altas da
nossa sociedade.” E, cada vez mais
queixoso e desapontado, segue o missivista ao seu embaixador:
“[...]. Reuni anteontem o
Ministério para indagar em que pé se encontrava a sugestão que fiz há tempos de encaminhar ao
Congresso um projeto de emenda à Constituição que permita a minha segunda
reeleição. Tinham-me garantido que a emenda seria aprovada até
princípios de março último, o mais tardar. Estamos quase em maio e até
agora, nada! O Ministro do Interior me disse que, na sua opinião, e na
da maioria de seus companheiros de ministério, a discussão dessa emenda
seria uma coisa perigosa, pois iria acirrar os ânimos e oferecer às
esquerdas um pretexto para começar a agitação. Perdi as estribeiras e gritei um
par de desaforos ao Allende, que ficou vermelho, baixou a cabeça, mas
não disse palavra. Quando lhe perguntei, por pura ironia, se os ilustres
ministros já tinham escolhido um candidato à minha sucessão, respondeu
que sim. Imagina tu quem! O Doutor Ramón Tejera, Presidente do Supremo
Tribunal! O Allende entrou numa lenga-lenga, disse que se trata
dum cidadão culto e íntegro, figura respeitável de magistrado, homem
apartidário, capaz de conquistar a confiança da maioria do eleitorado.
Perdi de novo a paciência e berrei:” O Doutor Tejera pode ser,
mas é candidato a um asilo de velhos! Tem quase oitenta
anos. Vocês estão doidos!”. Ninguém reagiu. O que eles querem é um presidente-títere
que esses fazendeiros, banqueiros e industriais possam manejar a seu
bel-prazer. Sabem que comigo não podem fazer isso. Agora vejo que tinhas
razão quando me dizias que estou cercado de gente desleal. [...]”.
Já se encaminhando para o final da mensagem, Juventino
Carrera, em tom reflexivo, faz ao seu interlocutor uma pergunta retórica, pois,
para ela, ele já possui uma resposta. Diz ele:
“[...]. Que providências tomar, então, para
evitar que este país caia nas mãos dos comunistas ou dessa plutocracia
sacramentenha que no fundo nunca me aceitou, nunca se conformou de ser
governada por um homem de origem humilde como eu? O remédio, me parece, é um
novo golpe de Estado. Conferenciei ontem sigilosamente com o Ministro da
Guerra, que pensa como eu e me garante o apoio total e incondicional do
Exército. Temos de agir antes de novembro, mas precisamos, como bem sabes, dum
bom pretexto para fechar o Congresso e decretar o estado de sítio. [...]”.
Como já vai um tanto longa esta digressão, será preciso
interrompê-la aqui, para retomar na próxima postagem, quando se pretende
avançar em seu desenvolvimento. Porém, antes de concluir, não se poderá deixar
de salientar que José Mário, embora lesse tudo aquilo com grande interesse,
pouco sabia a respeito do que tratavam os dois compadres com tanta desenvoltura.
Faltava-lhe o conhecimento da História, conhecimento que, aliás, já circulava
timidamente em alguns meios acadêmicos, onde estudantes e artistas já
conseguiam compreender bem o que se passava ao seu redor, a despeito da censura
e do arbítrio, o que não se dava nos círculos escolares, ao menos, aqueles seus
conhecidos, que, considere-se, não eram muitos e ainda menos, amplos.
Alagoinhas – 16 de agosto de 2026 – inverno brasileiro.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – www.historias-e-memorias.blogspot.com
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