Enfim, graduado – Introdução (Segue).
Conforme se tem notado nos arrazoados anteriores, este
escrevente vem procurando apresentar algumas ponderações forjadas a partir das situações
e das circunstâncias experienciadas por José Mário, no tempo que medeia entre a
conclusão do seu processo formativo no nível de Graduação e o início do seu ingresso
na vida laboral propriamente dita, uma vez que, o caminhar entre aqueles dois
tempos, como se lerá mais adiante, para ele, transcorreu em um labutar
constante e, por vezes, assaz desgastante e, porque não dizer, singularmente
desestimulante. Aquele fora um tempo em que se misturavam o desejo e a
necessidade de se fazer inserir no mundo do salário, salário que, aliás, já se
lhe fazia tardio, uma vez que àquela altura da vida, já se havendo passado das
três décadas, não era mais razoável que ele continuasse sendo sustentado pelos
parcos recursos obtidos pelos braços e labores de sua mãe que, aos quase
sessenta anos de idade, dos quais, quarenta foram consumidos à tarefa de lavar e
passar de ganho, já estava demonstrando os primeiros sinais de cansaço daquele
fatigar quase sem fim e, pior, sem perspectiva alguma de que viesse a obter
alguma melhora. Quando assim pensava, a sua angústia ainda mais se lhe atingia
com grande força, o que o fizera muitas vezes, andar a ermo pelas ruas da cidade
– muitas foram aquelas em que vagou por espaços pouco habitados e/ou transitados,
em horas ainda não alvorecidas -, chorando e lamentando a sua desdita, visto
não ser um postulante comum de um “lugar ao sol”, pois, sabia haver contra si,
a idade e, talvez com maior peso, a cegueira – nunca se deixara iludir quanto a
isto – o que tornava ainda mais pesado o seu lidar com tais circunstâncias, contra
as quais, ainda que se esforçasse, ele nada poderia fazer, por se tratar de um
modo de agir e de pensar coletivo; por ser uma maneira de comportamento social,
firmemente arraigada nas instituições e, petrificada nas pessoas, que na
prática, estruturam e fazem funcionar as instâncias sociais e, tornam mais
lentas e mais penosas as transformações culturais que representam.
Outrossim, foi também um tempo em que ele percebera de forma
muitas vezes rude e crua, haver um imenso fosso entre o que se dizia a seu
respeito, no que concerne à sua pretensa capacidade de enfrentamento das
intempéries e de uma imaginada posse de uma inteligência “aguçada”, o que lhe
permitiria prevalecer sobre as demais pessoas que, tal qual ele, buscavam um
lugar de atuação no mercado de trabalho na área da docência. Quem assim pensava
a seu respeito, teimava em ignorar o fato insofismável que, ao ter que escolher
para uma vaga de professor, entre ele e um outro candidato que não possuísse qualquer deficiência sensorial,
ainda que fosse menos capaz do que ele – conforme elogiosamente se lhe dizia –
àquela escolha recairia no postulante “normal”,
ou como se convencionou dizer, “normovisual”. Embora José Mário já tivesse
aquela percepção adquirida a partir do instante em que, outros colegas, mesmo
cursando semestres mais atrasados do que ele; mesmo tendo ingressado no curso
em turmas posteriores, já se encontravam atuando em diversas escolas da cidade.
Ainda assim, ele procurava acreditar que, ao concluir a graduação, sairia
melhor preparado e com um maior acúmulo de saberes, o que, entendia ele, lhe
poderia proporcionar algum grau de confiança, não só em si, mas também, sobre se.
