domingo, 20 de abril de 2025

1985: Quarenta anos de uma posse Presidencial frustrada – Terceira Parte

TANCREDO NEVES NÃO SUBIU A RAMPA DO PLANALTO, ELE DESCEU À CAMPA FRIA

 

A memória deste garatujador e, já se percebe, aquela produzida pelos meios de comunicação social, se remete ao ano de 1985, quando se esperava que o novo presidente eleito, ainda que pelo Colégio Eleitoral, há alguns meses antes, viesse a ser empossado nos meados de março daquele ano, quando seria o primeiro chefe do executivo civil a receber a faixa presidencial, depois de vinte e um anos de arbítrio, quando o país foi sangrado por governos  encabeçados por cinco generais – na verdade, dois marechais e três generais –, frutos de uma ditadura implantada por uma das muitas quarteladas ocorridas no Brasil – inclusive, aquela que derrubou o Império e implantou a República em 15 de novembro de 1889 –, a penúltima delas, a que interrompeu o governo legítimo de João Goulart, com o  golpe de 1964. A despeito de todos os preparativos cerimoniais; não obstante os cuidados e ajustes protocolares; malgrado o esmero para garantir a segurança das autoridades, das lideranças políticas e dos chefes de Estado; mesmo em meio às atividades festivas para a recepção das gentes que participariam da efeméride política em Brasília, o dia quinze de março amanhecera sob a estupefação provocada pela confirmação do que há poucas horas não passara de boatos: o ainda presidente eleito, Tancredo de Almeida Neves estava internado em um hospital de Brasília e, claro, não estaria pronto para subir a “rampa do Planalto”. Que desastre! O que se daria nas horas posteriores ao momento que se confirmara aquela informação? Como se comportariam os quartéis, ainda inconformados por terem de retornar aos seus espaços de ação, diante da possibilidade de um de seus antigos aliados e, então, um  desafeto, assumir, ainda que interinamente, o posto que equivaleria a chefia maior deles?

Todo aquele dia e os demais que se seguiram foram marcados por boatos, desinformações, contrainformações, especulações tão diversas, quanto díspares. Para a maioria daqueles que se interessavam por aqueles acontecimentos, tinha os meios de comunicação como a sua principal e, por vezes, como a sua única fonte de acesso ao que se passava na capital federal e em São Paulo, onde os principais lances daquele jogo político eram desencadeados. Mas, conforme se apontou em arrazoado anterior, embora, em tese,  todos pudessem receber as principais notícias do País e do Mundo, principalmente por meio da televisão, para a grande maioria do “povo”, o que importava mesmo era dar conta das atividades cotidianas e procurar, por algum meio, prover as necessidades imediatas do comer, do vestir, do calçar e do folgar. Para aquelas gentes para quem o mundo de Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro era um mundo a parte e, praticamente, quase não lhes dizia respeito, os dias, as noites, as semanas e os meses se passavam indiferentes; neles, se nascia, se morria; se comprava se vendia; se chegava se saía, sem que a eles se lhes desse conta, a menos que os atingisse de forma direta e lhes acabrunhasse a morte, a vergonha e a fome. Como quase toda a gente, este garatujador se deitava em seu leito comum de pessoa desprovida de qualquer luxo; pensava no que seria, no que faria; se seria, se teria ou se faria; levantava e se dirigia até a escola; outros, em melhor situação que ele, se dirigiam ao trabalho, para dali tirar o provimento para si e para os seus. Enquanto isto: sucediam-se as cirurgias, os boletins médicos que, para a maioria dos que acompanhavam sem paixões ou vãos esperares, o estado de  saúde do paciente mineiro, só se agravava, só se degradava, apesar da insistência com que os meios de comunicação social – mormente a televisão – e  as autoridades políticas e eclesiásticas, incentivavam a uma quase histeria coletiva, procurando infundir uma esperança de que, quiçá, nem as autoridades médicas acreditavam haver.

Evidentemente que a memória aqui evocada, não pôde trazer em forma de lembrança, senão aquilo que mais se lhe emergiu das muitas camadas já sobrepostas pelos anos. Além disto, nem tudo que se passou naquele dia e nos seguintes, foi de pleno conhecimento público; mesmo aquilo que foi “descoberto” a posteriori, sempre esteve envolto em muitas controvérsias e inúmeras incertezas. Circularam desde as mais absurdas às mais “aceitáveis” ou “possíveis” versões. Dentre as muitas, chegou a surgir uma que apontava a utilização de uma arma “biológica”, que infectara o presidente, para que ele não viesse a fazer do Brasil, uma nação “soberana”, sobretudo, sobrepujando a intocável nação Norte-Americana. Ou seja: grande parte das versões surgidas para explicar aquele  dia da “posse frustrada”, estariam assentadas sobre as bases daquilo que se convencionou denominar “teorias da conspiração”.

