Hoje, eu acordei com vontade de escrever. Mas, o que escrever? Por que escrever? para quê escrever?
Não é que falte assunto; não é que falte disposição... Mas ...
O que escrever que já não foi escrito? Ou o que dizer que já não foi dito? O que haveria de novo "debaixo do sol" para que aqui se pudesse discorrer, sem incorrer em "vagueares" em águas por muito e por muitas vezes navegadas?
É certo que, nestes últimos pouco mais de cem dias, vive-se uma devastadora "pandemia" viral que, viajando ao redor do planeta, atravessando os oceanos, singrando os mares, planeando os ares e palmilhando os continentes e, em seu percurso vai desconhecendo distâncias, fronteiras, nacionalidades, culturas, religião ou cor de pele; idade ou condição social, poder econômico ou importância política. Ao que se sabe, o tal de "novo Coronavirus" já seifou vidas humanas, não aos milhares, mas, sim, às centenas de milhares... Mas, como diria um ocupante de cadeira presidencial "e daí"? Já não se falou sobre este assunto à exaustão? As inúmeras gerações de humanos que habitam a terra, já não foram engolfadas por outras centenas de epidemias, pandemias, pragas e pestes, com muitos milhões de mortes? Em que difere esta penúltima - ou antepenúltima - das demais que já passaram, deixando rastros de destruição e nas suas pegadas profundas pelo solo terráqueo, deixando sulcos de muita dor naqueles que perdem os seus, produzindo "prantos e rangeres de dentes"?
E, aqueles que a elas sovreviveram, por ventura se tornaram melhores homens e mulheres; melhores sociedades; melhores organizações humanas; mais solidárias e solícitas ao clamor dos que tem fome de pão, ao gemido dos que tem sede de água; se fizeram sensíveis para com o clamor por justiças - de quaisquer ordem -; aos anseios de equidade e mutualidade?
Bom, a julgar pela história de guerras, conflitos de terra, explorações de povos tidos como "inferiores" por outros povos, massacres e aprisionamentos de pessoas humanas, inferiorizadas e subjugadas por outras pessoas humanas; das guerras fratricidas, dos holocaustos, dos genocídios ocorridos depois das diversas mortandades que sobrevieram aos humanos, ao longo dos milênios... dá para inferir que as pragas passaram avassaladoras como desce a enxurrada do cimo do mais alto monte e leva de roldão tudo que encontre pela frente, sem promoverem nos homens o menor desejo de se abster de sua sanha dominadora.
Apenas para citar um exemplo: as terras encontradas pelos europeus ocidentais, localizadas ao oeste do "velho mundo", logo denominadas "América" ou "Novo Mundo", teve grande parte de sua população nativa dizimada por endemias e pandemias trazidas pelos "conquistadores vindos nos navios, junto com as quinquilharias, as "heresias",as "crendices" populares e eclesiásticas medievais, a "eucaristia", as roupas, os espelhos, a língua "românica" que acompanharam os "civilizadores" que aportaram em terras que acreditaram ser a "Índia".
Voltando ao tempo presente, ao que parece, analisando-se os desdobramentos do evento pandêmico em curso, não se vislumbra quaisquer vestígios de que a humanidade que sobreviva a ele, passe a pensar, agir e viver de uma forma menos agressiva e egoísta do que vivera até uns três ou quatro meses atrás...
E o "pandemônio político" que graça avassalador sobre o Brasil de 2020? Bom... Quanto a isto ... outros tem escrito abundantemente nas redes sociais, nas revistas semanais e nos jornais diários ... Embora este escrevedor aprecie tais discussões, ele não possue elementos consistentes para desenvolver uma análise sobre o atual momento brasileiro, com o rigor e a responsabilidade que se exige em tais casos.
Pronto. Escrevi.
