O Jornalista Bill Godkin: A História Imediata da República
do Sacramento – Parte II.
Antes de prosseguir com a “História Imediata” construída a
partir das observações do jornalista que Veríssimo evoca para o ajudar a
desenrolar a trama urdida em O Senhor Embaixador, quiçá, procurando denunciar
ao mundo não só as ditaduras que pululavam por toda a América Latina no período
de sua publicação, bem como o papel desempenhado pelos Estados Unidos da América,
não apenas na consecução delas, mas, sobretudo, na sustentação daqueles regimes
“de exceção”, ainda que tais regimes prevalecessem ao custo de vidas humanas, ou
da sangria dos cofres públicos, em geral, já combalidos pela rapina perpetrada
pelos líderes de tais regimes, bem como, da gente que gravitava em seu entorno,
volte-se ainda um pouco ao discurso proferido por Bill Godkin, por ocasião do almoço
que lhe fora oferecido pelos colegas de redação. Ao falar sobre a profissão que
já desempenhava há um bom número de anos, ele acabou por fazer um balanço a um
só tempo retrospectivo daquilo que entendia ser um jornalista, bem como, ousara
desenvolver uma espécie de análise de conjuntura, que lhe permitiu fazer alguma
projeção de futuro – que no tempo em que se garatuja estes palavrares se
apresenta com toda a crueza e rudeza -, apontando para um jornalismo menos
comprometido com a “verdade dos fatos” – conforme as suas próprias palavras –,
bem como, para o surgimento de jornalistas dispostos a trabalhar com o objetivo
de ver triunfar um jornalismo marcado pelo abuso de práticas interessadas muito
mais em prevalecer o que pensava o jornal a respeito de um evento dado, em
detrimento de o noticiar, deixando ao leitor a tarefa de elaborar o seu próprio
juízo sobre aquilo que viesse a ler.
É assim que, ao iniciar
o discurso de agradecimento aos colegas que ora lhe prestavam uma homenagem por
conta de sua aposentadoria já estar quase às portas, Godkin diz se orgulhar de
possuir no início da carreira, a qualidade inerente ao “ser repórter”, ou seja,
a de somente “noticiar os fatos”, ele acabara por desenvolver uma pequena e, ao
mesmo tempo, uma profunda digressão acerca do que viria a ser “o fato”. Diz
ele:
“[...]: isso a que chamamos fato não
será uma espécie de iceberg, quero dizer, uma coisa cuja parte visível
corresponde apenas a um décimo de seu todo? Porque a parte invisível do fato
está submersa nas águas dum torvo oceano de interesses políticos e
econômicos, egoísmos e apetites nacionais e individuais, isso para não falar
nos outros motivos e mistérios da natureza humana, mais profundos que os do
mar”. [...].”.
A pena de Veríssimo não deixa escapar nenhum detalhe que
julgara importante na construção discursiva do jornalista que criara e
apresentara ao seu leitor, já contando trinta e cinco anos de carreira e,
deu-lhe uma penca de elementos para com eles, caracterizar o que viria a tentar
definir o que viria a ser “um fato”. E, talvez, ele não dispusesse de uma
figura mais eloquente para tal, que não a ilustração dos icebergs, notadamente,
o que lhe é mais conhecido, que é a existência de um imenso bloco de gelo
imerso em profundidade marítima de difícil cálculo imediato, resultando, por
isto mesmo, em um perigo para o navegante que só o pode divisar, naquilo que se
lhe aparece pouco acima da lâmina d’água. Trazer esta figura para a ideia de “fato”
a ser noticiado é, por si só, uma jogada de mestre feita pelo literato, que acaba
por apontar a existência de uma gama de possibilidades que o jornalista dispõe
para tratar “o fato”, quase sempre, optando por desenvolver o seu juízo de
valor, a partir daquela parte que lhe é dado ver, isto é, aquilo que jaz na
superfície do profundo oceano, já explicado pelo jornalista homenageado.
