domingo, 25 de outubro de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – XV.

 

O Jornalista Bill Godkin: A História Imediata da República do Sacramento – Parte V.

 

De volta a este espaço para mais algumas digressões deste garatujador que, ainda alicerçadas em “O Senhor Embaixador”, publicada em 1965, conforme já se salientou, continua a tratar de uma das obras menos conhecidas ou comentadas do escritor gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975) mas que, segundo entende quem escreve estas linhas, poderia muito bem ser arrolada entre as obras publicadas no mesmo período por García Márquez (1927-1914), Vargas Llosa (1936-2025), para citar apenas estes, que, conforme se pôde ler por ocasião da concessão do prêmio Nobel de Literatura a García Márquez, teria sido acertado em uma troca de cartas entre alguns literatos Latino-Americanos, que cada um deles escreveria uma obra que retratasse o “ditador” de plantão no seu País, dando a ele uma caracterização que ensejasse ser entendida pelos que viessem a tomar contato com aquele coquetel de obras, como sendo alguém descolado no tempo e no espaço, o que permitiria associar à figura de  quaisquer um dos ditadores, bem como à quaisquer ditaduras das muitas que marcaram a História da América Latina, além de ser uma maneira de driblar as censuras impostas pelos títeres de plantão em todo o continente, que, aliás, saliente-se, costumavam ser implacáveis.

Portanto, é no bojo desta produção literária que se pode encontrar obras como “O Outono do Patriarca” e “Cem anos de solidão” de García Márquez; “A Cidade e os Cachorros” e “A Festa do Bode” de Vargas Llosa; “Eu, O Supremo” de Augusto Roa Bastos (1917-2005), ”O Senhor Presidente”, de Miguel Ángel Asturias (1899-1974), entre outros, a este corolário de grande valor literário, conforme se vem defendendo aqui, poderia perfeitamente acrescentar “O Senhor Embaixador”, obra que vem dando material para a construção dos arrazoados que se vem trazendo ao arguto leitor que frequenta este espaço.

É assim que, por meio destas e de outras produções literárias que visam trazer à lume algumas representações da sociedade humana e, que apresentam ao leitor um cotidiano vivencial no qual o próprio leitor está inserido, embora conduzidas de modo ficcional,  e que, em grande medida, indica o viver de grupos sociais e em circunstâncias em que a sobrevivência é a pedra de toque de grande parte dos personagens envolvidos nas tramas magistralmente tecidas pelos seus autores, igualmente, elas podem servir ao pesquisador social em geral e ao Historiador em particular, como objetos para uma melhor compreensão do vivido e/ou como fontes a partir das quais possam ser postas e analisadas questões e produzidas hipóteses produzidas para um estudo dado.

Desta forma, a obra ora em análise, pelo seu estilo e considerando as características mais relevantes de alguns dos personagens que a compõem, permite ao examinador atento da trama desenvolvida por Veríssimo, perceber as diversas histórias que perpassam o continente, mormente, no período de tempo que vai do ano de 1947 – quando emerge o anticomunismo que até ali se mantinha latente entre os norte-americanos, sobretudo, entre os seus militares, diplomatas, administradores e financistas – e 1976, quando eclode na Argentina uma ditadura que viria a se somar à brasileira de 1964 e  à chilena de 1973, cujo fio condutor em comum era precisamente o “anticomunismo” norte-americano, largamente difundido por todo o continente, através dos meios de comunicação e de entretenimento, grandemente alargados em sua difusão, mormente por meio do cinema e da televisão.

Mas, volte-se ao diálogo entre Bill Godkin e Orlando Gonzaga, que já se aproximava do seu termo, quando o último passa a se referir àquele que talvez fosse de fato o motivo de terem os dois amigos se encontrado naquele espaço para beber e conversar. Depois de perguntar ao amigo se quereria beber mais um “Campari” ou mesmo uma “Cicuta” e Godkin recusar ambas, e este último confessar ao brasileiro que estaria até se sentindo bem, ao poder recordar todas aquelas facetas da sua caminhada de periodista, Orlando Gonzaga, como uma forma de levar a conversa ao seu ápice, considera que, dado ao prestígio de Godkin junto à empresa em que era repórter, voltara a estar com o ditador sacramentenho outras vezes, ao que o jornalista responde positivamente, afirmando que “Muitas. Sempre que havia algum barulho no Sacramento, a Amalpress me despachava para Cerro Hermoso. [...]”. Ao que o brasileiro apresenta como uma assertiva interrogativa: “Você deve então conhecer pessoalmente esse embaixador que o Generalíssimo mandou agora para cá, não? [...]”. Ao que Godkin responde sem titubeio: “Don Gabriel Heliodoro Alvarado? Claro que conheço. A primeira vez que o vi, ele estava ao lado de Juventino Carrera, na Sierra de la Calavera. Era um de seus mais jovens e valorosos companheiros. Teria no máximo vinte e um anos... [...]”. E, atendendo à curiosidade do seu interlocutor, que queria saber que “tipo de homem” seria o Embaixador da República do Sacramento que, dali há algumas horas daquele abril de 1959, entregaria as suas credenciais ao presidente Eisenhower, Godkin assim o descreve:

“Fisicamente? Um metro e noventa de altura, mais ou menos... Uma face acobreada cujos traços lembram um pouco certas esculturas maias. Olhos vivos, escuros, dotados duma perigosa força hipnótica. De todos os homens que conheci na cordilheira ao lado de Carrera, a fisionomia que mais fundo me ficou gravada na memória foi a desse Gabriel Heliodoro. O sobrenome que usa é adotado, mas assenta-lhe bem... [...]”.

 

O diplomata brasileiro, depois de abrir sobre a mesa o jornal que tinha ao lado, comenta que:

 

“[...]. O News traz hoje uma notícia com retrato sobre a sua ”escultura maia”. Veja este clichê... O salafrário tem mesmo uma cara atraente. A nota biográfica diz que ele nasceu em 1903... de sorte que deve ter hoje cinquenta e seis anos. Este retrato deve ser antigo, pois representa um homem de quarenta e cinco ou quarenta e oito anos, no máximo. [...]”.

 

Depois de examinar o jornal que o amigo apresentara e, atento à observação que o seu interlocutor fizera a respeito de uma possível manipulação da imagem ali impressa – observe-se que se trata de um jornal publicado ainda nos anos 50; observe-se também que o diplomata brasileiro indica uma nota de desconfiança que apontaria uma discrepância entre a idade que lhe foi apresentada na “nota biográfica” e a fotografia estampada no periódico em exame; o pesquisador da História que tem o jornal como uma de suas fontes, deveria ter a sua atenção e foco em questões como a que fora colocada por Orlando Gonzaga. Por sua vez, Godkin examina a imagem em questão e sentencia convicto: “[...]. Não. A fotografia é recente. Esses índios não mostram a idade na cara. [...]”.

E a conversa entre os dois amigos é concluída com algumas observações que fazem um para o outro e, uma dentre elas, dizia respeito à tarefa primeva do novo Embaixador da República do Sacramento, que era a de “[...], preparar o  espírito de Tio Sam para lhe arrancar mais um empréstimo substancial...”, para com ele realizar obras com as quais “El Libertador” pretendia não só se fazer grande junto ao seu povo, bem como, se não deixar esquecer pela posteridade, uma vez que, além de demonstrar o seu apego ao poder, procuraria, por outro lado, fazer crer que a sua maior preocupação seria o “desenvolvimento” do País, como aliás, proclamavam todos os ditadores e/ou os regimes ditatoriais que grassavam na América Latina, sob o argumento tão frágil quanto falacioso, de defender o continente em geral e o seu País em particular, do “terrível” regime comunista, que, uma vez implantado, solaparia a “democracia liberal que tanto os favorecia”, lhes devoraria as propriedades, as mulheres, as crianças, as crenças, os valores e tradições “seculares” mas, principalmente, lhes tiraria o direito à livre exploração da força de  trabalho que tanto lhes avultava os haveres. Era com este medo propagandeado em todo o continente e por todos os meios ao seu alcance, que as ditaduras eram implantadas e os seus líderes operacionalizavam a sua manutenção, tanto entre os seus próprios povos, quanto à comunidade internacional – aliás, era neste sentido que se fundamentava a carta de Juventino Carrera, endereçada ao seu embaixador em Washington, conforme se comentou há algumas postagens. Aquele imaginado e imaginário medo de uma pretensa “sovietização” do continente, era espalhado Como um rastilho de pólvora, através do qual, os norte-americanos em conluio com os seus aliados em toda a América Latina, exploravam em favor das suas elites e daqueles que os cercavam e acompanhavam em seus intentos e delírios. 

 

Alagoinhas – 25 de outubro de 2026 – primavera brasileira.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

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