TANCREDO NEVES NÃO SUBIU A RAMPA DO PLANALTO, ELE DESCEU À
CAMPA FRIA
A memória deste garatujador e, já se percebe, aquela
produzida pelos meios de comunicação social, se remete ao ano de 1985, quando
se esperava que o novo presidente eleito, ainda que pelo Colégio Eleitoral, há
alguns meses antes, viesse a ser empossado nos meados de março daquele ano,
quando seria o primeiro chefe do executivo civil a receber a faixa presidencial,
depois de vinte e um anos de arbítrio, quando o país foi sangrado por governos encabeçados por cinco generais – na verdade,
dois marechais e três generais –, frutos de uma ditadura implantada por uma das
muitas quarteladas ocorridas no Brasil – inclusive, aquela que derrubou o Império
e implantou a República em 15 de novembro de 1889 –, a penúltima delas, a que interrompeu
o governo legítimo de João Goulart, com o golpe de 1964. A despeito de todos os
preparativos cerimoniais; não obstante os cuidados e ajustes protocolares;
malgrado o esmero para garantir a segurança das autoridades, das lideranças políticas
e dos chefes de Estado; mesmo em meio às atividades festivas para a recepção das
gentes que participariam da efeméride política em Brasília, o dia quinze de
março amanhecera sob a estupefação provocada pela confirmação do que há poucas
horas não passara de boatos: o ainda presidente eleito, Tancredo de Almeida Neves
estava internado em um hospital de Brasília e, claro, não estaria pronto para
subir a “rampa do Planalto”. Que desastre! O que se daria nas horas posteriores
ao momento que se confirmara aquela informação? Como se comportariam os
quartéis, ainda inconformados por terem de retornar aos seus espaços de ação,
diante da possibilidade de um de seus antigos aliados e, então, um desafeto, assumir, ainda que interinamente, o
posto que equivaleria a chefia maior deles?
Todo aquele dia e os demais que se seguiram foram marcados
por boatos, desinformações, contrainformações, especulações tão diversas,
quanto díspares. Para a maioria daqueles que se interessavam por aqueles
acontecimentos, tinha os meios de comunicação como a sua principal e, por
vezes, como a sua única fonte de acesso ao que se passava na capital federal e
em São Paulo, onde os principais lances daquele jogo político eram
desencadeados. Mas, conforme se apontou em arrazoado anterior, embora, em tese,
todos pudessem receber as principais
notícias do País e do Mundo, principalmente por meio da televisão, para a
grande maioria do “povo”, o que importava mesmo era dar conta das atividades cotidianas
e procurar, por algum meio, prover as necessidades imediatas do comer, do
vestir, do calçar e do folgar. Para aquelas gentes para quem o mundo de
Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro era um mundo a parte e, praticamente,
quase não lhes dizia respeito, os dias, as noites, as semanas e os meses se
passavam indiferentes; neles, se nascia, se morria; se comprava se vendia; se
chegava se saía, sem que a eles se lhes desse conta, a menos que os atingisse
de forma direta e lhes acabrunhasse a morte, a vergonha e a fome. Como quase
toda a gente, este garatujador se deitava em seu leito comum de pessoa
desprovida de qualquer luxo; pensava no que seria, no que faria; se seria, se teria
ou se faria; levantava e se dirigia até a escola; outros, em melhor situação
que ele, se dirigiam ao trabalho, para dali tirar o provimento para si e para
os seus. Enquanto isto: sucediam-se as cirurgias, os boletins médicos que, para
a maioria dos que acompanhavam sem paixões ou vãos esperares, o estado de saúde do paciente mineiro, só se agravava, só
se degradava, apesar da insistência com que os meios de comunicação social – mormente
a televisão – e as autoridades políticas
e eclesiásticas, incentivavam a uma quase histeria coletiva, procurando
infundir uma esperança de que, quiçá, nem as autoridades médicas acreditavam
haver.
Evidentemente que a memória aqui evocada, não pôde trazer em
forma de lembrança, senão aquilo que mais se lhe emergiu das muitas camadas já
sobrepostas pelos anos. Além disto, nem tudo que se passou naquele dia e nos
seguintes, foi de pleno conhecimento público; mesmo aquilo que foi “descoberto”
a posteriori, sempre esteve envolto em muitas controvérsias e inúmeras
incertezas. Circularam desde as mais absurdas às mais “aceitáveis” ou “possíveis”
versões. Dentre as muitas, chegou a surgir uma que apontava a utilização de uma
arma “biológica”, que infectara o presidente, para que ele não viesse a fazer
do Brasil, uma nação “soberana”, sobretudo, sobrepujando a intocável nação
Norte-Americana. Ou seja: grande parte das versões surgidas para explicar aquele
dia da “posse frustrada”, estariam
assentadas sobre as bases daquilo que se convencionou denominar “teorias da
conspiração”.
