domingo, 4 de outubro de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – XII.

 

 

O Jornalista Bill Godkin: A História Imediata da República do Sacramento – Parte II.

 

Antes de prosseguir com a “História Imediata” construída a partir das observações do jornalista que Veríssimo evoca para o ajudar a desenrolar a trama urdida em O Senhor Embaixador, quiçá, procurando denunciar ao mundo não só as ditaduras que pululavam por toda a América Latina no período de sua publicação, bem como o papel desempenhado pelos Estados Unidos da América, não apenas na consecução delas, mas, sobretudo, na sustentação daqueles regimes “de exceção”, ainda que tais regimes prevalecessem ao custo de vidas humanas, ou da sangria dos cofres públicos, em geral, já combalidos pela rapina perpetrada pelos líderes de tais regimes, bem como, da gente que gravitava em seu entorno, volte-se ainda um pouco ao discurso proferido por Bill Godkin, por ocasião do almoço que lhe fora oferecido pelos colegas de redação. Ao falar sobre a profissão que já desempenhava há um bom número de anos, ele acabou por fazer um balanço a um só tempo retrospectivo daquilo que entendia ser um jornalista, bem como, ousara desenvolver uma espécie de análise de conjuntura, que lhe permitiu fazer alguma projeção de futuro – que no tempo em que se garatuja estes palavrares se apresenta com toda a crueza e rudeza -, apontando para um jornalismo menos comprometido com a “verdade dos fatos” – conforme as suas próprias palavras –, bem como, para o surgimento de jornalistas dispostos a trabalhar com o objetivo de ver triunfar um jornalismo marcado pelo abuso de práticas interessadas muito mais em prevalecer o que pensava o jornal a respeito de um evento dado, em detrimento de o noticiar, deixando ao leitor a tarefa de elaborar o seu próprio juízo sobre aquilo que viesse a ler.

 É assim que, ao iniciar o discurso de agradecimento aos colegas que ora lhe prestavam uma homenagem por conta de sua aposentadoria já estar quase às portas, Godkin diz se orgulhar de possuir no início da carreira, a qualidade inerente ao “ser repórter”, ou seja, a de somente “noticiar os fatos”, ele acabara por desenvolver uma pequena e, ao mesmo tempo, uma profunda digressão acerca do que viria a ser “o fato”. Diz ele:

“[...]: isso a que chamamos fato não será uma espécie de iceberg, quero dizer, uma coisa cuja parte visível corresponde apenas a um décimo de seu todo? Porque a parte invisível do fato está submersa nas águas dum torvo oceano de interesses políticos e econômicos, egoísmos e apetites nacionais e individuais, isso para não falar nos outros motivos e mistérios da natureza humana, mais profundos que os do mar”. [...].”.

 

A pena de Veríssimo não deixa escapar nenhum detalhe que julgara importante na construção discursiva do jornalista que criara e apresentara ao seu leitor, já contando trinta e cinco anos de carreira e, deu-lhe uma penca de elementos para com eles, caracterizar o que viria a tentar definir o que viria a ser “um fato”. E, talvez, ele não dispusesse de uma figura mais eloquente para tal, que não a ilustração dos icebergs, notadamente, o que lhe é mais conhecido, que é a existência de um imenso bloco de gelo imerso em profundidade marítima de difícil cálculo imediato, resultando, por isto mesmo, em um perigo para o navegante que só o pode divisar, naquilo que se lhe aparece pouco acima da lâmina d’água. Trazer esta figura para a ideia de “fato” a ser noticiado é, por si só, uma jogada de mestre feita pelo literato, que acaba por apontar a existência de uma gama de possibilidades que o jornalista dispõe para tratar “o fato”, quase sempre, optando por desenvolver o seu juízo de valor, a partir daquela parte que lhe é dado ver, isto é, aquilo que jaz na superfície do profundo oceano, já explicado pelo jornalista homenageado.