Professor Jorge Damasceno
terça-feira, 5 de maio de 2020
quarta-feira, 26 de setembro de 2018
Uma escelente reflexão do historiador Carlos Fico - Brasil Recente: A anunciada crise institucional
Brasil Recente: A anunciada crise institucional: Carlos Fico Existe a possibilidade de ruptura institucional após a eleição presidencial deste ano porque o impeachment de Dilma Rou...
sábado, 1 de setembro de 2018
Eleições atípicas - suite
Conforme a performance dos excelentíssimos senhores ministros do Tribunal Superior Eleitoral brasileiro, em um ardiloso desfile de vaidades e egos inflados, é confirmado tudo aquilo que já estava nos scripts mediáticos, no que respeita à "inelegibilidade" de um candidato, desde sempre decretada pelo judiciário mediatizado e/ou, pela mídia judicializada.
Alguns analistas políticos já vinham dizendo, sensatamente, que os magistrados travestidos de jornalistas e os jornalistas auto-investidos de juízes, não fariam tão ardilosa e sórdida manobra jurídico/político/mediática inviabilizadora da candidatura de Lula da Silva, para depois abrir mão de seus intentos e ... permitir que se candidatasse livremente, submetendo-se ao escrutínio que, conforme as "intenções de voto" manifestas por mais de um ano, talvez o levasse uma vez mais ao topo do Palácio do Planalto.
Logo, era necessário que a ópera fosse concluída e de modo coerente com o script cuidadosamente elaborado/urdido nos submundos do poder - interno e, sobretudo, externo (para além das ditas "teorias conspiratórias").
É neste sentido que, para este escrevedor, não se constituiu surpresa o resultado obtido pelos argutos construtores da "não-candidatura lula", na medida em que precisam sempre deixar uma impressão de normalidade política, com o fim de evitar uma inimaginável "convulsão social"; é preciso fazer com que se "respire" um certo "ar" de correção jurídica; é mister que se dê uma ideia de que o que se faz, é feito dentro das normas legais vigentes.
E assim, o público em geral está sendo midiaticamente educado a perceber-se dentro dos ditames democráticos, por meio dos quais o candidato e sua defesa, vão tendo garantidos os seus direitos aos recursos jurídicos, embora um a um venha sendo sistematicamente (des)construídos, não de forma a parecer manobras deliberadas para inviabilizar a candidatura; mas de modo a dar ao público telespectador a impressão de que tudo e todos estão sendo respeitados, de acordo com os arcabouços jurídicos vigentes no País.
Alguns analistas políticos já vinham dizendo, sensatamente, que os magistrados travestidos de jornalistas e os jornalistas auto-investidos de juízes, não fariam tão ardilosa e sórdida manobra jurídico/político/mediática inviabilizadora da candidatura de Lula da Silva, para depois abrir mão de seus intentos e ... permitir que se candidatasse livremente, submetendo-se ao escrutínio que, conforme as "intenções de voto" manifestas por mais de um ano, talvez o levasse uma vez mais ao topo do Palácio do Planalto.
Logo, era necessário que a ópera fosse concluída e de modo coerente com o script cuidadosamente elaborado/urdido nos submundos do poder - interno e, sobretudo, externo (para além das ditas "teorias conspiratórias").
É neste sentido que, para este escrevedor, não se constituiu surpresa o resultado obtido pelos argutos construtores da "não-candidatura lula", na medida em que precisam sempre deixar uma impressão de normalidade política, com o fim de evitar uma inimaginável "convulsão social"; é preciso fazer com que se "respire" um certo "ar" de correção jurídica; é mister que se dê uma ideia de que o que se faz, é feito dentro das normas legais vigentes.
E assim, o público em geral está sendo midiaticamente educado a perceber-se dentro dos ditames democráticos, por meio dos quais o candidato e sua defesa, vão tendo garantidos os seus direitos aos recursos jurídicos, embora um a um venha sendo sistematicamente (des)construídos, não de forma a parecer manobras deliberadas para inviabilizar a candidatura; mas de modo a dar ao público telespectador a impressão de que tudo e todos estão sendo respeitados, de acordo com os arcabouços jurídicos vigentes no País.
sexta-feira, 31 de agosto de 2018
Uma jornada eleitoral atípica
Este ano de 2018 fará a história recente do Brasil vivenciar mais uma jornada eleitoral atípica. Nele, o presidente e governadores serão eleitos, uma vez mais, sem que se leve na devida conta as eleições legislativas, visto que as atenções estão inteiramente voltadas para os cargos majoritários, sobretudo, o posto de presidente da República.
