domingo, 16 de agosto de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – V.

 

Vivanco, entre Passional e “Subversivo”: uma bala encravada na escada forja o bom pretexto para o golpe. – Parte I.

 

Em mais uma incursão nas leituras que José Mário fizera de algumas obras literárias no curso do seu processo formativo escolar e acadêmico, os arrazoares que ora o arguto leitor tem diante de si, pretende aprofundar um pouco mais, o seu transitar pela obra “O Senhor Embaixador”, publicada em 1965 – portanto, logo nos primeiros movimentos restritivos e repressivos da Ditadura Militar, perpetrada no Brasil em abril do ano anterior –, saída da lavra do gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975). Já consagrado por uma ampla produção literária, reconhecido como um talentoso construtor de personagens e cenários, em “O Senhor Embaixador”, ele desenvolve uma trama por meio da qual faz emergir uma América Latina caracterizada por ditaduras, revoluções e golpes; trapaças, patifarias e corrupções, que estava longe de realmente existir, nos conhecimentos escolares daquele jovem que o lia entre 1975 e 1976, pouco mais de dez anos após a publicação daquele material que lhe passara sob os dedos. Àquela altura, o conhecimento da História, fora reduzido aos “Estudos Sociais”, o que, além daqueles professores não terem formação propedêutica para o ensino daquela disciplina esdrúxula – algum tempo depois, se inventou o curso para a sua legitimação –, grande parte deles era  comprometida com o regime militar e/ou coagida por ele, limitando-se a fazer repetir os “ensinos” contidos no material didático uniformemente distribuídos nas escolas brasileiras, independentemente da sua localização regional, sem quaisquer análises e/ou reflexões, que permitisse aos alunos levantar algum tipo de questionamento. Afinal, tudo estava bem; o País crescia e ia “pra frente”; caminhava sob o bordão “levante a cabeça, pra frente é que se anda”, vociferado dia após dia pelo rádio e pelas pessoas que aderiram ou foram coagidos a tal. Logo, José Mário não poderia imaginar que aquela América Latina desenhada por Veríssimo, em alguma hipótese, fosse verossímil.

Conforme já é cediço de quantos acompanham estes garatujares, José Mário fizera a primeira leitura daquela obra, quando contava pouco mais de quinze anos; quando ainda se encontrava cursando os primeiros anos daquilo que então se denominava primeiro grau; quando ainda não havia adquirido o instrumental crítico necessário e suficiente para compreender plena e adequadamente as linhas e, principalmente, as entrelinhas que foram ali delineadas por Veríssimo, visto que ele pretendia, diferentemente do que pensava aquele seu leitor voraz – não divertir ou entreter aqueles que se dispusessem a ler as suas mais de quatrocentas páginas. Mas, ao contrário, o que Veríssimo pretendia, salvo um juízo mais abalizado, era dar a conhecer uma realidade que os meios de comunicação de maior alcance não queriam e/ou os seus proprietários/controladores, não se interessavam em apresentar ao “venerável” público, quer fosse formado por leitores de revistas e jornais, ouvintes de rádio ou telespectadores, estes últimos, ainda em processo de formação e de consolidação, pois, as emissoras de televisão brasileiras, ainda engatinhavam, no instante em que se desenvolvem os fatos históricos romanceados na aludida obra literária. Malgrado o esforço envidado por aqueles que se aboletaram nas esferas de poder mediante a execução de golpes cívico militares e o estabelecimento de censuras que procuravam, sobretudo, controlar a produção artística, cultural e/ou literária, um bom número de autores e produtores, em diversos setores da cultura e das artes, inclusive, a arte de escrever, inundaram as livrarias e as estantes de toda a América Latina, denunciando os muitos desmandos, tanto os  dos seus ditadores, quanto os daqueles que se apresentavam como democratas; tanto os que se queriam plenipotenciários, quanto daqueles que se apresentavam como “patrulhas” de uma América Latina que queriam sob a sua “guarda”, a fim de pretensamente protegê-la de uma imaginada/indesejada aproximação ao comunismo soviético. Tal acabou vindo a acontecer, quando Cuba, algum tempo depois da revolução que defenestrou Fulgêncio Batista e caterva, logrou se aproximar da tão temida URSS socialista, o que resultou em um maior patrulhamento e uma verdadeira paranoia dos norte-americanos – conforme se deu no início do século XIX, quando os proprietários de toda a América, diante da possibilidade de uma ruptura com a metrópole europeia que os governava, temiam o Haiti, recém liberto da França. Mas, isto é papo para um outro momento. Por ora, volte-se ao caso da “República do Sacramento”, de onde ainda se poderá tirar algumas lições para o que interessa na construção desta série.

Tendo sido credenciado junto ao governo Norte-Americano, o novo embaixador da República do Sacramento, logo passou a trabalhar junto ao departamento de Estado, visando corresponder a razão pela qual fora enviado como representante do seu País. O “presidente” Juventino Carrera precisava obter um volume de recursos que lhe permitisse construir obras de infraestrutura que demarcasse a sua passagem pela condução do País e, melhor ainda, lhe permitisse pleitear mais um mandato, embora, uma Constituição por ele mesmo construída, vedasse tal intento. Assim, a “Transacramentenha” precisava ser levada à bom termo, antes que novembro chegasse e, com ele, aquelas eleições das quais o Generalíssimo Juventino Carrera não poderia se apresentar mais uma vez na condição de candidato.

