O Jornalista Bill Godkin: A História Imediata da República
do Sacramento – Parte IV.
Este escrevedor está uma vez mais neste espaço virtual, para
trazer à consideração de seletos leitores que visitam estes garatujares
semanais, algumas observações desenvolvidas a partir de passagens extraídas de “O Senhor Embaixador”,
de autoria de Érico Veríssimo (1905-1975), com o intuito de continuar discorrendo
sobre a farta contribuição que a literatura traz para quem estuda a sociedade
humana no tempo, na medida em que, tanto a pode utilizar como fonte para a pesquisa,
quanto à pode tomar como seu objeto de preocupações, com vistas a compreender a
história e o seu cotidiano. Igualmente, ao considerar o percurso histórico e a
possibilidade de o inquiridor encontrar na produção literária que tenha diante
de si, os traços a partir dos quais ele venha a desenvolver um estudo
estruturado sobre indícios que o tratado literário possa apontar para àquele
que o queira tomar como uma de suas ferramentas por meio das quais, venha não
só a apreender, bem como a compreender um elemento histórico em um tempo e em
um espaço dado. É verdade que esta não é uma obra das mais conhecidas do
literato gaúcho; talvez, uma das menos comentadas, tendo em vista o farto
material por ele produzido. Mas, ela até mesmo poderia ter sido inserida entre
aquelas que foram classificadas como “realismo mágico”, visto que, embora o
autor a tenha ambientado em uma República situada em algum ponto do Caribe, o desenvolvimento
de sua trama, bem poderia ser compreendido como tendo sido em qualquer dos
Estados Latino-Americanos, aqui, ali ou alhures.
Conforme se leu no arrazoado anterior, Bill Godkin dá os
seus primeiros passos como repórter em uma empresa jornalística que possuía
algum prestígio junto ao corpo diplomático da República do Sacramento, por meio
do qual obteve autorização para realizar a sua primeira entrevista, a partir da
qual viria a escrever alguns artigos que acabariam por circular na imprensa
norte-americana e, o consagraria como correspondente internacional da agência
de notícias onde era lotado. Aos pouco mais de 24 anos, aquele jornalista principiante se aventura em um
país latino-americano conflagrado e em risco de um levante militar que
pretendia encerrar uma “ditadura” que, embora bem relacionada com as principais
multinacionais de banana e açúcar, fendera o país em pelo menos duas facções,
uma das quais interessara ao jornalista se avistar com o seu principal
articulador. Continuando a sua conversa com o diplomata brasileiro Orlando
Gonzaga, aquele jornalista ainda acrescenta algumas facetas da sua busca de
repórter, no sentido de alcançar o objetivo que o levara ao palco dos
acontecimentos que se dariam dali há alguns dias após o seu retorno a
Washington. Diz ele ao seu interlocutor, depois de alguns goles e baforadas no
seu “inseparável cachimbo”:
“[...]. Você não pode calcular o
trabalho que tive para encontrar um nativo que me servisse de guia até o
esconderijo de Carrera... [...]. As autoridades temiam que eu fosse levar
alguma mensagem aos rebeldes. Os camponeses suspeitavam que eu era um agente
secreto da ditadura encarregado de assassinar Carrera. Finalmente veio em meu
socorro o Padre Catalino, o jovem pároco de Soledad del Mar, flor da raça
humana. [...]. o padre me arranjou secretamente um vaqueano de sua confiança
que me prometeu levar até à primeira sentinela de Carrera. [...].”.
Ao que parece, considerando-se os meios
disponíveis ao crepuscular o primeiro quartel do século XX, Godkin precisara de
alguém que o fizesse chegar em segurança ao local onde Carrera se encontrava
acantonado com os seus companheiros de guerrilha e, conforme observou Gonzaga,
com o risco de levar bala de ambos os lados em confronto, tendo uma câmera
fotográfica como único equipamento capaz de realizar algum registro artificial de
sua perigosa jornada. Em resposta à observação feita pelo seu amigo diplomata,
Veríssimo coloca nos lábios do jornalista, quando contrapõe o que aquele
dissera sobre o perigo que correra, com uma pergunta, acompanhada de sua
imediata resposta, talvez, aquilo que fosse o seu modo de ler o mundo, ao se dispor em chamar a
atenção do seu leitor, para aquilo que se passava não só naquela América que
ele retratava, mas, principalmente, para aquilo que estava se passando naquele
Brasil que se debatia entre o apoiar a ditadura que se instalara há pouco mais
de um ano e, aqueles que começavam a perceber o perigo que os aguardava e,
sobretudo, para os primeiros efeitos do endurecimento do “regime”, por meio dos
Atos Institucionais: “[...]. Não será essa a eterna posição do liberal? Um
homem entre dois fogos... [...]”.