Mas, a sua atipicidade está no fato de que o candidato melhor colocado quando se trata de aferir as intenções de voto é aquele que se encontra aprisionado política e arbitrariamente em Curitiba (justo lá: por quê?), impedido de fazer campanha, apresentar suas propostas para o País, fazendo com que a mídia familiar, a justiça classista e as redes sociais, consigam prevalecer sobre a opinião pública e decida em seu lugar.
A rede de televisão hegemonicamente dominante no País, dá o tom da campanha: ela é quem define a quem e quando entrevistar e a quem não entrevistar; formula as suas questões, consoante aos seus interesses particulares/empresariais e os torna interesses "Nacionaiss"; enfim, pauta o desenrolar da campanha eleitoral, despudoradamente, como se fora ela mesma a condutora do processo.
Assim, estaremos realizando uma eleição "geral", sob a marca do autoritarismo judiciário/mediático, como aliás tem se dado a apresentação da narrativa histórica no Brasil pós 2016, sem que haja quaisquer perspectivas de melhoria neste quadro, ao menos, em um curtíssimo prazo.
Mas, a sua atipicidade está no fato de que o candidato melhor colocado quando se trata de aferir as intenções de voto é aquele que se encontra aprisionado política e arbitrariamente em Curitiba (justo lá: por quê?), impedido de fazer campanha, apresentar suas propostas para o País, fazendo com que a mídia familiar, a justiça classista e as redes sociais, consigam prevalecer sobre a opinião pública e decida em seu lugar.
A rede de televisão hegemonicamente dominante no País, dá o tom da campanha: ela é quem define a quem e quando entrevistar e a quem não entrevistar; formula as suas questões, consoante aos seus interesses particulares/empresariais e os torna interesses "Nacionaiss"; enfim, pauta o desenrolar da campanha eleitoral, despudoradamente, como se fora ela mesma a condutora do processo.
Assim, estaremos realizando uma eleição "geral", sob a marca do autoritarismo judiciário/mediático, como aliás tem se dado a apresentação da narrativa histórica no Brasil pós 2016, sem que haja quaisquer perspectivas de melhoria neste quadro, ao menos, em um curtíssimo prazo.
quinta-feira, 11 de agosto de 2016
Alagoinhas 1970: a primeira vez que fui no “Estadual”.
Era março, talvez abril ou, quem sabe maio... Certo mesmo é que era
noite.
Tendo saído logo depois do jantar aquele jantar de filhos de
trabalhadora informal, sem patrão ou salário definidos, este autor e seu irmão
mais velho, já falecido,nos dirigimos ao outrora calmo centro da cidade de
Alagoinhas, levados pela kombe que realizava o transporte coletivo.
Tendo Chegado ao terminal situado à praça Castro Leal, tomou-se a
rua lateral a delegacia, na direção da José Olímpio, virando a esquerda e, após
virar a ddireita, pegou-se a Praça Ruy Barbosa,passando na frente de várias
residências que ainda não tinham sido transformadas em clínicas ou simplesmente
demolidas, como a casa dos Farane e a dos Rabelo, seguiu-se em frente,
alcançando a Elvira Dórea,marcadamente residencial, sobretudo, dos “de posse”,
avançou-se até uma vasta área de poucas habitações, cujo prédio mais imponente,
não só pela sua construção, mas também por até então não possuir algum outro que
lhe ofuscasse o brilho, era o Alagoinhas Tênis Clube.
