sábado, 28 de outubro de 2023

CRÔNICA DE UMA SOLIDÃO PERMANENTE

Crônica de uma solidão permanente

 

Sempre lhe faltou a intrepidez; sempre lhe sobrou a timidez; o medo de arriscar, de avançar, sempre lhe paralisou; a apreensão de a realidade não ser tal  como a ele parecia, sempre apeou-lhe os passos e lhe fez caminhar com grandes dificuldades; a incerteza sempre esteve a fervilhar nos seus pensamentos e muitas vezes lhe fez recuar os passos; tantas vezes pensou, tantas vezes ponderou, tantas vezes considerou e, ainda assim, muitas foram as decisões insensatas que tomou, muitos os caminhos tortuosos que trilhou, em muitos poços sem fundo desceu, muitos foram os abismos profundos que mergulhou, foram muitas as cisternas rotas que cavou.. o receio de errar, o levou a cometer inumeráveis erros: de cálculo, de avaliação, de leitura da realidade, de apreensão do mundo, de compreensão do que se lhe dizia/fazia ou parecia dizer/fazer, de compreensão das coisas à sua volta, de interpretação de intensões/palavras/ações...

A solidão sempre foi a marca indelével do seu existir, bem mais do que ele imaginasse ou desejasse; é certo que do alto dos seus arroubos de indignação e de fúria pelos seus desacertos e fracassos, sempre a evocou como quem pudesse o esconder da vergonha dos desastres, das derrotas, das muitas vezes que foi incapaz de perceber as coisas, em tempo de recuar ou de sequer pensar em dar um passo a mais em sua busca ou execução; não se dava conta - ou não queria - que ela nunca lhe deixara, mesmo cercado por multidões de pessoas, grandes ou diminutas; a solidão parece ser parte inerente do seu ser; desde a mais tenra infância: as brincadeiras, as peraltices, as traquinagens, quase invariavelmente eram atos solitários.

Agora mesmo, no momento em que estas letras são digitadas, a enorme casa está esvaziada  e, é habitada apenas por quem o faz... tem-se por companhia os pássaros que gorjeiam no espaço externo e contíguo; os insetos do forro e do telhado; a poeira e a sujeira do chão; os poucos móveis do imóvel; os equipamentos que ainda permitem alguma comunicação com o mundo exterior e com algumas pouquíssimas pessoas que se dignam em estabelecer algum tipo de relação com um ser tão pouco sociável como este solitário., Ele não o é por escolha, nem tem prazerem o ser... Mas, ao que parece, foi eleito uma de suas peças humanas prediletas

Em um tempo já pretérito de sua vida, muitas foram as vezes em que ele se banhou, se perfumou e se vestiu à sua maneira e, de acordo como lhe era possível, mediante as suas condições econômicas e sociais, bem como a da sua genitora/provedora, com o objetivo de sair à rua, como o faziam os demais rapazes da sua idade, em busca de encontrar alguma moça que ao menos lhe desse um pouco de atenção, lhe pudesse ouvir, ainda que apenas para lhe fazer companhia; fossem os carnavais, os natais ou quaisquer folguedos ou espaços, vãs eram as suas buscas.

Malgrado ter se acotovelado entre as muitas pessoas, em diversos espaços da cidade; ou ter participado por um largo tempo de duas igrejas, com perfis sociais e litúrgicos diferentes; a despeito de ter frequentado escolas e alguns bares; apesar de ter ido a algumas festas de largo e tendo trabalhado em uma empresa de porte médio na capital do seu Estado; não obstante ter estudado em algumas Universidades – nos diversos graus de graduação – e, ter se tornado docente na mesma faculdade em que se graduara, a solidão lhe era inarredável, estando sempre com ele; quantas vezes, ao voltar de um dia intenso de atividades acadêmicas, ele sentia o peso do isolamento e do descolamento social em que vivia, tendo apenas ela – a solidão -, e somente ela como sua constante companhia.

Saliente-se, por dever de justiça, que parte daquele isolamento era uma escolha daquele solitário, sobretudo, por não se sentir um com aqueles outros – colegas, alunos – que gravitavam naqueles espaços, como se fossem “corpos” soltos e preocupados cada um com a sua própria órbita, que claro, eram os próprios umbigos. Tendo as vaidades pessoais como fios condutores dos seus fazeres e seres, acercavam-se do professor desarraigado, apenas enquanto lhe fosse útil para o seus tarefares. Neste ponto, o alto-isolamento acabava por ser um instrumento a partir do qual intentava estabelecer uma espécie de proteção do isolamento que já lhe era inerente, na vã tentativa de reduzir os seus danos.

