domingo, 31 de maio de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE XIV.


 

Enfim, graduado – Introdução (Segue).

 

Os caríssimos leitores destes arrazoados terão ainda uma vez diante de si, algumas locuções verbais para ler e considerar, com o intuito de refletir mais um pouco acerca do desenvolvimento do périplo em busca de inserção de José Mário em um espaço de trabalho compatível com o seu processo formativo. Conforme se vem apontando nos tratados que se vem publicando há já um bom par de semanas, os rememorares deste escrevedor são os meios aos quais tem lançado mão, por meio de um evocar de lembranças de tempos já pretéritos, que ainda não se fizeram passar. Escavando profundos recônditos em que se encontram camadas onde estão depositadas, depois de ressignificadas pelo presente, são trazidas à superfície e, conforme a escolha de quem lembra, são verbalizadas, silenciadas ou, devolvidas às camadas de onde saíram ao serem evocadas. Contudo, conforme propugna Maurice Halbwach (1877-1945), tais lembranças estão sujeitas à existência de relações coletivas e à construção de correlações entre o indivíduo que lembra e o ambiente social em que se encontra. Diz ele que”[...]. A sucessão de lembranças, mesmo as mais pessoais, sempre se explica pelas mudanças que se produzem em nossas relações com os diversos ambientes coletivos, ou seja, em definitivo,  pelas transformações desses ambientes, cada um tomado em separado, e em seu conjunto” HALBWACH, 2006, p. 69. Destarte, estes rememorares ainda tem como fundamento basilar, os elementos propostos por Halbwach, uma vez que este escrevente continua em contato com uma parte dos indivíduos com os quais construiu o caminhar que lhe permite evocar as memórias do vivido, bem como, está em contato com o ambiente social de onde se evoca os lembrares, a despeito de ter sofrido não apenas com o passar do tempo, mas e, com igual importância, ter se dado grandes transformações em sua configuração e modo de organização dos elementos que lhe dão impulso constante, embora esteja se movendo no presente.

Ainda em conformidade com o explicitado por Halbwach, em sua “Memória Coletiva”, quando diz que “[...] a história vivida se distingue da história escrita: ela tem tudo o que é necessário para constituir um panorama vivo e natural sobre o qual se possa basear um pensamento  para conservar e reencontrar a imagem de seu passado” (HALBWACH, 2006, p. 90), aquilo que fora experienciado nos momentos em que José Mário se debatera contra as correntezas de dificuldades para se colocar naquele espaço de atuação para o qual se acreditava preparado, ao menos, do ponto de vista teórico – e, talvez, metodológico – para enfrentar as vicissitudes de professor, se poderia constituir em objeto da escrita da história, visto ter sido um movimento – ainda que individual – impulsionado por um protagonista que sendo parte do todo, considerando que se tratasse de um “fato singular”, poderia muito bem ser parte de um trabalho de inquirição histórica, com o intuito de trazer à percepção social o laborar daquele que se queria integrar ao fazer histórico de uma sociedade dada, de uma categoria profissional dada e, acima de tudo, de um grupo formado por aqueles que, via de regra, seria estigmatizado pelo que lhe faltava individualmente e, não, por aquilo que ele poderia propor à sociedade como um todo.

Assim pensando, faz-se necessário salientar e reforçar que, a aludida inserção foi permeada por um conjunto de situações e de circunstâncias adversas, que exigiram dele, um grande volume de esforços – seus e de quem o apoiara, em algum momento de seu navegar em “mar bravio” – para continuar o percurso, ainda que, em diversas ocasiões, se lhe tenha decaído o ânimo para tal. Aqui e no próximo arrazoar, à guisa de ilustração, com o fito de melhorar a compreensão de quem lê estes garatujares, serão rememoradas duas situações envolvendo José Mário e sua necessidade de encontrar o espaço para se iniciar na condição de professor, que, ao fim e ao cabo, fez com que ele tivesse ainda mais claro o seu entendimento sobre a “escola” como um espaço de padronização – da língua escrita, dos modos de se expressar verbalmente, das ideias, dos hábitos, dos comportamentos – bem como  a “educação” como um ambiente de exclusão por excelência, uma vez que, em geral, desconsidera os ritmos de pensamento e de funcionamento de cada pessoa – sejam elas desprovidas de algum elemento sensorial ou, aquelas outras que estejam fora do ritmo cognitivo “padrão”, tanto para mais, quanto para menos – o “puxadinho” inserido na sua conformação original e imposto a ela já nos meados do século XX, eufemisticamente chamado “educação especial”, é prova inequívoca do caráter excludente da educação como um todo, em quaisquer dos seus níveis e da escola em particular.

Neste sentido, esta percepção da escola como impedidora de caminhares que não estejam em consonância com a sua configuração padronizadora e excludente, só se consolida em José Mário, à medida em que ele mesmo precisara enfrentar uma realidade que, saliente-se, de passagem, já  gritava em sua cara, desde o seu processo formativo, como ela operava as suas engrenagens, quando ele em diversos momentos, fora obrigado a parar, a recuar, a se recompor e, sempre, em todas as fases, sem conseguir seguir o ritmo que lhe era imposto, em grande parte das vezes, sem que lhe fossem oferecidos os meios e os instrumentos indispensáveis para tal. No momento em que ele se lança na busca de seu espaço naquele ambiente feito por e para “perfeitos” e em que ele não teria lugar, acrescenta-se mais dois ingredientes que, talvez já existissem e, por razões de percepção distorcida, ele só identificara nos anos que se seguiram à sua colação de grau. Está se falando da hipocrisia reinante e de um mentir contumaz de seus dirigentes e/ou proprietários. Está se falando da distância entre o discurso feito em público e a prática levada a termo nas salas de direção e/ou de coordenação, aquela prática que  só aqueles que por elas são atingidos de morte, é que, solitariamente podem testemunhar, com o risco do descrédito de quem delas ouve o relato. Mais ou menos comparável, guardadas as devidas proporções e as necessárias especificidades, aos relatos de sobreviventes de campos de concentração, que, diante de sofrimentos quase impossíveis de se verbalizar, temiam ser desacreditados, dado o horror daquilo que viveram e, que, tendo sobrevivido, se encontram diante de uma plateia quase incrédula acerca do que ouve, conforme diz Primo Lévi (1919-1987), em várias de suas obras, sobretudo, “É isto um Homem?”, de 2013.