Ao ingressar na rua para onde se voltava a frente do Tênis, ao lado
esquerdo se eregia o que viria a ser o Estádio Municipal Antônio Carneiro. Mais
adiante, do mesmo lado, quase comprimido se encontrava o até então imponente
Ginásio de Alagoinhas, que doravante, ficara escondido pela impoonência do
prédio que si fizera erguer logo ao seu lado: o Centro Integrado Luís Navarro
de Brito, que ficou conhecido apenas pelo nome de “Estadual”.
Ali estava, diante de nós, aberto ao nosso ingresso, aquele complexo
escolar, que saíra da idéia de Anísio Teixeira, com grandes pavilhões de salas
de aula, amplas e arejadas, com áreas para instalação de oficinas,
laboratórios, bibliotecas, precisamente como ele imaginara, estavelecer um
espaço onde o aluno pudesse permanescer a maior parte do seu tempo de
aprendizagem.
Era um prédio novíssimo; com seus cheiros de tintas e madeiras ainda
frescas; e com suas portas de vidro na entrada dos pavilhões de aulas; com grandes
intervalos entre eles; era grande e promissor aquele centro integrado, mesmo que
à autura daquela visita, algumas áreas ainda estivessem em processo de
construção e/ou conclusão.
Ali estava o Estadual,diante do torpor que este escrevente
experimentava, visto ser estudante do minúsculo Brasilino Viegas, espaço que
ele tinha plenamente sob seus pés; agora estava ali, extasiado, diante de uma
imensidão que, para os seus nove anos completados, parecia-lhe inalcansável.
Ah, como queria estar adiantado na seriação, para poder ser matriculado, para
poder esquadrinhar todo aquele espaço de pavilhões de aulas e laboratórios;
para poder orgulhosamente dizer a todos que estudaria no estadual.
Tal desejo só veio a se consumar cinco anos depois, quando ali
entrou para cursar a quinta série do primeiro grau, em uma das salas do
pavilhão Luís viana, momento de alegria indescritível, aquele em que se
assentou pela primeira vez naquelas carteiras que, na quela noite, só se lhe
afigurara na imaginação.
O que foram fazer lá, não me ocorre precisar. Certo mesmo é que
aquela noite, talvez depois de um dia chuvoso, ficou na memória olfativa deste autor,
o cheiro da vegetação ainda abundante naquelas cercanias, os cheiros sentidos
dentro daquele prédio, talvez ainda com pouquíssimos alunos, os cheiros das
pessoas, bem como das casas por onde passou ou entrou, além dos cheiros
produzidos pelos poucos carros que já circulavam na cidade, brotam-lhe na
lembrança, como se tivessem sendo sentidos no preciso momento em que as
palavras se me escoam dos dedos.
sábado, 30 de julho de 2016
Republicando 9 - Histórias e memórias de uma imprensa viciada
Histórias e memórias de uma imprensa viciada – José Jorge
Andrade Damasceno
Publicado originalmente no Alagoinhas Hoje em 19 de maio de 2013
Sem eleições presidenciais desde aquela realizada em 1960,
que conduziu Jânio Quadros ao Palácio do Planalto, o Brasil se reencontra com
esta modalidade de escrutínio no ano de 1989, após os 21 anos de regime
civil-militar e pouco mais de um ano após a promulgação daquela que foi
decantada como sendo a “Constituição Cidadã”.
Marcada pela presença de nomes já consagrados na política
brasileira, como os de Ulysses Guimarães e Leonel Brizola, para citar apenas
dois, a primeira eleição presidencial após as grandes mobilizações sociais e
políticas do início da década de 80 do século XX, se apresenta, como tendo sido
aquela, na qual os meios de comunicação de massa, sobretudo a televisão,
tiveram efetiva participação, na construção de uma espécie de “vontade
popular”. Driblando as restrições legais relativas à exposição dos candidatos
e, aproveitando-se de sua quase absoluta penetração em todos os recantos do
País, mesmo os mais longínquos, a Rede Globo de Televisão, associada a outros
setores da imprensa -, jogou papel decisivo na pavimentação da estrada que
levou ao segundo turno, o candidato filiado ao inexpressivo PRN, Fernando
Collor de Melo, até então, um obscuro governador de Alagoas, embora de família
politicamente tradicional, cuja raiz remonta aos anos 30.
