domingo, 10 de maio de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE XI.

 

 

Enfim, graduado – Introdução.

 

Em consonância com os fragmentos de memória que foram agrupados em pedaços de Histórias que aqui se pôde ler, se pretende elaborar um conjunto de enunciados que tenham em conta os embates aos quais José Mário precisou se lançar para além da conclusão da graduação em História. Pelos meados de agosto de 1991 e, com a presença de sua mãe, sobrinhos, irmã paterna e  o amigo Mário –cuja amizade fora forjada nos começos dos anos 1980, nos territórios livres do Centro Integrado Luís Navarro de Brito –, José Mário fechava o seu processo formativo, ao receber das mãos do diretor da FFPA, o grau de licenciado em História, o que viria a fechar o ciclo institucional, no que respeita à sua preparação para ingressar em um oceano longo, largo, fundo e tenebroso, que atendia pelo nome de “Mercado de Trabalho”. Nem se pensou em comemorar – visto não ser da sua índole os arroubos celebrativos -, uma vez que, ao sair daquela sala e se dirigir à sua residência, o seu cérebro já trabalhava para tentar encontrar as formas de iniciar o próximo passo. O seu espírito já se inquietava, no sentido de que, conforme entendia e se expressava aos pouquíssimos amigos com quem podia dividir os modos como entendia a vida e o seu curso, aquela era apenas mais uma etapa da batalha; não o fim da guerra pela sobrevivência, pela provisão de si e dos seus.

Assim sendo, dali por diante, ele teria que se defrontar com a força das correntezas incertas que conformavam aquele oceano, onde teria que enfrentar as ondas e as marés, em condições adversas, visto que, a sua incapacidade visual reduzia o seu poder de inserção e de ajuste às exigências de acesso às águas mais navegáveis, em mar aberto, visto que, entre a sua capacidade formativa individual e ou a sua disposição para se apresentar para a luta e, a sua disponibilidade de instrumental que lhe permitisse, ao menos, lançar-se à disputa, um fosso de difícil transposição se interpunha entre o recém-formado e os demais que já se encontravam empenhados em batalhas renhidas para ocupar os poucos lugares a serem ocupados. Quando muito, a sua certificação como graduado que acabara de obter, lhe conferia um lugar mais do que certo, no numeroso “exército [...] de reserva de mão-de-obra”, que permitiria a “regulação dos salários”, bem como fazia com que o número de vagas abertas para novos ingressos estivesse devidamente controlado por aqueles que estabeleciam os parâmetros a serem observados pelos que desejassem alcançá-las.

Portanto, ao buscar desenvolver alguns arrazoados por meio dos quais, alguns dos embates enfrentados por José Mário, logo imediatamente após à sua certificação como Graduado, com o fito de se fazer imiscuir no campo de atuação para o qual fora preparado, haverá que, uma vez mais, recorrer aos fragmentos de memória evocados por este escrevinhador, considerando-se o tempo já bem pretérito, que sobre põe as inúmeras camadas que precisam ser escavadas em profundidades e espessuras depositadas nos mais recônditos espaços da memória. Conforme assevera Joutard:

 

[...], a história não pode ser a ressurreição integral do passado, mas a memória pode lhe fornecer o fio de Ariadne, o vínculo carnal do qual ela, ainda assim, tem necessidade para tornar o  passado inteligível. Ela o faz escutar outras vozes que iluminam os  fragmentos de realidades passadas. [...] (JOUTARD, 2007, p. 234).

 

O “Fio de Ariadne” a que se reporta Joutard, ajuda àquele que rememora, a não se perder pelos labirintos de situações e/ou circunstâncias que marcaram todo um viver, permitindo a quem lembra, se manter em uma direção dada, neste caso específico, a “saída” pretendida, o que o livra de ser morto pelo “Minotauro” dos acontecimentos, dos eventos; dos traumas; dos sofrimentos, que poderiam “contaminar” os lembrares que se quer trazer à superfície.

 Ainda uma e outra vez, recorrendo-se ao  postulado de  P. Ricöeur (1913-2005), é possível elaborar um “rememorar” que aproxime o vivido já distante no tempo, da busca pela construção de um historiar com alguma proximidade da verdade, quase sempre só podendo contar com a “memória” de quem escreve. Diz ele que:

 

 

[...] uma busca específica de verdade está implicada na visão da ”coisa” passada, do que anteriormente visto, ouvido, experimentado, aprendido. Essa busca de verdade especifica a memória como grandeza cognitiva. Mais precisamente, é no momento do reconhecimento, em que culmina o esforço da recordação, que essa busca de verdade se declara enquanto tal. Então, sentimos e sabemos que alguma coisa se passou, que alguma coisa teve lugar, a qual nos implicou como agentes, como pacientes, como testemunhas. [...] (RICÖEUR, 2007, p. 70).

 

Destarte, aqui se lançará mão das reminiscências deste escrevedor, evidentemente, considerando-se a capacidade de seleção da memória, entendendo poder haver silenciamentos e esquecimentos, o que só reforça o sentido de se procurar trazer à lume estes “pedaços de História”, a partir daquilo que é “lembrado”, entendendo igualmente o “esquecimento” como parte constitutiva de um rememorar dado. Assim, é a partir daquilo que se pode testemunhar como tendo sido vivido por aquele que “testemunha”, é que se recorre uma vez mais a Ricöeur (2007), que assevera que

Será preciso, [...], não esquecer que tudo tem início não nos arquivos, mas com o testemunho, e que, apesar da carência principial de confiabilidade do testemunho, não temos nada melhor que o testemunho, em última análise, para assegurar-nos de que algo aconteceu, a que alguém atesta ter assistido pessoalmente, e que o principal, se não às vezes o único recurso, além de outros tipos de documentação, continua a ser o confronto entre testemunhos” (RICÖEUR, 2007, p. 156).

 

É com tal postulado em mente, que este garatujador pretende trabalhar nos próximos arrazoados, tendo na devida conta de ter sido “testemunha” daquilo que se dera àquela altura do viver de José Mário mas, não como de fato se dera; mas, sim, como se apresenta no presente, conforme as ressignificações sofridas ao longo não só dos anos já passados, como considerando-se as camadas de outras experiências que foram acumuladas entre o já passado e ou que ainda não passou. Ao sair daquele prédio em que por volta de cinco anos e meio ele fora apresentado ao conjunto de temas e textos utilizados pelos professores para que, por meio deles, se pudesse apreender, compreender e conhecer criticamente a História, o seu único pensamento e desejo, se concentrava na necessidade de desenvolver maneiras de tornar prática, não só a formação profissional que ali recebera; mas, sobretudo, estabelecer a vida professoral na prática. Encontraria lugar para o exercício da profissão nas escolas privadas da cidade? Haveria concurso público por meio do qual testaria a veracidade dos elogios que lhe eram dirigidos? Havendo o tal concurso e, sendo nele aprovado, teria aceitação junto aos professores e aos alunos, no que tange à sua efetiva inserção em sala de aula regular? Ou, se tentaria um “puxadinho”, para que o “coitado” não fosse assim, lançado às feras, dando-lhe um caminhar professoral tranquilo e sem “traumas”?

Nas proposições que se seguem, se intentará encontrar respostas para algumas destas perguntas e, principalmente, se procurará ampliar aquelas para as quais não fora possível responder.

 

Alagoinhas – 10 de maio de 2026 – outono brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

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