Assim sendo, caso um historiador venha a ter como fonte para a sua pesquisa e, passar a examinar “o fato” trazido ao exame de um leitor de um periódico que costuma ter nas mãos e, a partir dele tomar decisões e/ou formar opinião sobre o que leu, aquele pesquisador vai precisar tentar identificar, para não vir a incorrer em erro de compreensão, o que não está dito – por omissão e/ou por desconhecimento e ainda, por deliberação superior – naquilo que foi noticiado pelo periódico em questão. Quando, ainda em seu discurso, Godkin questiona sobre a “verdade... que bicho é esse”, ele estaria considerando como tal, a existência de várias “verdades”, para as quais o leitor comum sequer teria atentado. “[...]. Quantas verdades existem no mundo de nossos dias? [...]”. Assim, o orador lista algumas delas: “[...]. A da Casa Branca. A do Kremlin. A do Vaticano. A da Wall Street. A da  Broadway. A da United States Steel Corporation. A da AFL. Sim, e convém não esquecer a da Madison Avenue, talvez a mais fantástica de todas.” [...].”. O orador prossegue em sua crítica ao que chamava “[... [tantas verdades nos nossos dias”, afirmando que “[...]. Pertenço a uma era em que os correspondentes escreviam sobre os acontecimentos. Vocês os modernos querem competir com Deus Nosso Senhor. Não só procuram dar hoje as notícias de amanhã como também se avocam o direito de, na falta de notícias criarem acontecimentos para depois escreverem sobre eles!”  [...]”.

Cabe salientar de passagem que, ao que parece, não seria nenhum exagero, trazer para pouco mais de sessenta anos depois da publicação daquele discurso, os arrazoares nele encontrados e aqui, rapidamente considerados. Neste sentido e, para reforçar o que se vem postulando neste escrevinhar, se poderia trazer de volta um elemento inserido em páginas anteriores, quando se evocou um trecho de uma música interpretada por Raul  Seixas (1946-1987), na qual ele afirma que “[...] eu não preciso ler jornais [...], indicando a previsibilidade deles e, reforçando algumas das características que Godkin apontara como uma tendência já nos seus dias, Seixas arremata com uma frase lapidar, demonstrando aquela sua irreverência peculiar, ao dizer que “[...], mentir sozinho eu sou capaz, [...]”. Érico Veríssimo (1905-1975) já apontava para esta possibilidade, quando coloca na fala do próprio Godkin em conversa com a sua secretária, quando expõe uma dúvida que nem de longe passaria pelos poucos cogitares de José Mário, caso tivesse tido acesso a jornais, coisa que tanto desejara. Depois de ter saído do local onde lhe fora oferecido o já aludido almoço, em consonância com tudo que já houvera dito há menos de uma hora àqueles seus colegas que o homenageara, o jornalista comenta acerca da primavera na capital estadunidense, dizendo que “[...] — São as cerejeiras do Potomac na primeira semana de abril! Se os jornais não mentem, elas devem estar hoje completamente cobertas de flores. [...].”.

Mas, perguntaria o arguto leitor, não estaria aí uma contradição entre o que até agora fora arrazoado e a possibilidade do pesquisador em História tomar o jornal como fonte para as suas investigações? Crê-se que não, uma vez que o historiador que busca desenvolver pesquisas tendo o jornal como seu escopo documental, a partir do qual elaborará a sua compreensão de um fato ou de um tempo histórico dados, precisará fazer perguntas ás suas fontes, evitando a armadilha de acreditar que elas falariam por si; que elas não estariam sujeitas a falseamentos, entendendo que tal ou qual fato ali noticiado, está cercado de subjetividades e de interesses os mais diversos, o que obrigará a emergir um pouco mais naquele oceano apontado por Godkin, tentando buscar aquilo que por ventura esteja afastado de uma apreensão superficial que esteja oculta à percepção do que estaria escamoteado, sendo necessário atentar para os vestígios podem levar a desarticular uma rede de mentiras e, na melhor das hipóteses, um conjunto de invenções publicadas para desviar o leitor daquilo que de fato deveria importar.

 

Alagoinhas – 04 de outubro de 2026 – primavera brasileira.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – visite o blog: www.historias-e-memorias.blogspot.com 

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