Entrementes, por incontáveis anos, a solidão insiste em estar presente, mesmo nos instantes de contrição ou das ideias e dos desejos os mais inconfessáveis; ela é, em suma, crônica; ela se instalou no seu viver, desde pouco depois de nascer em casa, por obra de parteira.

 

José Jorge Andrade Damasceno – outubro de 2023 

historiadorbaiano@gmail.com

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Histórias e Memórias de uma grande Amizade - Parte I.

Histórias e memórias de uma amizade – Parte I.

 

O ano era 1998 e o mês era maio. Este escrevedor encontrava-se em Salvador, hospedado em casa de Marilza, por ocasião de uma jornada promovida pelo programa de Pós-graduação em História, que se realizaria na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA – provavelmente um minicurso - e, por razões de logística, fez-se necessário encontrar onde permanecer por alguns dias na cidade de Salvador.

Após o regresso das atividades em São Lázaro, voltava para a casa onde gentilmente fora hospedado e, depois de bom café com a sua proprietária, memoráveis momentos de boníssima prosa.

Este escrevente conhecera pessoalmente a sua anfitriã, sobretudo, a partir da sua experiência com o Dosvox; ela já era conhecida dele, há alguns anos antes, quando intentara realizar um curso de programação que ela ministrara na Biblioteca central do Estado, que o cronista não conseguira acompanhar, por pura dificuldade de compreender as formulações matemáticas inerentes à matéria em questão.

Marilza, por sua vez, conhecera o hóspede pessoalmente pouco tempo antes, quando a seu convite, viera até a grande Alagoinhas, prestar-lhe auxílio no amanho do Dosvox.

Dito isto, volte-se ao seu apartamento, situado em Amaralina, no andar térreo do edifício Quineret. Entre as diversas digressões e divagações entabuladas na prosa que transcorrera em sua sala de estar, surgiu um nome com o qual este escrevedor já estava familiarizado, por conta de ler suas proposições nas “listas” que passara a tomar contato por meio da internet, ainda em processo de implantação/popularização, principalmente entre as pessoas cegas, que passavam a ter acesso ao seu conteúdo, a partir do sistema Dosvox – instrumento por meio do qual o cego passava a ter a possibilidade de utilizar o computador, até então, só possível para aqueles cegos que fossem programadores -, também em processo de desenvolvimento.

Impressionado com a profundidade e clareza dos seus textos, sabendo que a anfitriã era sua colega de profissão e, gozava de prestígio junto ao recém-constituído mestre, este cronista manifestou interesse em travar contato com aquele cego, brilhante e, que acabara de concluir uma dissertação que, acreditava, o poderia ajudar, como de fato ajudou, na elaboração da sua, ora em curso.

Ato contínuo, Marilza pega o telefone e liga para o dito, conversa um pouco com ele e, de chofre, anuncia:

- Maurício, está aqui em casa uma pessoa que tem lido os teus escritos na lista Dosvox e, se tornou teu admirador. Vou passar o telefone para ele.

Do outro lado da linha, ouve-se a voz do sujeito que fala com desenvoltura e desembaraço com o seu interlocutor, como se já o conhecesse de longas jornadas.

Era nada mais nada menos do que Maurício Zeni, que falava ali, sem qualquer ar de superioridade; sem qualquer tipo de empostação e/ou  imposição de “lugar”; um humor e uma genialidade perceptível às primeiras palavras; às primeiras frases.

Nascia ali uma amizade tão frutífera quanto frutuosa, ao ponto de não ter havido qualquer diferença, quando este garatujador o encontrou pessoalmente, alguns poucos anos depois daquela apresentação telefônica.

Aliás, aquele encontro será o tema do próximo desfilar de lembrares.

Como não poderia deixar de ser, há uma música neste arrazoado. Nas manhãs que antecediam as atividades acadêmicas, eram ocupadas com a audição de “CDs” encontrados no acervo da anfitriã. E o que se ouviu no dia seguinte ao papo com Maurício, não poderia deixar de ter sido Chico Buarque, com a sua magnífica interpretação de “Tanto Mar”.