Seu contendor era o metalúrgico e ex-deputado Constituinte,
Luís Inácio Lula da Silva, cuja origem política é encontrada nas mobilizações
operárias, que tinham como berço o ABC Paulista, desencadeadas a partir do
final da década de setenta daquele mesmo século.
Aquele foi um pleito amplamente polarizado em torno de duas
propostas sócio-políticas bem delineadas. Por um lado, Fernando Collor de Mello,
representava a proposta de manutenção do status quo das “elites” políticas e
empresariais brasileiras que tinham como seu porta-voz principal o complexo
sistema de comunicação de massas, capitaneado pelas Organizações Globo. Por
outro lado, Lula da Silva representava o ideal de mudança social preconizada
pelo Partido dos Trabalhadores, agremiação nascida da confluência de diversos
movimentos sociais que encontravam lastro e ressonância em uma considerável
parcela do setor “progressista” da sociedade civil brasileira.
Longe de ser um elemento neutro na formação da opinião
pública, neste e em diversos outros episódios da história recente, a imprensa
brasileira em geral e a televisiva em particular, vê-se como instrumento de
persuasão e/ou convencimento, a partir do qual, se apresenta com a finalidade
de desempenhar papel relevante, que expressasse na prática a vontade de uma
massa formatada para responder positivamente aos anseios sócio-políticos de uma
facção dominante do setor comunicacional brasileiro e internacional.
Já em 1982, incomodado com a possibilidade de ver no comando
do estado fluminense um político que não fosse afinado com seus interesses
empresariais, para dizer o mínimo, o núcleo dirigente das Organizações Globo,
empreendeu esforços no sentido de evitar a eleição de Leonel Brizola para
governar o estado do Rio de Janeiro.
O rumoroso caso “Proconsult” deu uma dimensão daquilo que
seria a atuação dos meios de comunicação de massa, alguns anos mais tarde,
quando empreendeu um gigantesco esforço para evitar que vencesse as eleições
presidenciais de 1989, um segmento político partidário que representava perigo
à hegemonia comunicacional do império comandado por Roberto Marinho.
Um dos episódios mais obscuros daquela campanha eleitoral,
sem a menor sombra de dúvidas, foi o último debate entre os candidatos ao
segundo turno, Collor de Melo e Lula da Silva.
Cheio de lances espetacularizados, nos quais o candidato
apoiado abertamente pelas Organizações Globo apresentou fatos da vida pessoal/privada
do candidato Lula da Silva, amplamente explorados no momento de editar para a
última edição do principal jornal da rede de emissoras, colocando em grandes
dificuldades o candidato prejudicado, visto que não haveria mais tempo para
exigir direito de resposta e/ou de reparação, pois faltavam apenas algumas
horas para o processo eleitoral ter início.
As manipulações do último debate entre os postulantes ao
Planalto e as repercussões das “denúncias” trazidas a público pelo candidato
“global”, foram decisivas para a definição do pleito em seu favor, pois, embora
tendo cometido o mesmo erro de que acusara o candidato Lula da Silva, não houve
tempo nem competência da organização da campanha petista, para desmascarar a
hipocrisia sócio-religiosa, lançada pela campanha de Collor de Melo para
desmoralizar seu opositor.
Prevalecendo-se do falso moralismo coletivo de que se ufana
grande parte da sociedade brasileira, principalmente suas elites
culturais/religiosas, as Organizações Globo, os organizadores e condutores da
campanha de Collor de Melo, associados aos seus demais apoiadores na imprensa
nacional, viram exitosa sua trama maquiavélica contra o PT e seu candidato, no
sentido de vê-los derrotados nas urnas e fazer subir a rampa do Palácio do
Planalto o candidato que apoiavam aberta e despudoradamente.
