sábado, 5 de abril de 2025

1981 – O Fim do Primeiro Grau: A Oitava Série em um único lance – Parte II.

 

A memória quase sempre precisa ser evocada por quem lembra, isto já está consolidado enquanto elemento constitutivo dos estudos a ela relacionados. No entanto, ao ser evocada, ela se apresenta, o mais das vezes, fragmentada e fugidia. Isto quer dizer que a memória não se apresenta plena e organizada, o que obriga a quem lembra, estruturar o que lembra, de forma a dar coerência e concatenar o rememorar que pretende apresentar em forma textual.

É assim que se procura orientar, aquele que se prontifica a elaborar alguns dos elementos surgidos nas evocações de fios da memória, com o fito de desenvolver uma história – dentre tantas outras possíveis – que se viveu em um tempo já pretérito. Há já alguns dias, este escrevente vem traçado uma espécie de “trajetória” escolar/educacional de José Mário, retomando aqui e ali, o seu caminhar pelas séries que, se completadas, lhe permitiria completar a primeira fase de um longo – e no caso em discussão, já alongado – processo de formação escolar, visto que, tendo ele vivido algumas experiências laborais malogradas, enquanto, igualmente malograva no acompanhar o ritmo daquele processo, o que, pouco a pouco, não sem resistências e relutâncias, ele era instado a perceber que, sem concluir aquela etapa e, sem adentrar e conduzir até ao fim, as etapas seguintes, pouco ou nada conseguiria, conforme o passar do tempo confirmou para ele.

Com isto lhe fervendo no cérebro, José Mário se resigna em continuar percorrendo aqueles tortuosos caminhos da escolarização, procurando se valer do pouco instrumental que lhe viesse às mãos. Tendo obtido alguns êxitos nas nove ou dez outras disciplinas que compunham o cardápio servido para a Oitava Série, o prato da matemática, naquela primeira unidade, ainda lhe causara algum desconforto, o que lhe fez, ainda uma vez, recorrer a uma maior aproximação com a professora que elaborava aquele quase indigesto prato, no sentido de obter dela algumas explicações, diga-se, complementares, que lhe pudesse entender melhor a sua composição e, por conseguinte, uma melhor deglutição.

Desta forma pensando e agindo, a partir da segunda unidade, José Mário se aproximou daquela professora que lhe dera a chance de escapar de uma perda da unidade anterior, recebendo dela Cortez acolhimento, procurando fazer o rapaz entender as tais equações – daquela vez, eram as do segundo grau.

Cabe aqui abrir uns parêntesis, com o fito de informar ao leitor que, o irrequieto aluno em análise, arrumou umas boas confusões com alguns professores, durante todo o seu trajeto formativo. Na oitava, não foi diferente. Ele entrou em rota de colisão com a professora de “comunicação e expressão”, havendo uma tal altercação entre eles, que José Mário, receando retaliação da docente, procurou a secretaria da escola, para pedir a sua troca de turma Embora com alguma reticência, o secretário, após consultar a direção, aquiesceu e José Mário foi alocado na 8M4, formada por gente ainda mais nova do que ele, o que no geral não chegaria a ser novidade. Mas, naquele caso, o aluno polemista já contava com vinte anos completos, enquanto a média de idade dos alunos daquela nova turma, estava na faixa dos 14 anos. Um cavalo velho, entre os poldros... No entanto, aquela mudança acabou por aproximar José Mário com uma professora que o ajudara muitíssimo nas caminhadas seguintes. Tranquilizado pelo fato de ser a professora de matemática a mesma que atuava na turma anterior, a professora de português era para ele uma pessoa completamente desconhecida. Tratava-se da professora Edna Garcia (1945-2017), com quem se estabeleceu uma amizade e um respeito que ultrapassaram e muito, os muros escolares. Primeiro, ela enquadrou o altercador, sobretudo, com o respeito e a admiração que ela fê-lo sentir. Depois, com todo o tato professoral, ela o ajudou a compreender muito melhor os liames da língua, da gramática e da redação, fazendo com que o seu rendimento alcançasse maiores patamares naquele ano. E, terceiro, ela foi a pessoa que o recebeu em sua residência, para o incentivar na caminhada rumo ao curso de História na Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, com aulas, orientações e, mais do que qualquer outra coisa: apostando naquele aluno em muito fragilizado do ponto de vista das estruturas que o sustentasse em tal empreitada. Mas, não se adiantem as coisas. E fechem-se os parêntesis, dizendo que, a sintonia fina encontrada entre professora e aluno, deveras, foi fundamental para os desdobramentos posteriores.

Mas, de volta a oitava série, aquele aluno, contando com a paciência e a competência da professora Zenilda – ou era Zenildes – alcançou as suas melhores notas na malfadada matemática, em toda a sua trajetória escolar. Ela conseguiu fazer com que aquele seu aluno recalcitrante nas fases anteriores do processo de formação escolar, conseguisse não só entender, como assimilar aquelas construções de equações e, melhor: a sua resolução. Aquilo lhe valeu surpreendentes notas nove, nove e meio, que deixaram aquele aluno encabulado consigo mesmo: como conseguira aquilo? O que mudara no seu cérebro, que afinal, se abrira para aquelas construções por demais abstratas que, ao se bater com jogos de sinais e operações, antes para ele complicadas e incompreensíveis, chegava a resultados, quase invariavelmente “igual a zero”? Benedito Castrucci com o seu livro de matemática e as suas explicações acompanhadas de exemplos, com cada vez maiores níveis de dificuldade  e, Zenilda, que procurava dirimir as incontáveis dúvidas do seu aluno, eram os únicos instrumentos com os quais ele contava. O Sorobã era a sua única ferramenta de cálculo; a reglete, a sua companheira inseparável de todas as matérias. Mas, como foi aquilo?

Não se saberia responder, ao menos, sem um aprofundamento do caso, o que não é o objetivo deste arrazoado. O que se sabe de certo é que, ao findar o ano de 1981,aproximadamente no final de novembro, José Mário já se encontrava aprovado em todas as matérias – inclusive, saliente-se, a Matemática – e, apto para iniciar o caminhar no Segundo Grau, o que se deu no ano seguinte. Dali por diante, outras seriam as preocupações, outros seriam os questionamentos. Também, seriam outras as barreiras; outros os níveis de dificuldade; ainda outras seriam as incertezas, as dúvidas, as ansiedades. Tudo, embora nem tanto – pois segundo o sábio Salomão “Nada há de novo, debaixo do sol” -, mas enfim, tudo seria novo, pelo menos, para José Mário.

 

Alagoinhas – 06 de abril de 2025

 

Professor José Jorge Andrade Damasceno

- e-mail: historiadorbaiano@gmail.com 

3 comentários:

  1. Lendo essas suas linhas, Jorge, reafirmo a grande importância do professor, na condução da vida de um estudante.Edna passou a orientadora e guia. Que bonito! É a isso que chamo" o dedo d Deus".

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  2. Esse comentário é de Iraci Gama

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  3. Que todo professor(a) possa fazer a diferença na vida de um aluno! O olhar humanizador e empático da professora Zenilda fez toda a diferença no caminhar de José Mário. Por mais professores inspiradores!

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