Enfim, graduado – Introdução (Segue).
Os caríssimos leitores
destes arrazoados terão ainda uma vez diante de si, algumas locuções verbais para
ler e considerar, com o intuito de refletir mais um pouco acerca do desenvolvimento
do périplo em busca de inserção de José Mário em um espaço de trabalho
compatível com o seu processo formativo. Conforme se vem apontando nos tratados
que se vem publicando há já um bom par de semanas, os rememorares deste
escrevedor são os meios aos quais tem lançado mão, por meio de um evocar de
lembranças de tempos já pretéritos, que ainda não se fizeram passar. Escavando
profundos recônditos em que se encontram camadas onde estão depositadas, depois
de ressignificadas pelo presente, são trazidas à superfície e, conforme a
escolha de quem lembra, são verbalizadas, silenciadas ou, devolvidas às camadas
de onde saíram ao serem evocadas. Contudo, conforme
propugna Maurice Halbwach (1877-1945), tais lembranças estão sujeitas à
existência de relações coletivas e à construção de correlações entre o
indivíduo que lembra e o ambiente social em que se encontra. Diz ele que”[...].
A sucessão de lembranças, mesmo as mais pessoais, sempre se explica pelas
mudanças que se produzem em nossas relações com os diversos ambientes
coletivos, ou seja, em definitivo, pelas
transformações desses ambientes, cada um tomado em separado, e em seu conjunto”
HALBWACH, 2006, p. 69. Destarte, estes rememorares ainda tem como fundamento
basilar, os elementos propostos por Halbwach, uma vez que este escrevente continua
em contato com uma parte dos indivíduos com os quais construiu o caminhar que
lhe permite evocar as memórias do vivido, bem como, está em contato com o
ambiente social de onde se evoca os lembrares, a despeito de ter sofrido não
apenas com o passar do tempo, mas e, com igual importância, ter se dado grandes
transformações em sua configuração e modo de organização dos elementos que lhe
dão impulso constante, embora esteja se movendo no presente.
Assim pensando, faz-se necessário salientar e reforçar que,
a aludida inserção foi permeada por um conjunto de situações e de circunstâncias
adversas, que exigiram dele, um grande volume de esforços – seus e de quem o
apoiara, em algum momento de seu navegar em “mar bravio” – para continuar o
percurso, ainda que, em diversas ocasiões, se lhe tenha decaído o ânimo para
tal. Aqui e no próximo arrazoar, à guisa de ilustração, com o fito de melhorar
a compreensão de quem lê estes garatujares, serão rememoradas duas situações
envolvendo José Mário e sua necessidade de encontrar o espaço para se iniciar
na condição de professor, que, ao fim e ao cabo, fez com que ele tivesse ainda mais
claro o seu entendimento sobre a “escola” como um espaço de padronização – da língua
escrita, dos modos de se expressar verbalmente, das ideias, dos hábitos, dos
comportamentos – bem como a “educação”
como um ambiente de exclusão por excelência, uma vez que, em geral, desconsidera
os ritmos de pensamento e de funcionamento de cada pessoa – sejam elas
desprovidas de algum elemento sensorial ou, aquelas outras que estejam fora do
ritmo cognitivo “padrão”, tanto para mais, quanto para menos – o “puxadinho”
inserido na sua conformação original e imposto a ela já nos meados do século
XX, eufemisticamente chamado “educação especial”, é prova inequívoca do caráter
excludente da educação como um todo, em quaisquer dos seus níveis e da escola em
particular.
Neste sentido, esta percepção da escola como impedidora de
caminhares que não estejam em consonância com a sua configuração padronizadora
e excludente, só se consolida em José Mário, à medida em que ele mesmo precisara
enfrentar uma realidade que, saliente-se, de passagem, já gritava em sua cara, desde o seu processo
formativo, como ela operava as suas engrenagens, quando ele em diversos
momentos, fora obrigado a parar, a recuar, a se recompor e, sempre, em todas as
fases, sem conseguir seguir o ritmo que lhe era imposto, em grande parte das
vezes, sem que lhe fossem oferecidos os meios e os instrumentos indispensáveis
para tal. No momento em que ele se lança na busca de seu espaço naquele ambiente
feito por e para “perfeitos” e em que ele não teria lugar, acrescenta-se mais
dois ingredientes que, talvez já existissem e, por razões de percepção
distorcida, ele só identificara nos anos que se seguiram à sua colação de grau.
Está se falando da hipocrisia reinante e de um mentir contumaz de seus
dirigentes e/ou proprietários. Está se falando da distância entre o discurso
feito em público e a prática levada a termo nas salas de direção e/ou de
coordenação, aquela prática que só
aqueles que por elas são atingidos de morte, é que, solitariamente podem
testemunhar, com o risco do descrédito de quem delas ouve o relato. Mais ou
menos comparável, guardadas as devidas proporções e as necessárias
especificidades, aos relatos de sobreviventes de campos de concentração, que,
diante de sofrimentos quase impossíveis de se verbalizar, temiam ser
desacreditados, dado o horror daquilo que viveram e, que, tendo sobrevivido, se
encontram diante de uma plateia quase incrédula acerca do que ouve, conforme
diz Primo Lévi (1919-1987), em várias de suas obras, sobretudo, “É isto um Homem?”,
de 2013.