Logo que assume a mais alta magistratura do País, o
ex-caçador de “marajás”, mostra toda sua empáfia e despreparo para o cargo que
ocupava, se apresentando mais como um “pop star”, do que propriamente como um
presidente da República, cônscio de seus deveres constitucionais. Desprezando
elementos-chave característicos de um chefe de Estado, despindo-se inúmeras
vezes da “liturgia do cargo”, colecionando fama midiática, mas também,
acumulando ódio de uma parcela daqueles mesmos que contribuíram com sua
eleição, por conta das medidas econômicas que adotara, a mais rumorosa e
polêmica delas, foi, sem dúvida o tal “confisco dos ativos financeiros”, o que
provocou entre outras coisas, uma onda de suicídios e desorganização de
diversos compromissos já previamente assumidos, por um número considerável de
pessoas físicas e, até mesmo, de pessoas jurídicas.
A partir dali, se faz sentir o início do declínio de seu
meteórico “boom” político/midiático, embora as Organizações Globo e seus outros
aliados, tenham envidado grandes esforços para não deixar transparecer o já
perceptível desgaste social, político e o mais grave deles, o institucional.
Começam a espocar os escândalos, os desvios de conduta e
recursos, as “carteiradas”, os jeitinhos, os deslumbramentos de ministros,
assessores diretos e indiretos, além de esbanjamentos de diversas ordens, a
despeito das restrições impostas pela equipe econômica, que só atingiam àqueles
“menos iguais” perante a lei e a sociedade.
Até que, menos de dois anos de seu mandato, explode a maior,
mais complexa e decisiva das crises políticas que aquele governo e, de resto,
todo o País tivera que enfrentar: o rumoroso caso PC Farias.
Enquanto as denúncias apareciam na “periferia” do jornalismo
dito “revanchista”, ganhava pouco a pouco outros setores da mídia, até que,
três reportagens publicadas pela revista ISTO É abalam de vez a pseudo solidez
do governo Collor e rompe o “cordão sanitário” no qual fora envolto. As
entrevistas de Pedro Collor, irmão do presidente; a entrevista de Egberto
Batista, motorista diretamente ligado à cúpula paralela do presidente, além da
entrevista/depoimento da secretária Sandra, foram os estopins que, uma vez
acesos, implodiram irremediavelmente o governo patrocinado pelas Organizações
Globo e virou o jogo em favor dos outros setores da mídia, contrários e
alijados do processo político, precisamente por ter um posicionamento diferente
daquele preconizado pela referida organização midiática.
Após consumada a votação no Congresso que permitiria a
abertura do processo de impeachment do presidente Collor, a imprensa
internacional, mais precisamente, a BBC de Londres afirmava em seu noticiário,
alguma coisa mais ou menos assim: que “a Globo ergueu e as outras emissoras
derrubaram o presidente brasileiro”.
Nos governos seguintes, Itamar Franco, Fernando Henrique
(dois mandatos), Lula da Silva (dois mandatos) e Dilma Rousseff (primeiro ano
de mandato), esta imprensa viciada em erguer e defenestrar, empenha-se em
derrubar ministros, assessores diretos; também se empenha em emplacar
auxiliares diretos para atuar junto aos mandatários republicanos. É um vício
que ela traveste de “vigilância” democrática, para passar ao público a idéia de
um quarto poder, capaz não só de fiscalizar, mas também de se impor enquanto
formadora de opinião e, sustentada por princípios e valores morais e éticos, a
partir dos quais pautam suas reportagens, denúncias, campanhas contra corrupção
e pelo zelo da coisa pública, segue impondo sua vontade e seus interesses,
sempre pintados como defesa dos interesses públicos.
Com este chavão tão agradável aos olhos dos leitores e
telespectadores e aos ouvidos dos que ainda apreciam o rádio, eles torcem e
distorcem a realidade, impondo a verdade que interessa ao órgão no qual esteja
prestando serviço. Mas se posiciona como formador de opinião pública e, ao
mesmo tempo, porta-voz desta mesma opinião, por ele engendrada pouco antes.