Assim sendo, caso um historiador venha a ter como fonte para
a sua pesquisa e, passar a examinar “o fato” trazido ao exame de um leitor de
um periódico que costuma ter nas mãos e, a partir dele tomar decisões e/ou
formar opinião sobre o que leu, aquele pesquisador vai precisar tentar
identificar, para não vir a incorrer em erro de compreensão, o que não está
dito – por omissão e/ou por desconhecimento e ainda, por deliberação superior –
naquilo que foi noticiado pelo periódico em questão. Quando, ainda em seu discurso,
Godkin questiona sobre a “verdade... que bicho é esse”, ele estaria considerando como tal, a
existência de várias “verdades”, para as quais o leitor comum sequer teria
atentado. “[...]. Quantas verdades existem no mundo de nossos dias? [...]”. Assim,
o orador lista algumas delas: “[...]. A da Casa Branca. A do Kremlin. A do
Vaticano. A da Wall Street. A da
Broadway. A da United States Steel Corporation. A da AFL. Sim, e convém
não esquecer a da Madison Avenue, talvez a mais fantástica de todas.” [...].”. O
orador prossegue em sua crítica ao que chamava “[... [tantas verdades nos
nossos dias”, afirmando que “[...]. Pertenço a uma era em que os
correspondentes escreviam sobre os acontecimentos. Vocês os modernos querem
competir com Deus Nosso Senhor. Não só procuram dar hoje as notícias de amanhã
como também se avocam o direito de, na falta de notícias criarem acontecimentos
para depois escreverem sobre eles!” [...]”.
Cabe salientar de passagem que, ao que parece,
não seria nenhum exagero, trazer para pouco mais de sessenta anos depois da
publicação daquele discurso, os arrazoares nele encontrados e aqui, rapidamente
considerados. Neste sentido e, para reforçar o que se vem postulando neste
escrevinhar, se poderia trazer de volta um elemento inserido em páginas anteriores,
quando se evocou um trecho de uma música interpretada por Raul Seixas (1946-1987), na qual ele afirma que “[...]
eu não preciso ler jornais [...], indicando a previsibilidade deles e,
reforçando algumas das características que Godkin apontara como uma tendência
já nos seus dias, Seixas arremata com uma frase lapidar, demonstrando aquela
sua irreverência peculiar, ao dizer que “[...], mentir sozinho eu sou capaz,
[...]”. Érico Veríssimo (1905-1975) já apontava para esta possibilidade, quando
coloca na fala do próprio Godkin em conversa com a sua secretária, quando expõe
uma dúvida que nem de longe passaria pelos poucos cogitares de José Mário, caso
tivesse tido acesso a jornais, coisa que tanto desejara. Depois de ter saído do
local onde lhe fora oferecido o já aludido almoço, em consonância com tudo que
já houvera dito há menos de uma hora àqueles seus colegas que o homenageara, o jornalista
comenta acerca da primavera na capital estadunidense, dizendo que “[...] — São
as cerejeiras do Potomac na primeira semana de abril! Se os jornais não mentem,
elas devem estar hoje completamente cobertas de flores. [...].”.
Mas, perguntaria o arguto leitor, não estaria
aí uma contradição entre o que até agora fora arrazoado e a possibilidade do
pesquisador em História tomar o jornal como fonte para as suas investigações?
Crê-se que não, uma vez que o historiador que busca desenvolver pesquisas tendo
o jornal como seu escopo documental, a partir do qual elaborará a sua
compreensão de um fato ou de um tempo histórico dados, precisará fazer
perguntas ás suas fontes, evitando a armadilha de acreditar que elas falariam
por si; que elas não estariam sujeitas a falseamentos, entendendo que tal ou
qual fato ali noticiado, está cercado de subjetividades e de interesses os mais
diversos, o que obrigará a emergir um pouco mais naquele oceano apontado por
Godkin, tentando buscar aquilo que por ventura esteja afastado de uma apreensão
superficial que esteja oculta à percepção do que estaria escamoteado, sendo
necessário atentar para os vestígios podem levar a desarticular uma rede de
mentiras e, na melhor das hipóteses, um conjunto de invenções publicadas para
desviar o leitor daquilo que de fato deveria importar.
Alagoinhas – 04 de outubro de 2026 – primavera
brasileira.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – visite o blog: www.historias-e-memorias.blogspot.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Comente; quero saber o que você pensa!