domingo, 17 de maio de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE XII.

Enfim, graduado – Introdução (Segue).

 

Conforme se pôde perceber, este escrevedor tem buscado trazer à lume, alguns dos elementos que constituíram o sinuoso caminhar de José Mário em busca de sua inserção no espaço de atuação professoral, apontando para os seus lidares com situações e circunstâncias que se lhe apresentaram ao longo do percurso. Ainda considerando o tema de forma introdutória, se faz necessário salientar, de passagem, que um tal caminhar, de per si, era de todo incerto, uma vez que, ele seria o primeiro licenciado em História, que fugia do conjunto de características sensoriais  que, conforme os ditames sociais e culturais vigentes, era esperado de quem se quisesse imiscuir no meio professoral, visto ser aquele um lugar social iminentemente excludente, desde a sua concepção inicial. Aquele era um espaço tacitamente reservado a quem se encaixasse no perfil estrutural que era desenhado para um conjunto de indivíduos que para tal fosse talhado e perfeitamente ajustado. E, conforme se vem demonstrando desde o processo formativo iniciado no Brasilino Viegas e continuado na Graduação, já se vem apontando que José Mário não é nem talhado e, ainda menos, ajustado àquele perfil. O que quer dizer que, ao iniciar o seu périplo em busca de se fazer inserir naquele conjunto seleto de seres que ensinarão aos que nada sabem, enfrentará, em boa medida, um outro grupo de barreiras e obstáculos, não só para se fazer um dentre eles, bem como – e o mais difícil, observe-se – ser recebido e plenamente aceito como parte daquele “corpo”, não apenas um acessório a ele, como aliás, acabou por sê-lo.

Saliente-se que, em várias ocasiões, este escrevente já expressou a convicção de que a escola em todas as suas nuances, é um espaço excludente, argumentando que ela foi feita para quem tem o pleno uso das faculdades sensoriais. Basta prestar um pouco de atenção, ao modo como a escola é estruturada em sua consecução e organizada em seu funcionamento, em qualquer dos seus níveis, no sentido em que não reconhece quaisquer diferenças de percepção do mundo em volta, de ritmo cognitivo, de mobilidade, nem mesmo do cotidiano em que ela venha a ser introduzida. Isto é, a escola chega para impor o seu ritmo padronizador, como se todos vissem perfeitamente, ouvissem/falassem plenamente, se locomovessem livremente ou tivessem a mesma capacidade cognitiva, o que, evidentemente, resulta em colisões violentas com a realidade cultural local, com a vida social, econômica e com as condições sensoriais de indivíduos e/ou grupos de indivíduos, que, ao invés de procurar resolver, ela procura combater, se contrapor, por meio dos diversos “planos” e dos inúmeros “projetos” educativos, que, via de regra, ignoram toda e qualquer diferença. Quando muito, procura-se elaborar “puxadinhos” para chamar de “inclusão”, sem contudo, perder a essência do seu ser: a padronização, o nivelamento, a partir de parâmetros que nem todos conseguem aceder, não obstante os esforços pessoais e/ou as ações institucionais de “apoio”,. E, as diferenças que via de regra são ignoradas ou escamoteadas pelo “educar” da escola, ao fim e ao cabo, vem a cobrar o seu preço, quando o “diferente” se lança em busca de um espaço para atuar – independentemente da área de formação – embora, dada a peculiaridade de cada uma, haja exceções que, apenas corroboram a regra geral.