Portanto, foi para obter o empréstimo junto aos financistas de Nova Yorque que permitisse a construção de uma estrada que, além de ligar as diversas regiões do País, desse ao seu presidente o cacife de que precisava para implementar a sua pretensão de continuar à frente do seu Estado, é que Gabriel Heliodoro, o seu compadre fiel, ali estava na elevada condição de embaixador, embora não fosse talhado para tal, conforme entendiam diplomatas de carreira que com ele tivera contato e, mesmo alguns de seus auxiliares, assim avaliavam, considerando embaixadores anteriores que por ali passaram. Seja como for, Veríssimo apresenta ao seu leitor, uma carta escrita pelo presidente Carrera, dirigida ao seu representante legal em Washington, a quem trata por “meu querido compadre” e, em tom ao mesmo tempo coloquial e confidencial: “[...], A situação aqui não anda boa. Como sabes, conforme determina a Constituição, temos de fazer eleições presidenciais em novembro deste ano. Pensei que estava preparado para entregar o Governo ao meu sucessor legal e retirar-me definitivamente para a minha granja de Los Plátanos, pois ando meio doente e muito cansado. [...]”. Afirma o missivista que “[...]. Infelizmente minha missão não está ainda cumprida, quero deixar pelo menos começadas as grandes obras da estrada transacramentenha, e terminados muitos outros empreendimentos que já iniciei. [...].”.

Aquele leitor que nada conhecia da história da América Latina, não pudera perceber que aquele palavrar do Generalíssimo sacramentenho, era o palavrar de grande parte daqueles que exerciam governos ditatoriais, como mais tarde veio a saber ser o caso de Leonidas Trujillo – aliás, nome que diversas vezes   aparece na trama de Veríssimo -, todas as vezes que o seu mandato se aproxima do fim legal e/ou se sente ameaçado, de alguma forma, pela oposição calada ou exilada. A tal respeito, observe-se o que diz Juventino Carrera ao seu fiel escudeiro. Na missiva aludida acima, ele diz não achar “[...] que nosso país esteja preparado para resistir às comoções dum pleito presidencial”. E, acrescenta um ditado popular, de origem hispânica e, provavelmente espalhado pela América Latina, quando diz que “o Diabo sabe muito mais por ser velho do que por ser diabo. E explica ao interlocutor, o motivo de ter usado aquele “dizem que”, asseverando que: “[...]. Pois este teu compadre, raposa velha, anda farejando algo no ar. Sinto uma certa inquietação não só na Universidade, entre professores e estudantes, como também nas ruas e até nas camadas mais altas da nossa sociedade.”  E, cada vez mais queixoso e desapontado, segue o missivista ao seu embaixador:

“[...]. Reuni anteontem o Ministério para indagar em que pé se encontrava a sugestão que fiz há tempos de encaminhar ao Congresso um projeto de emenda à Constituição que permita a minha segunda reeleição. Tinham-me garantido que a emenda seria aprovada até princípios de março último, o mais tardar. Estamos quase em maio e até agora, nada! O Ministro do Interior me disse que, na sua opinião, e na da maioria de seus companheiros de ministério, a discussão dessa emenda seria uma coisa perigosa, pois iria acirrar os ânimos e oferecer às esquerdas um pretexto para começar a agitação. Perdi as estribeiras e gritei um par de desaforos ao Allende, que ficou vermelho, baixou a cabeça, mas não disse palavra. Quando lhe perguntei, por pura ironia, se os ilustres ministros já tinham escolhido um candidato à minha sucessão, respondeu que sim. Imagina tu quem! O Doutor Ramón Tejera, Presidente do Supremo Tribunal! O Allende entrou numa lenga-lenga, disse que se trata dum cidadão culto e íntegro, figura respeitável de magistrado, homem apartidário, capaz de conquistar a confiança da maioria do eleitorado. Perdi de novo a paciência e berrei:” O Doutor Tejera pode ser, mas é candidato a um asilo de velhos! Tem quase oitenta anos. Vocês estão doidos!”. Ninguém reagiu. O que eles querem é um presidente-títere que esses fazendeiros, banqueiros e industriais possam manejar a seu bel-prazer. Sabem que comigo não podem fazer isso. Agora vejo que tinhas razão quando me dizias que estou cercado de gente desleal. [...]”.

Já se encaminhando para o final da mensagem, Juventino Carrera, em tom reflexivo, faz ao seu interlocutor uma pergunta retórica, pois, para ela, ele já possui uma resposta. Diz ele:

“[...]. Que providências tomar, então, para evitar que este país caia nas mãos dos comunistas ou dessa plutocracia sacramentenha que no fundo nunca me aceitou, nunca se conformou de ser governada por um homem de origem humilde como eu? O remédio, me parece, é um novo golpe de Estado. Conferenciei ontem sigilosamente com o Ministro da Guerra, que pensa como eu e me garante o apoio total e incondicional do Exército. Temos de agir antes de novembro, mas precisamos, como bem sabes, dum bom pretexto para fechar o Congresso e decretar o estado de sítio. [...]”.

 

Como já vai um tanto longa esta digressão, será preciso interrompê-la aqui, para retomar na próxima postagem, quando se pretende avançar em seu desenvolvimento. Porém, antes de concluir, não se poderá deixar de salientar que José Mário, embora lesse tudo aquilo com grande interesse, pouco sabia a respeito do que tratavam os dois compadres com tanta desenvoltura. Faltava-lhe o conhecimento da História, conhecimento que, aliás, já circulava timidamente em alguns meios acadêmicos, onde estudantes e artistas já conseguiam compreender bem o que se passava ao seu redor, a despeito da censura e do arbítrio, o que não se dava nos círculos escolares, ao menos, aqueles seus conhecidos, que, considere-se, não eram muitos e ainda menos, amplos.

 

Alagoinhas – 16 de agosto de 2026 – inverno brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – www.historias-e-memorias.blogspot.com 

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