 

https://youtu.be/t0y96gpmAzk?si=0ub6uDC5xmMfxleG

 

Alagoinhas 21 de setembro de 2023.

José Jorge Andrade Damasceno

 

historiadorbaiano@gmail.com 

sábado, 5 de agosto de 2023

História e Música - Parte II - A Guerrilheira estilhaça blindagens e esmigalha carapaças.

História e música – Parte II – A Guerrilheira estilhaça blindagens e esmigalha carapaças.

 

Corria o ano da graça de 2013; nos seus primeiros três meses. Não é possível precisar quanto tempo decorreu entre a sua primeira aparição abrupta e avassaladora e os primeiros diálogos entabulados entre aquela “guerrilheira” e aquele sujeito que acreditava estar afeito aos enfrentamentos da guerra cujo terreno é o coração, a partir de sua bem construída fortaleza.

Bem guardado por sua espessa blindagem e envolto em grossas camadas de carapaças, ele se acreditava tão inexpugnável, ao ponto de acreditar resistiria a quaisquer movimentos daquela guerrilheira e que facilmente repeliria um eventual ataque desferido por quem estava munida apenas de armas leves e frágeis, pouco ou nada acreditando que pudesse dispor de táticas capazes de alcançar qualquer êxito em um possível confronto.

Na verdade, é bom que se diga, sequer ele acreditava que aquela menina arisca e bem dotada de todos os encantos, teria algum interesse em realizar algum movimento que o tivesse como alvo. Afinal, quem não gostaria de ter o privilégio de cercá-la, cortejá-la, conquistá-la? Faria ela algum movimento de guerrilha na direção daquele velho e cansado guerreiro, mais preocupado em se resguardar de enfrentar outras batalhas, do que de as provocar?

Por que, se ela era uma terra nova, culta e fértil e, todos quantos fossem sensatos e sábios, quereriam arrebatar para si?

Assim pensando, procurou e obteve a chance de estabelecer alguma aproximação; trocaram mensagens, contatos, endereços eletrônicos... conversas se amiudaram; passaram a trocar ideias, em conversas despretensiosas e amenas, cada um explorando as capacidades cognitivas do outro; envolvendo os assuntos mais variados e diversificados, de modo que não houvesse espaço para quaisquer avanços, sem que se não armasse cada um com as suas respectivas forças de defesa, intentando impossibilitar que as linhas demarcatórias fossem ultrapassadas; qualquer erro poderia resultar em um ataque preventivo, perpetrado por cada um dos lados e, até mesmo, o nascimento de uma inimizade de difícil reversão.

Assim, eles permaneceram se resguardando mutuamente. Ela porém, por ser leve, ágil e hábil, sem que o fortificado pudesse repelir em tempo, lançou uma bomba poética em direção à porta principal da fortaleza que aquele fortificado edificara tão cuidadosamente e, rompeu, quase que imediatamente, os principais fundamentos das blindagens ali superpostas, promovendo a imediata invasão do local, sem que houvesse tempo de ser repelida.

Aproveitara o inesperado do gesto e, tratou de esgarçar as carapaças que lhe guardava as portas do coração e, lá entrou, quebrou os últimos focos de resistência; se alojou indelevelmente; estabelecida no espaço que parecia ter sido talhado para ela, fortificou-se ali, sem deixar qualquer margem para uma efetiva e eficaz reação, no sentido de lhe fazer voltar às posições anteriores.

Sim: ela conquistou a fortaleza; fez dali o seu lugar de ações táticas; dela saiu, apenas para buscar reforços, visto que o fortificado fora deixado amarrado à sua própria alma, sem que houvesse qualquer chance de desamarrar-se por si só.  Não mais poderia voltar à orgulhosa posição de “inexpugnável”, ostentada até momentos antes do movimento tático levado a bom termo por aquela guerrilheira faceira, que se atrevera a promover a conquista de um fortificado, tornando-o indefeso e incapaz de resistir aos encantos que logo foram derramados sobre todo o seu ser, transformando-o em seu perpétuo prisioneiro.