No entanto, o tempo ah, o tempo implacável e professor
irredutível na tarefa de ensinar as suas lições, fê-lo saber, de maneira
incontornável, que as coisas não funcionavam bem daquela maneira. Era um
pouquinho pior. A régua por meio da qual ele seria medido, não era a do seu “acúmulo
de saberes”, nem a de sua alardeada “maior”
capacidade de aprender/apreender/compreender o que lhe fora ensinado, nem mesmo
a sua decantada argúcia e inteligência acima de parte dos seus colegas mas,
sim, aquela outra, cujos valores estavam em posição de não ser alcançados por
ele. Afinal, era uma “porcelana trincada”, não obstante, quiçá, ter algum
valor, diga-se, de compra; mas, o trincado lhe aviltaria o valor e, o comprador
se sentiria a vontade para não a levar para compor a sua coleção. Sem ser tachado
por “preconceituoso”, ele poderia argumentar que, embora fosse boa e até bonita
a peça, ao ser colocada à mesa diante dos amigos e convivas, algum dentre eles,
especialista naquele tipo de objeto, certamente perceberia o trincado e,
objetaria ao dono da casa a sua aquisição e, pior: a sua inserção entre toda a
sua prataria, primorosa e perfeita, estando aquela trincada a destoar do
conjunto trazido aos olhos de todos. Além disto, no caso de ser nela posto
algum elemento a ser servido, talvez, o trincado deixasse escapar algum fio que
pudesse tingir a bela toalha que adornava a mesa em questão. Zaz: a “porcelana”
trincada estava sem mercado, sem quem se lhe quisesse arrematar e levar para
compor a sua coleção de antiquarias.
A propósito da alegoria acima descrita, não obstante uma
possível contraposição contra ela, já não é cediço que a educação é um antiquário
e o professor uma parte do seu acervo? E que, havendo ali uma peça trincada –
no caso do cego, nem seria uma “porcelana” trincada mas, faltando um pedaço –
chamaria imediatamente a atenção daqueles que se colocam na posição de especialistas,
naquilo que respeita à sua função e ao seu funcionamento? Não querem os
defensores da ideia de educação como sendo algo pensado e praticado desde antiguidade`, que seja ela entendida como tal
e que, de per si, seja um elemento inerente à sociedade humana? Como não a
entender como se apresenta: uma atividade social que tem como objetivo a
padronização das pessoas às regras sociais nelas inseridas como sendo algo a
ser perseguido e alcançado por todos? Para aqueles outros que não se conseguem
inserir no tal padrão, resta a possibilidade de serem encaixotados nos
escaninhos que os segrega, embora diga incluir. A propalada educação especial é, sem a menor sombra de
dúvidas, um destes infames escaninhos que, por sua inutilidade prática, atrapalha
indelevelmente a vida de tantos quantos se procurem desvencilhar de suas
teorias, que tem a duração e a validade de um espumar de ondas na praia
oceânica.
Assim, este escrevente entende que – mesmo José Mário já
assim pensasse, sem que tivesse ainda um tal pensar como convicção –, mesmo aquelas porcelanas quebradas que escapam
do puxadinho inserido na educação, principalmente, a partir dos meados do
século XX, acabam enredados nas teias de uma arranha de veneno paralisante,
quando não mortífero, denominada rejeição que, por sua vez, é alimentada pela
seiva daninha das institucionalidades, o que, em geral, induzem os empregadores
a rejeitar o postulante à vaga de professor – como de qualquer outra atividade
laboral – que ouse se apresentar no espaço escolar, sem a mediação de uma
instituição socialmente validada para tal fim. Enquanto um professor recém formado,
“porcelana” perfeita e sem trincados se apresenta em uma escola dada, com o
fito de obter nela uma vaga para professor é recebido, avaliado e aceito,
conforme o seu desempenho – além de outras características subjetivas que aqui
não cabe desenvolver – e, uma vez aceito, assume a sua tarefa professoral sem
quaisquer mediações e/ou intermediações –
a não ser, aquelas clássicas do arraigado procedimento inerente à sociedade
brasileira – o professor cego, por exemplo, “porcelana” sem um pedaço de uma
das suas bordas, ao se atrever a apresentar o mesmo postulado, sem a infame
mediação institucional, é, sumariamente rejeitado, algumas vezes, sequer
recebido pela escola, para que a rejeição não seja assim, tão escancarada.
Para exemplificar e desta maneira reforçar o postulado acima, basta dizer que, ao saber que
uma escola de grande porte da região estava recebendo currículo para avaliação
e admissão imediata, fez chegar o seu à escola em questão. Inadvertidamente, a pessoa
que o entregaria, escrevera no envelope “deficiente visual”. Até o instante que
estas linhas são escritas, José Mário aguarda o chamado para ser entrevistado
para a vaga a que se candidatara. E “assim”, já se passaram trinta e quatro
anos.
Alagoinhas – 24 de maio de 2026 – outono brasileiro.
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