Como resposta à indagação do seu interlocutor
sobre a sua volta da “montanha”, em relação às autoridades do governo então sob
a pressão dos rebeldes, o repórter dissera que não só fora “interrogado”, como “cheirado,
apalpado” e, que preparara uma reportagem que sabia agradaria às autoridades informando
serem “[...] os revolucionários como um bando de aventureiros indisciplinados,
mal armados e municiados, com o moral baixíssimo e em vésperas dum colapso
total [...].”.
No entanto, Godkin faz saber ao seu
interlocutor, que não seria aquela a reportagem que faria circular nos jornais,
logo que voltasse à capital norte-americana, levando consigo intacto, o rolo de
filmes com as fotografias que obtivera, com as quais ilustraria o material que
de fato faria publicar, cuja base estaria guardada em sua memória, fartamente
alimentada pelos diálogos que tivera com o chefe dos revoltosos – saliente-se
que, naquele primeiro quarto de Século, o gravador de voz, ainda nem era
cogitado.
E, prosseguindo em sua narrativa que
empreendera no intuito de responder ao diplomata brasileiro como fora parar na
Amalgamapred Press, Godkin assegura que:
De volta a Washington escrevi uma série de
artigos ilustrados favoráveis aos revolucionários e contrários à ditadura de
Chamorro. — E esses artigos, divulgados pelo mundo, naturalmente ajudaram a
causa dos rebeldes. [...]. Em 1926, Juventino Carrera derrubou o ditador e foi
eleito Presidente da República. Convidou-me oficialmente para a cerimônia de
sua posse e me concedeu uma entrevista exclusiva, como me havia prometido ”lá
em cima” ... [...].”.
Mas, Gonzaga, provavelmente já satisfeito com
a resposta à pergunta feita ao amigo, reconduz o diálogo para o tempo presente,
visto que, antes do recuo há cerca de vinte e quatro anos, eles tratavam do
futuro credenciamento do novo Embaixador sacramentenho, a propósito da observação feita por Godkin, com
relação a falta de Pablo Ortega, que lhes faria companhia àquela mesa e,
lamentara a sorte do amigo secretário da embaixada daquele país centro
americano, que teria de lidar com um diplomata que não era afeito ao ofício, o
que daria muito trabalho àqueles que o eram de carreira – o que aliás,
igualmente, não era o caso de Pablo Ortega. É então que o diplomata brasileiro
traz à consideração do seu interlocutor, aquilo que pensava sobre o sujeito que
há mais de duas décadas se encontrava à frente da República do Sacramento,
dizendo “[...]. Mas... voltando a Juventino Carrera, que peste nos saiu esse
herói da Sierra de la Calavera! [...]”. E o jornalista retrucou com uma
sentença um tanto cética, afirmando que ele “[...]. Seguiu a regra geral
latino-americana. Derrubou o tirano e acabou tornando-se também um tirano.
[...]”. E prossegue o jornalista, munido das informações que o seu interlocutor
não possuía, malgrado pertencer ao corpo diplomático de carreira:
“[...]. Sabe qual foi a primeira coisa que fez
depois que se aboletou no Palácio do Governo? Assinou um decreto, promovendo-se
a si mesmo a generalíssimo, à feição de Trujillo, de quem se tornou mais tarde
amigo, compadre e aliado. E como desejasse também um título, como o do
ditador dominicano, não faltou um escriba que propusesse ao povo o de El
Libertador, que pegou logo. [...]”.
A propósito de Leonidas Trujillo, mencionado
pelo jornalista ao responder à provocação do seu interlocutor, no momento em
que dizia aquelas palavras, “El chivo” dominicano já estava “aboletado” no
governo de seu País, há quase trinta anos e, prestes a ser assassinado, o que
se daria dali há um ano e meio, aproximadamente, cuja trama foi magistralmente
desenvolvida por Mário Vargas Llosa, em sua novela “La Fiesta del Chivo”, que
saiu no Brasil no início dos anos 2000, sob o pouco compreensível título de “A
Festa do Bode” – uma tradução literal do original em espanhol, que talvez não
expresse bem o seu espírito –, obra que, aliás, em breve se pretende discorrer
por aqui.
Alagoinhas – 18 de outubro de 2026 – primavera
brasileira.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – visite: www.historias-e-memorias.blogspot.com
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