Até quando? Qual será o próximo alvo?
Ao juízo do autor destas linhas, neste momento em que elas
estão sendo escritas, a imprensa está enveredando por uma linha de conduta
arriscada. Ela está escorregando para uma partidarização perigosa! Dúvidas,
caro leitor? Dê-se ao trabalho de fazer uma incursão pelas publicações que
antecederam e precederam a eleição da presidente Dilma Rousseff; dê-se uma
rápida garimpada no noticiário entre sua posse e a sua histórica participação
na abertura da Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, em setembro,
na cidade de Nova York; verifique-se como se utilizou no período pré e
pós-eleitoral de 2012, o vastíssimo material impresso, televisivo e radiofônico
produzido durante o pretenso “mensalão”, tido como o processo mais bem
conduzido por uma corte superior. E, assim, tire suas próprias conclusões.
José Jorge Andrade Damasceno é Doutor em História social
pela Universidade Federal Fluminense e Mestre em História Social pela
Universidade Federal da Bahia; professor adjunto no Colegiado de História, do
Departamento de Educação, Campus II da UNEB, Alagoinhas, BA.
professordamasceno@gmail.com
@JorgeDamasceno1
Republicando 8 - Os cheiros da infância - Alagoinhas, 1965-1974.
Os cheiros da infância – Alagoinhas 1965-1974 – José Jorge
Andrade Damasceno
Originalmente publicado no jornal Alagoinhas Hoje em 12 de maio de 2013
Como grande parte das cidades de seu porte, Alagoinhas exala
cheiros que marcam a vida dos que aqui nasceram ou viveram desde a infância. O
período aqui especificado relaciona-se diretamente com os primeiros anos de
vida do autor destas linhas, mas pode muito bem relacionar-se com lembranças de
muitos dos que lerão os próximos parágrafos deste arrazoado.
De modo análogo ao tratamento que se tem dado às memórias de
diversas pessoas, das quais foram recolhidas impressões, que depois foram
transformadas em textos lidos neste espaço, recorrer-se-á à própria memória
para tentar descrever um pouco das lembranças olfativas que repousam no âmago
das reminiscências deste escrevente. Reitera-se, que, a despeito de algumas
destas lembranças serem individuais, não impede que outras pessoas as tenham,
se não na mesma dimensão ou no mesmo grau de intensidade, ao menos de modo a se
poder dizer tratar-se de uma memória olfativa comum a diversos indivíduos que
viveram à mesma época aqui evocada.
A região da cidade onde vive este autor, sempre foi um arrabalde
apartado do centro da cidade, umlogradouro quase rural forjado a partir de
loteamentos de fazendas desativadas. Ali predominava atividades de criação de
gado leiteiro, abate de animais de pequeno porte para abastecer a feira local,
até mais ou menos o período final de que se ocupará este texto.
Por conseguinte, o cheiro mais comum e mais marcante no
quotidiano dos moradores daquele local era o dos currais próximos, muitas
vezes, contíguos às residências dos pequenos criadores ali estabelecidos.
Área abundante em vegetação rasteira e, nos anos iniciais
aqui balizados, ainda nativa, dava às noites e amanheceres um toque todo
especial, com aromas deliciosamente indescritíveis, muitas vezes exalados não
se sabendo exatamente de onde. Eram as “quaranas”, cujas flores davam ao olfato
uma sensação muito agradável, envolvendo os apreciadores com um cheiro
levemente adocicado, indicando uma noite estrelada de céu limpo e pronto para o
alvorecer de uma nova manhã.
Já o luxuriante desfilar de árvores de grande porte, como as
jaqueiras, ingazeiras, mangueiras, jambeiros e cajueiros, abundantes em toda a
área que vai das margens da linha férrea até perder-se na imensidão da serra
alcançada apenas se atravessasse o rio Aramari, dava um toque especial ao
ambiente, sobretudo, quando em processo de floradas, indicando abundância
daqueles frutos que faziam a alegria dos paladares aguçados da garotada.