Por todo o tempo de graduação e, sobretudo, quando se lançava no em calço de uma vaga de professor – ou mesmo, quando se sabia que se preparava para ser professor -, a pergunta que era dirigida a José Mário, inquiria como ele usaria o quadro...? O que faria para corrigir provas, tarefas, exercícios, verificar cadernos...? Como ele saberia se tal ou qual estudante saíra da sala, enquanto ele fazia a sua exposição...? Como ele faria para manter a disciplina em sala, visto que, os alunos eram adolescentes, quase sempre, irreverentes e, até mesmo, insolentes...? Nem é preciso ir longe, para se compreender que todas as indagações, diziam respeito ao fato de não ter ele qualquer capacidade visual, da qual, segundo se compreendia – e, ainda hoje é, era  um dos elementos incontornáveis do processo educativo, conforme o padrão nato da maneira de funcionar e se organizar a escola –, dependeria o adequado desempenho do ofício de professor. Tais inquirições desencadeavam nele uma imensa angústia e lhe infundia profundas dúvidas, visto ser ele um licenciado recém-formado, que ainda se encontrava procurando ingressar naquele espaço que já se lhe apresentava hostil. Uma vez mais, José Mário iria abrir picadas em uma mata densa, com um cipoal pronto a resistir aos seus golpes de foice, com terrenos escorregadios, plenos de grossas raízes, tudo bem-disposto para lhe embargar os passos, sem falar no covil de serpentes traiçoeiras, víboras camufladas entre folhas ou, enroscadas em troncos e galhos, prontas para o bote asfixiante ou para a picada fatal, no primeiro incauto que ousasse violar o espaço já de seu pleno domínio. Os “aplausos” e as palavras elogiosas que a ele eram dirigidos, não refletiam, necessariamente, o que pensavam aqueles que José Mário imaginava, seriam os seus futuros colegas; seriam aqueles que lhe acolheriam, como se acolhe o viajor recém-chegado de longa jornada, ao lugar onde deveria começar o novo caminhar.

Embora suspeitasse da veracidade daquelas manifestações elogiosas a respeito do seu desempenho acadêmico e da sua “inteligência”, ele ainda não possuía a percepção da grande diferença entre o que se falava pela frente, em público e o modo como se agia nos espaços privados, nas conversas entre os de maior relevo, transcorridas nos salões ou nas salas de estar, a meia voz e/ou, o que se pensava, no âmago mais recôndito do modo de ser humano. Muitas vezes, ele tratara aquelas suas desconfianças, como sendo fruto de seu recalque, de sua pouca presunção, no que tange a ser ou ter esta ou aquela capacidade avultada. De toda sorte, ele se ressentia de uma pessoa ou de um amigo que lhe dissesse o que de fato ele era: mais um na multidão; mas, era um mais um na multidão, a quem faltavam alguns elementos sensoriais e mesmo cognitivos exigidos pelo conjunto da sociedade em que estava inserido e com o qual precisava interagir – fundamentos estruturais que deveriam ter sido construídos ao longo do seu viver – e, com os quais, a atuação no campo da “educação” era considerado incontornável. Ele, embora já tivesse alguma consciência disto, necessitava que alguém, sem rodeios e sem floreios, chamasse a sua atenção para o tamanho da tarefa a que ele se impunha e, ainda mais, a oposição que socialmente se lhe faria, no sentido de lhe dificultar o pleno êxito no seu cumprimento.

Não obstante o que vivenciara nas sendas do trajeto instrucional, José Mário tinha bem claro diante de si, que, assim como foi no processo formativo, quando ele procurara se preparar para atuar na área professoral, ela não estaria ao seu alcance sem que tivesse que despender ainda um grande esforço, apesar de ter alcançado diplomar-se em uma Faculdade de Formação de Professores. Para ele, era evidente que, Uma coisa era a obtenção do diploma. Outra, bastante diversa, era o exercício profissional, em uma área hermeticamente forjada para um perfil dado, sob parâmetros bem delineados, sobretudo, no que tange ao funcionamento pleno das faculdades sensoriais, haja vista a utilização de instrumentos de trabalho tais como quadro de giz – ou piloto -, cadernos, transparências, slides, ferramentas de escrita e desenho diferenciados por cores, como  forma de comunicação visual com os alunos, o que alijaria, inexoravelmente, todo aquele que não os pudesse utilizar para tal fim. Portanto, segundo aqueles parâmetros, a impossibilidade e/ou dificuldade de fazer uso de algum daqueles instrumentos, inviabilizaria a “transmissão” dos saberes, arte última do ser professor.

 

Alagoinhas – 17 de maio de 2026 – outono brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

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