Chegara abril e já era outono, quando as chuvas se apresentam para varrer do chão aquelas primeiras folhas caídas das árvores para que a nova folhagem pudesse surgir na próxima primavera. Depois do susto na noite que antecedera o dia da posse do novo presidente, seguido do torpor provocado pela internação emergencial do eleito, passando por uma sensação de alívio precário, ao se dar posse ao vice-presidente, enquanto se aguardava o desenrolar do quadro de saúde após o procedimento cirúrgico de quem seria o titular da faixa presidencial, vieram dias e dias de agonia do enfermo e de aflição para aqueles que acompanhavam pela imprensa a sucessão de cirurgias que se seguiram àquela, dita emergencial

Depois do hospital de Base em Brasília, seguiu-se para o Instituto do Coração (INCOR) em São Paulo, onde mais algumas intervenções foram feitas, na tentativa, àquela altura, desesperada para conter um processo infeccioso que avançava pelo organismo do paciente, idoso e debilitado pelos procedimentos anteriores, em intervalos curtíssimos, indiferente aos esforços das equipes médicas e às orações, rezas ou coisas que tais, pretensamente feitas pelas autoridades eclesiásticas e fiéis de credos diversos e  adversos entre si. Aliás, neste Brasil varonil, sempre que uma autoridade, ou alguém muito apreciado pelo público em geral e pela imprensa em particular – e ainda hoje, mais ainda, pelas redes sociais -, são organizadas e/ou convocadas tais manifestações, vulgarizadas sob o epíteto de “Correntes de orações”, pululam aqui, ali, acolá ou alhures, fazendo crer na existência de um poder em tais ações coletivas, em formas de orações, rituais, rezas e outras similaridades, no sentido de fazer com que aquela “divindade” evocada nas tais “correntes”, se digne a atender súplicas tão candentes e, “sare” o doente, sim, aquele doente pelo qual, tão compungidos corações se derramam em fé – só não se sabe “fé em quê”, como diriam Gilberto Gil e  Herbert Vianna, por meio dos Paralamas do Sucesso; e este escrevedor ousa complementar, em quem!  Mas: e os demais? Ah, os demais, os médicos e os medicamentos que resolvam.

Todo o resto do mês de março e os primeiros vinte e um dias de abril, foram marcados pelo ritmo das notícias, das especulações e pelos boatos, não somente emergidos de Brasília, bem como espalhados pelos rincões brasileiros, através do rádio, da televisão, das revistas e  pelos jornais em circulação no País. Porém, em abril, ah, aqueles meados de abril, aquele abril em que o desfecho se deu; aquele terceiro domingo de abril, naquele meio de  noite, o que se abriu, foi o último dos boletins médicos que foram divulgados por todo aquele tempo. A voz embargada do jornalista gaúcho, Antônio Brito, informa aos telespectadores e aos ouvintes de todo o Brasil, que o excelentíssimo senhor Tancredo de Almeida Neves “EST Mort”.

Enfim, terminava em abril aquela agonia de uma pessoa; de um ser humano, independentemente de se tratar de alguém que fora eleito para a mais alta magistratura do País. Agonia lenta, longa e culminada com o fim de um ciclo pessoal e político daquele que a sofrera. Naquele abril de quarenta anos atrás, portanto, o que se  abriu foi uma campa cemiterial em sua cidade natal, para que nela fosse depositado o corpo inerte daquele que se esperava fosse receber a faixa presidencial. Sim, ele até a recebera. Mas, já de forma simbólica, visto que, quando a recebera, já não mais poderia presidir o povo a quem dissera em seu discurso antológico: “Não vamos nos dispersar”.

 

Alagoinhas, outono de 2025.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

Um comentário:

  1. Excelente texto, professor!
    Estava lendo e rebobinando minhas memórias daquele período...o que ainda resta de senso crítico ou de curiosidade pela verdade verdadeira, me parece ainda ofuscado pelo apelo sensacionalista e emocional da TV mandante na época. A cirurgia, a doença e a morte daquele personagem sobrepunha em demasia o feito político de MUDANÇA do País. Deu a impressão de que para se derrotar os quartéis será sempre uma batalha sofrida e/ ou quase impossível; Vou me utilizar de uma frase ou dito popular para uma analogia do evento marcante na nossa História:
    "essa coisa é igual ao jogo do bicho. Difícil de ganhar e duro de receber "
    Até hoje, os quartéis ainda suspiram ameaçadores. É verdade, não devemos nos dispersar.

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