Pessoalmente, é possível evocar e trazer de volta aos
sentidos, aquele cheiro inconfundível de café, que enchia o as casas e se
espalhavam pelo ar, fosse ao raiar da manhã, ou no cair da noite.
E o que dizer daquele “cheiro” quase nauzeabundo de sebo
cozinhando em uma fábrica de sabão, que por muitos anos, marcou o fim da tarde
e o início da noite da rua 2 de Julho e suas cercanias?
E os cheiros de fritura de toicinho, de carne de sertão ou de
peixes secos e baratos, que eram a base alimentar de grande parte dos moradores
da área aqui evocada? Tais aromas enchiam os ares, sobretudo, ao cair da noite,
quando os frugais jantares eram preparados e servidos, após um dia de trabalho
para os adultos e de traquinagens para as crianças!
Não dá para esquecer o cheiro dos fogões de lenha, que logo
pela manhã eram acesos, a fim de que, depois de feito o café e cozido o cuzcuz
de fubá de milho, durante todo o resto do dia, se pudesse preparar a
alimentação da família, para atender as necessidades de cada membro, desde os
mais tenros bebês, aos mais idosos anciãos, cujo aroma se perdeu no tempo, na
medida em que foram substituídos pelos práticos e versáteis fogões a gás.
Aqueles, mesmo nas residências dos mais pobres, acabaram por se tornar inexoráveis,
visto que, a lenha que alimentava o velho, rústico e cada vez menos eficiente
fogão, em geral, artesanalmente construído de barros ou tijolos, já não mais se
podia encontrar com facilidade nas redondezas.
Já cercadas para formação de pastos ou reservas de outra
ordem, as áreas onde se obtinha a lenha que alimentava o voraz fogão, se faziam
cada vez mais escassas, como escasso se fazia o exalar do cheiro de sua
combustão.
Para falar de modo mais geral, como esquecer o cheiro do
“Café O Barão”, que marcou a memória olfativa daqueles que estudaram no
Brasilino Viegas, trabalharam no comércio ou venderam na “Feira do Pau”?
Era um cheiro luxuriante, convidativo a acercar-se do balcão
do local onde se torrava, moía aquele famoso café da cidade, para lá saborear o
cafezinho sempre quente que por muitos anos foi prodigamente distribuído aos
freqüentadores daquele estabelecimento. Era uma marca indelével de Alagoinhas,
o cheiro do “Café O Barão”, sendo torrado. O centro de Alagoinhas, que já não
tem mais esta marca, se caracterizava pelo cheiro do café, pelo movimento de
manobra dos trens e pela feira que ocupava toda a área que vai desde os muros
do prédio da escola Brasilino Viegas até as imediações do prédio da Prefeitura,
quando nas sextas e nos sábados, todo aquele espaço estava tomado por grande
variedade de mercadorias e de mercadores, além de imiscuírem-se todos os tipos
de aromas, para alegria dos olfatos mais apurados ou repugnâncias dos
organismos mais frágeis.
Outros cheiros poderiam ser aqui evocados, como o de “Seu
“Joãozinho da Injeção”, ou o das bananas
cozidas” quando das febres; ou os oriundos dos banhos com sabonetes Phebo,
produto raro, que só aparecia em ocasiões especiais; produtos Gessy; cheiros de
roupas lavadas, tão comum no dia a dia deste autor; ou mesmo os cheiros de
quintais. Mas é já hora de terminar, deixando aberto o espaço para o leitor
fazer suas próprias evocações daqueles cheiros que lhes possam remeter aos idos
de sua infância e/ou juventude, talvez já distantes como a do escrevente;
talvez ainda menos longínqua, quem sabe!
Jose Jorge Andrade Damasceno é doutor em História Social e
professor da UNEB, Campus II, Alagoinhas.
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