A primeira das situações a que se quer reportar, deu-se em uma escola privada da cidade, então sob a direção de uma família tradicional do ramo da educação. Tendo transcorrido algumas semanas de sua colação de grau, chegou a José Mário a informação de que uma escola da cidade estaria precisando de professor de História, que já se houvesse formado, para compor o seu corpo docente, em substituição a uma professora que se havia – ou fora – exonerado. Pelo fato da vaga ser para o noturno, o candidato já deveria estar formado, pois, não teria como adequar o horário da disciplina ao chegante, uma vez que já se aproximava o fim do período letivo. Acreditando se enquadrar aos requisitos expostos, ele se interessou pela vaga. No entanto, alertou aos que lhe eram mais próximos que, era grande a possibilidade de não ser aceito para a dita vaga. Não por conta da sua inexperiência anterior – até pelo fato de não haver tal exigência – mas, sim, pelo fato de ser ele um candidato cego. Objetado que fora em sua observação, reafirmou o dito e, se dispôs a provar que não exagerava naquilo que afirmara. Uma e outra vez desacreditado em seu descrer de uma aceitação de sua candidatura a vaga oferecida, insistindo em uma inteligência acreditada e em uma capacidade presumida, os seus colegas insistiram em ponderar que estaria errado o seu pensar a respeito.

Assim pensando e se dispondo a provar tanto aos colegas e, sobretudo a si mesmo, que se lhe não daria a vaga, mesmo ele atendendo às exigências postas, José Mário juntou a documentação solicitada em uma pasta e, pegou do telefone, à vista de alguns dos que imaginavam, diferentemente dele, que tudo se arranjaria, ligou para a dita escola, a fim de indagar se ainda estava disponível a vaga para professor de História, para a qual eles precisavam de professor. E, o próprio diretor do estabelecimento de ensino, que atendera a ligação, respondera, com um aparente entusiasmo:

- Sim, professor. A vaga ainda está aqui e, se o senhor é o interessado, pode vir aqui na escola. Seja bem-vindo e, estamos a tua espera.

Os colegas que presenciaram o telefonema e o puderam ouvir, se fizeram eufóricos e, tendo se considerados vencedores da guerra, tendo assistido apenas a primeira batalha, um dentre eles se dispôs a levar José Mário até a dita escola. Toda aquela primeira parte da cena, se passara no interior da Faculdade de Formação de Professores onde ele estudar a e, pudera ser presenciada por uma parte dos seus colegas que ainda finalizavam o curso. Aquele que se prontificara a o conduzir até a escola em que se apresentaria como candidato a vaga de professor de História, não o poderia acompanhar até o seu interior. O rapaz era um conhecido militante do PT e, como tal, malvisto pela elite social local, o que poderia ensejar um impedimento adicional para a tal candidatura. Ficou certo então, que ele deixaria José Mário nas proximidades e, aquele, se dirigiria ao local, completando o trajeto a pé, o que foi feito.

Chegado que fora ao local, causara o primeiro choque naqueles funcionários que ficam guardando as costas dos dirigentes. Aqueles, acreditaram se tratar de um pai de aluno, que lá chegava para resolver alguma questão relacionada à disciplina e/ou à matrícula do filho. Ao negar que aquele fora o assunto mas, sim, que ali estava como candidato à vaga de professor de História, existente no quadro de docentes, o  espanto e o chá de cadeira foram a resposta imediata, que precedia à rejeição. Depois de alguns mentires da proprietária – que já o conhecia, visto ela ter sido considerada por alguns outros cegos de Alagoinhas como sua “benfeitora”, mas, não por José Mário, o ingrato, saliente-se – não tendo mais como sustentar a máscara, o seu filho, então o diretor, diz com todas as letras:

- A gente sabe que o senhor tem competência – sabia nada; e nem queria saber, é claro – mas, os alunos são indisciplinados, razão pela qual a professora não permaneceu e, a gente não tem como colocar um outro funcionário para te ajudar no processo de “domínio” de sala.

Assim, a hipocrisia da tal de “Benfeitora” e a mentira do diretor, ao afirmar “saber da sua competência”, se apresentaram com toda a clareza, no momento em que o tema era: o que fazer, se temos o tipo de candidato que pedimos, mas não a pessoa que queríamos?

Portanto, de volta ao prédio da FFPA e, lá encontrando os colegas, se lhes foi narrado o que se passara e, talvez alguns, por certo nem todos, puderam ter uma ideia, ainda que pálida, daquilo que José Mário ainda precisaria enfrentar para se fazer inserir no meio educacional, onde a discriminação disfarçada de “não podemos” ou de “não pode”, norteia a rejeição de quem não esteja plenamente encaixado na engrenagem que a faz funcionar.

 

Alagoinhas – 31 de maio de 2026 -outono brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno  - historiadorbaiano@gmail.com 

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