A primeira das situações a que se quer reportar, deu-se em
uma escola privada da cidade, então sob a direção de uma família tradicional do
ramo da educação. Tendo transcorrido algumas semanas de sua colação de grau,
chegou a José Mário a informação de que uma escola da cidade estaria precisando
de professor de História, que já se houvesse formado, para compor o seu corpo
docente, em substituição a uma professora que se havia – ou fora – exonerado.
Pelo fato da vaga ser para o noturno, o candidato já deveria estar formado,
pois, não teria como adequar o horário da disciplina ao chegante, uma vez que
já se aproximava o fim do período letivo. Acreditando se enquadrar aos requisitos
expostos, ele se interessou pela vaga. No entanto, alertou aos que lhe eram
mais próximos que, era grande a possibilidade de não ser aceito para a dita vaga.
Não por conta da sua inexperiência anterior – até pelo fato de não haver tal
exigência – mas, sim, pelo fato de ser ele um candidato cego. Objetado que fora
em sua observação, reafirmou o dito e, se dispôs a provar que não exagerava
naquilo que afirmara. Uma e outra vez desacreditado em seu descrer de uma
aceitação de sua candidatura a vaga oferecida, insistindo em uma inteligência acreditada
e em uma capacidade presumida, os seus colegas insistiram em ponderar que
estaria errado o seu pensar a respeito.
Assim pensando e se dispondo a provar tanto aos colegas e,
sobretudo a si mesmo, que se lhe não daria a vaga, mesmo ele atendendo às
exigências postas, José Mário juntou a documentação solicitada em uma pasta e,
pegou do telefone, à vista de alguns dos que imaginavam, diferentemente dele,
que tudo se arranjaria, ligou para a dita escola, a fim de indagar se ainda
estava disponível a vaga para professor de História, para a qual eles
precisavam de professor. E, o próprio diretor do estabelecimento de ensino, que
atendera a ligação, respondera, com um aparente entusiasmo:
- Sim, professor. A vaga ainda está aqui e, se o senhor é o
interessado, pode vir aqui na escola. Seja bem-vindo e, estamos a tua espera.
Os colegas que presenciaram o telefonema e o puderam ouvir,
se fizeram eufóricos e, tendo se considerados vencedores da guerra, tendo
assistido apenas a primeira batalha, um dentre eles se dispôs a levar José Mário
até a dita escola. Toda aquela primeira parte da cena, se passara no interior
da Faculdade de Formação de Professores onde ele estudar a e, pudera ser
presenciada por uma parte dos seus colegas que ainda finalizavam o curso.
Aquele que se prontificara a o conduzir até a escola em que se apresentaria
como candidato a vaga de professor de História, não o poderia acompanhar até o
seu interior. O rapaz era um conhecido militante do PT e, como tal, malvisto
pela elite social local, o que poderia ensejar um impedimento adicional para a
tal candidatura. Ficou certo então, que ele deixaria José Mário nas
proximidades e, aquele, se dirigiria ao local, completando o trajeto a pé, o
que foi feito.
Chegado que fora ao local, causara o primeiro choque
naqueles funcionários que ficam guardando as costas dos dirigentes. Aqueles,
acreditaram se tratar de um pai de aluno, que lá chegava para resolver alguma
questão relacionada à disciplina e/ou à matrícula do filho. Ao negar que aquele
fora o assunto mas, sim, que ali estava como candidato à vaga de professor de
História, existente no quadro de docentes, o
espanto e o chá de cadeira foram a resposta imediata, que precedia à
rejeição. Depois de alguns mentires da proprietária – que já o conhecia, visto ela
ter sido considerada por alguns outros cegos de Alagoinhas como sua “benfeitora”,
mas, não por José Mário, o ingrato, saliente-se – não tendo mais como sustentar
a máscara, o seu filho, então o diretor, diz com todas as letras:
- A gente sabe que o senhor tem competência – sabia nada; e
nem queria saber, é claro – mas, os alunos são indisciplinados, razão pela qual
a professora não permaneceu e, a gente não tem como colocar um outro
funcionário para te ajudar no processo de “domínio” de sala.
Assim, a hipocrisia da tal de “Benfeitora” e a mentira do diretor,
ao afirmar “saber da sua competência”, se apresentaram com toda a clareza, no
momento em que o tema era: o que fazer, se temos o tipo de candidato que
pedimos, mas não a pessoa que queríamos?
Portanto, de volta ao prédio da FFPA e, lá encontrando os
colegas, se lhes foi narrado o que se passara e, talvez alguns, por certo nem
todos, puderam ter uma ideia, ainda que pálida, daquilo que José Mário ainda
precisaria enfrentar para se fazer inserir no meio educacional, onde a
discriminação disfarçada de “não podemos” ou de “não pode”, norteia a rejeição
de quem não esteja plenamente encaixado na engrenagem que a faz funcionar.
Alagoinhas – 31 de maio de 2026 -outono brasileiro
Professor Jorge Damasceno - historiadorbaiano@gmail.com
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