domingo, 27 de setembro de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – XI.

 

O Jornalista Bill Godkin: A História Imediata da República do Sacramento – Parte I.

 

Tendo já sido publicado em dez outras ocasiões algumas reflexões que apontam para construção de um processo de apreensão do fazer histórico latino americano, este escrevedor volta a submeter alguns arrazoares à consideração dos argutos visitantes deste espaço virtual de leituras, ainda uma vez mais, procurando lhes chamar a atenção para um postulado que se vem defendendo desde o início desta série, que é a possibilidade de se perceber, apreender e compreender o desenvolvimento da história da sociedade, tomando como referência a produção literária como fonte para a pesquisa  histórica. Conforme apontara em uma conversa com um frequente leitor destes garatujares, ao decidir escrever esta série que intitulara “Nacos de Literatura”, não era pretensão deste escrevente começar por uma obra publicada no Século XX, mas sim, tomar alguma daquelas mais clássicas publicadas no Século XIX,  ainda fasciculares e em forma de folhetins, que saíram em diversos periódicos, por meio das quais circularam as ideias e os pensares de então. Tanto é assim que, antes de começar a escrever os “Nacos de Literatura” que ora se  lê neste blog, foi refeita a leitura de “O Alienista”, conto da lavra do genial Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), um brilhante tratado que mistura sarcasmo, ironia e uma certa dose de antecipação de comportamento social marcado pela exacerbação de um psicologismo, marcadamente vivenciado nos tempos hodiernos. Porém, este garatujador acabou por fazer um percurso por um outro tipo de literatura, que já aparece e circula de modo diferente da que circulara no XIX, isto é: já aparecia em livros prontos, no formato brochura, que circulavam de acordo com a capacidade de publicizar e distribuir que a editora possuísse.

No entanto, foi outra releitura que acabou por definir o desenvolvimento da série que ora se encontra diante de quantos agora navegam neste espaço virtual. Sem que esteja muito claro em seu imaginar a razão precisa que levara este escrevedor a retomar a leitura de “O Senhor Embaixador”, obra da lavra de Érico Veríssimo (1905-1975) e publicada em 1965, portanto, em plena vigência da Ditadura Militar, iniciada pelo Golpe de 1964, desfechado contra o governo de João Goulart (1919-1976), que houvera assumido o governo deixado em 1961 por Jânio Quadros (1917-1992) e, com o franco, explícito e indisfarçado apoio de vastos setores da sociedade civil, além do apoio e das instâncias de diversos setores leigos da Igreja Católica e, em alguns casos, até mesmo do seu alto clero. O certo mesmo é que, conforme já há algumas semanas se tem feito, ao avançar pelas suas páginas e personagens, todas elas bem descritas e caracterizadas psicológica e socialmente, tem se percebido as muitas “faces da história” que podem ser encontradas em sua composição. Assim é que, a partir deste arrazoar, se procurará apontar outros elementos históricos da imaginada “República do Sacramento” – que, reafirme-se, não é apenas um imaginar do seu autor, mas sim, um perceber geral de uma América como um todo e, da América Latina em particular, que, em meio a censura e ao arbítrio, Veríssimo procura denunciar –, desta vez, tomando o jornalista da Amalpress como uma espécie de narrador privilegiado daquela história que acontecia sob a fumaça do seu inseparável cachimbo.

Antes mesmo de adentrar ao tema proposto, cabe ressaltar de passagem que, nas primeiras leituras feitas por José Mário da obra acima mencionada, sequer ele dera alguma atenção ao personagem Bill Godkin que já contava trinta e cinco anos de atuação jornalística, descrito por Veríssimo como sendo um periodista experiente e, de acordo com o episódio de abertura da produção literária em exame, já estava em fim de carreira, sendo homenageado pelos seus colegas mais novos de profissão e de empresa. Para José Mário, era apenas mais um a compor o leque de personagens que, para ele, tratava-se de um elemento que se não aparecesse na trama, tal sequer seria percebido. Ele não tinha ideia de se tratar de uma técnica de narrativa largamente utilizada pelos literatos, sobretudo, por aqueles que construíram as suas novelas no bojo de uma literatura que começava a levar aos seus leitores o conhecimento do mundo real em que ambos estavam inseridos; uma espécie de fio condutor daquela história; de um historiador que vivenciava, experienciava e, por fim, registrava, aquilo que mais tarde veio saber se tratar daquilo que teóricos e metodólogos  classificaram como sendo a “História” imediata, aquela produzida pelos jornalistas e, publicada em periódicos e agências de notícias. Por certo, ele nada entendera do discurso pronunciado pelo homenageado, quando instado a falar para aquelas cerca de vinte pessoas que estavam consigo à mesa e, que além de receber deles alguns presentes, também ouviu palavras elogiosas a si, proferidas por um jovem moço, a quem os demais encarregaram que falasse pelos que ali se encontravam confraternizando com o quase sexagenário colega.. Daí, se pode depreender que nada ele conseguira compreender da fala de Bill Godkin, visto que, conforme já se disse outras vezes, além dos poucos livros que pudera ler, o seu conhecimento e leitura de mundo estava restrito ao seu entorno de moradia e, quando muito, aos espaços de frequência escolar.