Chegara abril e já era outono, quando as chuvas se apresentam
para varrer do chão aquelas primeiras folhas caídas das árvores para que a nova
folhagem pudesse surgir na próxima primavera. Depois do susto na noite que
antecedera o dia da posse do novo presidente, seguido do torpor provocado pela
internação emergencial do eleito, passando por uma sensação de alívio precário,
ao se dar posse ao vice-presidente, enquanto se aguardava o desenrolar do
quadro de saúde após o procedimento cirúrgico de quem seria o titular da faixa
presidencial, vieram dias e dias de agonia do enfermo e de aflição para aqueles
que acompanhavam pela imprensa a sucessão de cirurgias que se seguiram àquela,
dita emergencial
Depois do hospital de Base em Brasília, seguiu-se para o Instituto
do Coração (INCOR) em São Paulo, onde mais algumas intervenções foram feitas,
na tentativa, àquela altura, desesperada para conter um processo infeccioso que
avançava pelo organismo do paciente, idoso e debilitado pelos procedimentos
anteriores, em intervalos curtíssimos, indiferente aos esforços das equipes
médicas e às orações, rezas ou coisas que tais, pretensamente feitas pelas
autoridades eclesiásticas e fiéis de credos diversos e adversos entre si. Aliás, neste Brasil
varonil, sempre que uma autoridade, ou alguém muito apreciado pelo público em
geral e pela imprensa em particular – e ainda hoje, mais ainda, pelas redes
sociais -, são organizadas e/ou convocadas tais manifestações, vulgarizadas sob
o epíteto de “Correntes de orações”, pululam aqui, ali, acolá ou alhures,
fazendo crer na existência de um poder em tais ações coletivas, em formas de
orações, rituais, rezas e outras similaridades, no sentido de fazer com que
aquela “divindade” evocada nas tais “correntes”, se digne a atender súplicas tão
candentes e, “sare” o doente, sim, aquele doente pelo qual, tão compungidos
corações se derramam em fé – só não se sabe “fé em quê”, como diriam Gilberto Gil e Herbert Vianna, por meio dos Paralamas do Sucesso;
e este escrevedor ousa complementar, em quem! Mas: e os demais? Ah, os demais, os médicos e
os medicamentos que resolvam.
Todo o resto do mês de março e os primeiros vinte e um dias
de abril, foram marcados pelo ritmo das notícias, das especulações e pelos
boatos, não somente emergidos de Brasília, bem como espalhados pelos rincões
brasileiros, através do rádio, da televisão, das revistas e pelos jornais em circulação no País. Porém, em
abril, ah, aqueles meados de abril, aquele abril em que o desfecho se deu;
aquele terceiro domingo de abril, naquele meio de noite, o que se abriu, foi o último dos
boletins médicos que foram divulgados por todo aquele tempo. A voz embargada do
jornalista gaúcho, Antônio Brito, informa aos telespectadores e aos ouvintes de
todo o Brasil, que o excelentíssimo senhor Tancredo de Almeida Neves “EST Mort”.
Enfim, terminava em abril aquela agonia de uma pessoa; de um
ser humano, independentemente de se tratar de alguém que fora eleito para a
mais alta magistratura do País. Agonia lenta, longa e culminada com o fim de um
ciclo pessoal e político daquele que a sofrera. Naquele abril de quarenta anos
atrás, portanto, o que se abriu foi uma
campa cemiterial em sua cidade natal, para que nela fosse depositado o corpo
inerte daquele que se esperava fosse receber a faixa presidencial. Sim, ele até
a recebera. Mas, já de forma simbólica, visto que, quando a recebera, já não
mais poderia presidir o povo a quem dissera em seu discurso antológico: “Não
vamos nos dispersar”.
Alagoinhas, outono de 2025.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com
Excelente texto, professor!
ResponderExcluirEstava lendo e rebobinando minhas memórias daquele período...o que ainda resta de senso crítico ou de curiosidade pela verdade verdadeira, me parece ainda ofuscado pelo apelo sensacionalista e emocional da TV mandante na época. A cirurgia, a doença e a morte daquele personagem sobrepunha em demasia o feito político de MUDANÇA do País. Deu a impressão de que para se derrotar os quartéis será sempre uma batalha sofrida e/ ou quase impossível; Vou me utilizar de uma frase ou dito popular para uma analogia do evento marcante na nossa História:
"essa coisa é igual ao jogo do bicho. Difícil de ganhar e duro de receber "
Até hoje, os quartéis ainda suspiram ameaçadores. É verdade, não devemos nos dispersar.