Enfim, graduado – Introdução.
Em consonância com os fragmentos de memória que foram
agrupados em pedaços de Histórias que aqui se pôde ler, se pretende elaborar um
conjunto de enunciados que tenham em conta os embates aos quais José Mário
precisou se lançar para além da conclusão da graduação em História. Pelos
meados de agosto de 1991 e, com a presença de sua mãe, sobrinhos, irmã paterna
e o amigo Mário –cuja amizade fora forjada
nos começos dos anos 1980, nos territórios livres do Centro Integrado Luís
Navarro de Brito –, José Mário fechava o seu processo formativo, ao receber das
mãos do diretor da FFPA, o grau de licenciado em História, o que viria a fechar
o ciclo institucional, no que respeita à sua preparação para ingressar em um
oceano longo, largo, fundo e tenebroso, que atendia pelo nome de “Mercado de
Trabalho”. Nem se pensou em comemorar – visto não ser da sua índole os arroubos
celebrativos -, uma vez que, ao sair daquela sala e se dirigir à sua
residência, o seu cérebro já trabalhava para tentar encontrar as formas de
iniciar o próximo passo. O seu espírito já se inquietava, no sentido de que, conforme
entendia e se expressava aos pouquíssimos amigos com quem podia dividir os
modos como entendia a vida e o seu curso, aquela era apenas mais uma etapa da
batalha; não o fim da guerra pela sobrevivência, pela provisão de si e dos
seus.
Assim sendo, dali por diante, ele teria que se defrontar com
a força das correntezas incertas que conformavam aquele oceano, onde teria que enfrentar
as ondas e as marés, em condições adversas, visto que, a sua incapacidade visual
reduzia o seu poder de inserção e de ajuste às exigências de acesso às águas
mais navegáveis, em mar aberto, visto que, entre a sua capacidade formativa individual
e ou a sua disposição para se apresentar para a luta e, a sua disponibilidade de
instrumental que lhe permitisse, ao menos, lançar-se à disputa, um fosso de
difícil transposição se interpunha entre o recém-formado e os demais que já se
encontravam empenhados em batalhas renhidas para ocupar os poucos lugares a
serem ocupados. Quando muito, a sua certificação como graduado que acabara de
obter, lhe conferia um lugar mais do que certo, no numeroso “exército [...] de
reserva de mão-de-obra”, que permitiria a “regulação dos salários”, bem como
fazia com que o número de vagas abertas para novos ingressos estivesse
devidamente controlado por aqueles que estabeleciam os parâmetros a serem
observados pelos que desejassem alcançá-las.
Portanto, ao buscar desenvolver alguns arrazoados por meio
dos quais, alguns dos embates enfrentados por José Mário, logo imediatamente
após à sua certificação como Graduado, com o fito de se fazer imiscuir no campo
de atuação para o qual fora preparado, haverá que, uma vez mais, recorrer aos
fragmentos de memória evocados por este escrevinhador, considerando-se o tempo
já bem pretérito, que sobre põe as inúmeras camadas que precisam ser escavadas em
profundidades e espessuras depositadas nos mais recônditos espaços da memória.
Conforme assevera Joutard:
[...], a história não pode ser a
ressurreição integral do passado, mas a memória pode lhe fornecer o fio de
Ariadne, o vínculo carnal do qual ela, ainda assim, tem necessidade para tornar
o passado inteligível. Ela o faz escutar
outras vozes que iluminam os fragmentos
de realidades passadas. [...] (JOUTARD, 2007, p. 234).
O “Fio de Ariadne” a que se
reporta Joutard, ajuda àquele que rememora, a não se perder pelos labirintos de
situações e/ou circunstâncias que marcaram todo um viver, permitindo a quem
lembra, se manter em uma direção dada, neste caso específico, a “saída”
pretendida, o que o livra de ser morto pelo “Minotauro” dos acontecimentos, dos
eventos; dos traumas; dos sofrimentos, que poderiam “contaminar” os lembrares
que se quer trazer à superfície.
Ainda uma e outra vez, recorrendo-se ao postulado de P. Ricöeur (1913-2005), é possível elaborar um
“rememorar” que aproxime o vivido já distante no tempo, da busca pela
construção de um historiar com alguma proximidade da verdade, quase sempre só
podendo contar com a “memória” de quem escreve. Diz ele que:
[...] uma busca específica de verdade
está implicada na visão da ”coisa” passada, do que anteriormente visto,
ouvido, experimentado, aprendido. Essa busca de verdade especifica a memória
como grandeza cognitiva. Mais precisamente, é no momento do reconhecimento, em
que culmina o esforço da recordação, que essa busca de verdade se declara enquanto
tal. Então, sentimos e sabemos que alguma coisa se passou, que alguma coisa
teve lugar, a qual nos implicou como agentes, como pacientes, como testemunhas.
[...] (RICÖEUR, 2007, p. 70).
Destarte,
aqui se lançará mão das reminiscências deste escrevedor, evidentemente,
considerando-se a capacidade de seleção da memória, entendendo poder haver
silenciamentos e esquecimentos, o que só reforça o sentido de se procurar
trazer à lume estes “pedaços de História”, a partir daquilo que é “lembrado”,
entendendo igualmente o “esquecimento” como parte constitutiva de um rememorar
dado. Assim, é a partir daquilo que se pode testemunhar como tendo sido vivido
por aquele que “testemunha”, é que se recorre uma vez mais a Ricöeur (2007), que
assevera que
Será preciso, [...], não esquecer que tudo tem início
não nos arquivos, mas com o testemunho, e que, apesar da carência principial de
confiabilidade do testemunho, não temos nada melhor que o testemunho, em última
análise, para assegurar-nos de que algo aconteceu, a que alguém atesta ter
assistido pessoalmente, e que o principal, se não às vezes o único recurso,
além de outros tipos de documentação, continua a ser o confronto entre
testemunhos” (RICÖEUR, 2007, p. 156).
É com tal postulado em mente, que este garatujador pretende
trabalhar nos próximos arrazoados, tendo na devida conta de ter sido “testemunha”
daquilo que se dera àquela altura do viver de José Mário mas, não como de fato
se dera; mas, sim, como se apresenta no presente, conforme as ressignificações
sofridas ao longo não só dos anos já passados, como considerando-se as camadas
de outras experiências que foram acumuladas entre o já passado e ou que ainda
não passou. Ao sair daquele prédio em que por volta de cinco anos e meio ele
fora apresentado ao conjunto de temas e textos utilizados pelos professores
para que, por meio deles, se pudesse apreender, compreender e conhecer
criticamente a História, o seu único pensamento e desejo, se concentrava na
necessidade de desenvolver maneiras de tornar prática, não só a formação
profissional que ali recebera; mas, sobretudo, estabelecer a vida professoral
na prática. Encontraria lugar para o exercício da profissão nas escolas
privadas da cidade? Haveria concurso público por meio do qual testaria a
veracidade dos elogios que lhe eram dirigidos? Havendo o tal concurso e, sendo
nele aprovado, teria aceitação junto aos professores e aos alunos, no que tange
à sua efetiva inserção em sala de aula regular? Ou, se tentaria um “puxadinho”,
para que o “coitado” não fosse assim, lançado às feras, dando-lhe um caminhar professoral
tranquilo e sem “traumas”?
Nas proposições que se seguem, se intentará encontrar
respostas para algumas destas perguntas e, principalmente, se procurará ampliar
aquelas para as quais não fora possível responder.
Alagoinhas – 10 de maio de 2026 – outono brasileiro
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com
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