Desta forma, este tratado deve retomar alguns aspectos do discurso proferido pelo velho jornalista, a fim de poder prosseguir nas considerações e análises a que se propõe desenvolver, em sintonia com o título proposto para este arrazoado. Assim, depois de agradecer ao orador pelas palavras a ele dirigidas, Bill Godkin principia a sua abordagem acerca do que ali ouvira, dizendo que:

 

“[...]. ” Quando eu tinha a idade desse moço, orgulhava-me de possuir a qualidade essencial do repórter: a de só noticiar fatos. Hoje, na adolescência da velhice ([...]), começo a ter dúvidas... [...]: ”isso a que chamamos fato não será uma espécie de iceberg, quero dizer, uma coisa cuja parte visível corresponde apenas a um décimo de seu todo? Porque a parte invisível do fato está submersa nas águas dum torvo oceano de interesses políticos e econômicos, egoísmos e apetites nacionais e individuais, isso para não falar nos outros motivos e mistérios da natureza humana, mais profundos que os do mar”. [...].”.

 

Aqui uma interrupção do discurso proferido em resposta àquele que fora feito em sua homenagem, para ressaltar a constatação de se tratar de uma aula de jornalismo que Veríssimo coloca nos lábios daquele personagem que José Mário entendera como dispensável, indicando, conforme já se aludiu há pouco, o seu desconhecimento do papel social que desempenhava a produção literária. Não sabia o rapaz em 1977, que um personagem não era uma mera criação de uma cabeça brilhante e de um sujeito dotado de uma criatividade desprovida de perspicácia e de necessidade de comunicar, denunciar, convidar à reflexão; não era uma mera ferramenta de entretenimento nem mesmo, uma demonstração de erudição e grande aprofundamento cultural. Até poderia ser tudo isto; mas, não só. Era, sim, parte do processo criativo que pretendia dar a conhecer um certo “adoecer social”, mediante entrelaçamentos de episódios e personagens que representem os elementos sociais por meio dos quais o autor quer ressaltar e, por meio deles, demonstrar com alguma precisão, a sua percepção de mundo, para assim, fazer conhecer  as suas peculiaridades a tantos quantos a sua obra possa alcançar, Isto fica bem patente, quando se segue lendo o discurso que veríssimo empresta à Bil Godkin, dirigindo-se àqueles que o iriam substituir na tarefa de repórter da qual estava prestes a se aposentar. Diz ele:

 

“[...]. ” Ao desintegrarem o átomo, os cientistas de nosso século desintegraram também a semântica e até a ética. Quem é que sabe hoje com certeza o sentido de palavras que usamos com tão leviana frequência como liberdade, paz, direito e justiça? Quanto ao Palavrão, verdade... que bicho é esse? Quantas verdades existem no mundo de nossos dias? Conheço tantas... A da Casa Branca. A do Kremlin. A do Vaticano. A da Wall Street. A da Broadway. A da United States Steel Corporation. A da AFL. Sim, e convém não esquecer a da Madison Avenue, talvez a mais fantástica de todas.” [...]”.

 

E aquele orador que parecia pouco afeito à homenagem que acabara de receber, arremata devastador, para José Mário que ainda estava na infância da compreensão do mundo à sua volta, quando possuía a certeza das coisas que ouvia no rádio e, que se pudesse, leria nos jornais que circulavam naqueles idos da década de 1970 – até mesmo mais adiante, quando acidentalmente, acabou por descobrir aquilo que por meio de Bill Godkin, Veríssimo já lhe dissera, mas ele, ah, ele sequer ouvira, nem mesmo quando Raul Seixas cantava o seu “cowboy fora da Lei”, em frase lapidar “eu não preciso ler jornais; mentir sozinho, eu sou capaz” –, ao afirmar peremptoriamente que:

 

“[...]. ”O jovem orador disse que sou um símbolo... Mas símbolo de quê? Talvez dum tipo de jornalismo em processo de liquidação. Pertenço a uma era em que os correspondentes escreviam sobre os acontecimentos. Vocês os modernos querem competir com Deus Nosso Senhor. Não só procuram dar hoje as notícias de amanhã como também se avocam o direito de, na falta de notícias, criarem acontecimentos para depois escreverem sobre eles!” [...]”.

 

Assim, diante do discurso acima transcrito em suas partes mais essenciais e, conforme Veríssimo, feito de improviso e sem qualquer vontade do jornalista em o proferir, talvez se possa inferir que o arguto autor de “O Senhor Embaixador” estaria antecipando em sessenta anos aquilo que faz o jornalismo hodierno, amplificado mediante os meios modernos de difusão? Escrevesse ele hoje o seu tratado literário, expressaria um postulado muito diferente daquele que fora construído para formar o discurso de um periodista de longa prática jornalística em vias de conclusão?

 

Alagoinhas – 27 de setembro de 2026 – primavera brasileira

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com – www.historias-e-memorias.blogspot.com 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente; quero saber o que você pensa!