domingo, 30 de agosto de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – VII.

 

Vivanco, entre Passional e “Subversivo”: uma bala encravada na escada forja o “bom” pretexto para o golpe. – Parte III.

 

Os diletos e sagazes leitores destes tracejares virtuais, conforme  acompanham pacientemente o desenrolar da série iniciada há algumas semanas, durante a qual, este escrevedor intenta construir uma proposição que aponta para a possibilidade de se conhecer um dado momento histórico, a partir da leitura de obras literárias, principalmente, aquelas inscritas no âmbito do “realismo mágico” – mas, não só  nele – terão hoje diante de si, mais um esforço por meio do qual, se pretende reforçar o pressuposto aludido acima, que, saliente-se, não é novo, sobretudo, para um bom número de historiadores experientes e pesquisadores de boa cepa. No entanto, para este garatujador, aquela foi uma descoberta um tanto tardia, na medida em que, as suas circunstâncias de pesquisador cujo tema, quase não encontrara interlocutores, o que o compelira a buscar entender alguns dentre os muitos movimentos produzidos na sociedade em geral e, sobretudo, no seu lugar de ação e pertencimento, através de leituras que o pudessem conduzir a melhor compreender o mundo que, ora o inseria, ora o impelia para fora das suas margens.

Assim, diante da necessidade de prosseguir caminhando nas sendas da pesquisa, bem como, ao procurar desenvolver mais a contento o seu mister professoral, este garatujador buscou introduzir algumas obras literárias no escopo dos seus cursos de História da América e, passou a procurar conhecer autores que lhe pudessem auxiliar no desenvolvimento de suas pesquisas relacionadas com a História da cidade. Para tanto, ele provoca os seus argutos leitores, grande parte deles, muito bem situados neste campo do bem interpretar aquilo que lê, para que, ao buscar nas leituras feitas por José Mário, pouco afeito à tarefa interpretativa, possam inferir o quão difícil é, sobretudo, considerando-se as circunstâncias a ele inerentes, ler, interpretar e compreender um texto, independentemente do tempo e do lugar onde fora escrito e, por fim, elaborar uma compreensão razoável, daquilo que esteve sob a sua apreciação.

É neste sentido que se retoma a leitura da obra de Érico Veríssimo (1905-1975), O Senhor Embaixador, publicado em 1965, lida por José Mário em pelo menos três oportunidades, tendo sido a primeira delas Há cerca de 50 anos, em um trecho que já se vem analisando há duas semanas. Na última edição destes garatujares, a digressão foi interrompida no instante em que o “Senhor Embaixador” da República do Sacramento, concluía a leitura da missiva que recebera do seu “compadre” presidente – ou seria “presidente” compadre? –, quando era por ele instado a “desencavar aquele empréstimo” com que contava para realizar obras monumentais que o eternizassem junto ao seu povo e, que a ninguém mais desse conta daquela mensagem, se não ao seu adido militar, recomendando-lhe, além de absoluto segredo, que queimasse aquele papel – que, certamente, ele sabia que o poderia incriminar –, dizendo ter horror a papéis “que tivessem coisas escritas”, como diria mais tarde um presidente que sonhara ser o grande ditador do século XXI, em um outro país da América Latina e, que não era fictício, imaginado por aquele brilhante escritor, mas, caricaturado magistralmente por outros.

Assim, ao acabar de ler a “carta confidencial” a ele dirigida por Juventino Carrera, Veríssimo informa que “A carta deixou Gabriel Heliodoro excitado. Havia muito suspeitava daquela ”revolução branca” comandada por Ignacio Allende, Ministro do Interior, com a finalidade de evitar a reeleição de Carrera e impor-lhe um candidato das chamadas ”elites sacramentenhas”. E o Department of State e o arcebispo estavam no jogo. [...].”.

Cumprindo rigorosamente o que lhe fora instruído pelo seu presidente, o “Senhor Embaixador” chama o adido militar ao seu gabinete para dar-lhe conhecimento da mensagem por ele recebida e, diante da lentidão do militar ao ler a carta, da resposta que parecera pouco convincente ao Embaixador, este, depois de lançar algumas perguntas para as quais já possuía as respostas, arremata do modo como Veríssimo destaca:

 

“[...]. A solução verdadeira seria um golpe de Estado. Palavra, tenho vontade de tomar o avião amanhã para Cerro Hermoso e ir sacudir aquele Ministério, aquele Congresso, chamar aquela gente à razão. Mas tu sabes, não posso abandonar essas negociações do empréstimo... Já tenho audiência marcada no Departamento de Estado, embora agora eu desconfie que esses gringos vão nos cozinhar em água fria... [...].”.

Mas, o Adido Militar também possuía um papel confidencial”, “confidencialíssimo” para compartilhar com o Embaixador, que, ao receber, logo passou a ler e aqui, será integralmente transcrito, para que o leitor tenha a dimensão do modo como os golpes eram urdidos – e, certamente, ainda o são –, quer nos governos ditatoriais já estabelecidos, quer nos meios que pretendam que seja derrubado um governo democraticamente constituído. Assim se lê no documento, ora em mãos do Embaixador:

Temos razões para acreditar que o Dr. Leonardo Gris é o centro, aí em Washington, duma conspiração que visa a invasão da nossa ilha e o levante de tropas federais bem como de camponeses em todo o território nacional. É imprescindível e urgente descobrir não só os planos desse movimento subversivo como também o nome das pessoas com quem os revolucionários contam aqui no Sacramento para atos de sabotagem e terrorismo e para pegar em armas ao primeiro sinal. A melhor maneira de conseguir o que queremos é entrar no apartamento de Gris e revistar todos os seus papéis. Já que isso não se pode fazer dentro da lei, que se faça fora dela. Recomendamos o máximo cuidado na operação para evitar complicações com as autoridades americanas.”. 

Conforme se pode notar, o governo da República do Sacramento buscava encontrar aquele “bom pretexto” para o golpe, não só junto ao seu representante legal na capital norte-americana, bem  como, procurava acionar o seu adido militar, com o fito de neutralizar um dos seus mais ferrenhos opositores, então, exilado e, em franca produção de artigos em jornais, atividades conferencistas nas Universidades Norte-Americanas, denunciando os desmandos e as arbitrariedades perpetradas no seu País de origem. Mas, faz-se necessário salientar, ainda uma vez mais, que José Mário não conseguia interpretar assim, toda aquela movimentação dos personagens da trama a ele apresentada por Érico Veríssimo, visto não ter ele quaisquer conhecimentos outros do processo histórico, o que lhe dificultava a compreensão do que lia, para além de uma ficção caricatural, cujas tramas foram inteligentemente enredadas pelo seu autor.

Mas, no que pensava o Embaixador, no que respeitava a encontrar um “bom pretexto” para o golpe, conforme lhe fora dito pelo seu compadre Carrera? Ele, pelo menos em tese, não concordara com a proposta obtida pelo adido militar da República do Sacramento, pois, conforme se leu na missiva presidencial que lera antes, Leonardo Gris, houvera sido citado como “[...] o teu amigo [...]”. Então: o que fazer para alcançar encontrar o tão desejado “bom pretexto” para o golpe, a ser perpetrado antes das eleições, nas quais, Juventino Carrera não mais poderia concorrer? Como já vão longas as linhas destes arrazoares dominicais, será preciso aguardar mais um pouco, para que tais perguntas possam ser desenvolvidas na próxima postagem.

 

Alagoinhas – 30 de agosto de 2026 – inverno brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com  - www.historias-e-e-memorias.blogspot.com 

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