A curiosidade do leitor deve estar aguçada, visto que se falou que “uma bomba poética” fora lançada dentro da fortaleza, esmiuçando lhe e transformando em fragmentos, toda a blindagem que a guardava. Enquanto eram trocadas mensagens, ideias e impressões, ambos estudavam o terreno onde cada um se movia; ela, mais atenta e eficiente, logo iniciou o bombardeio com eficácia, visto que, escolhera adrede, músicas que, no conjunto formado por melodias e versos, pudessem atingir e transpor as carapaças que foram interpostas com o objetivo de evitar que uma flecha, ainda que a mais sutil, viesse a penetrar e a se alojar onde pudesse injetar o doce veneno da querência. Ele já estava exausto de descuidar-se e, fizera o propósito de não mais se deixar inebriar por querências ou quereres, que, depois de o vencer, o deixaram sangrando, quase a morrer.

Destarte, a guerrilheira lança mão de armas poéticas de calibre suficiente para esboroar os escudos mais resistentes que aquele fortificado pudesse dispor. Portanto, duas músicas foram enviadas, em um curto intervalo de tempo, para que, a soma das duas, viesse a funcionar como a poderosa bomba que, ao mesmo tempo quebraria as blindagens e espedaçaria as carapaças que o protegeriam, deixando-o indefeso, facilitando o trabalho de conquista.

A primeira delas: Simone – Quem é você.

 

 https://youtu.be/rgXNUWz-ro https://youtu.be/rgXNUWz-ro0

https://youtu.be/rgXNUWz-ro0

 

A segunda: Sandra de Sá – Com você tudo fica melhor.

 

https://youtu.be/nvnTkJ1zxlw

 

Como o leitor pode perceber, as músicas foram enviadas com o intuito de dizer ao fortificado, que os demais guerreiros que pretendessem conquistar o coração da Guerrilheira, não tinham chance de avançar um único milímetro, sem que ela não o defendesse com força e valentia.

 

05 de agosto de 2023

 

 

Jorge Damasceno 

sexta-feira, 16 de junho de 2023

História e Música - I

História e Música Parte I - A Guerrilheira

 

Há um tempo que se apresenta difícil de precisar com exatidão, pouco a pouco a densa floresta do isolamento a que as pessoas cegas estavam imersas, começava a ser bafejada pelos raios primaveris produzidos por alguns desenvolvimentos tecnológicos iniciados com os primeiros esforços que resultaram na criação de um conjunto de programas que permitiriam acesso aos computadores, mediante a utilização de vozes sintetizadas. O primeiro dos movimentos exitosos naquela direção foi o “Sistema Dosvox”, que se apresentava à pessoa cega, que, quase deslumbrada diante de um equipamento pensado e desenvolvido para aqueles que vêm, esperando que respondesse:

- ”[...], o que você deseja”?

 

Previamente instruído a respeito do modo como responder ao sistema que passava a permitir a sua interação com os computadores pessoais, a pergunta era respondida e a pessoa cega começava a perceber as clareiras que se faziam abrir, a cada operação que conseguia executar com independência, indo de árvore em árvore, de bosque em bosque, até se embrenharem em grutas, cavernas e rios caudalosos, largos e fundos, que, por sua complexidade e abrangência, se convencionou chamar, acertadamente , “revolução tecnológica, dali em diante, acessível às pessoas cegas.

Assim, a espessa floresta onde errava grande parte das pessoas cegas, passa a contar com caminhos e estradas bem arquitetadas em um “sistema operacional” frágil nos primeiros anos e que foram robustecidos algum tempo depois, fazendo possível trafegar com segurança e, permitindo até mesmo o desenvolvimento de atalhos e desvios mais arriscados.

É assim que se constrói um programa que passaria a estabelecer contatos entre aquelas pessoas que antes, se se conhecessem, só se falariam pessoalmente, por telefone – quem o tivesse – ou pelos Correios em suas longas jornadas de saídas e chegadas de cartas – em braile; mas também, escritas à máquina: chegara o “Papovox”.

Com um número de usuários razoável e com uma diversidade – no início pequena – de possibilidades, aquele programa se firmou como um meio seguro e de comunicação virtual, cheio de surpresas. Ali, vários de seus usuários se tornaram “amigos”, ainda que nunca houvessem se encontrado no mundo real, em algum lugar real. Muitas foram as noites viradas por este escrevedor, em salas públicas ou privadas; muitas foram as confabulações que varavam a madrugada, sem que os seus protagonistas se dessem conta do passar do tempo.

Pois bem: foi neste ambiente de muitas permutas, que surgiram projetos de pesquisas, namoros virtuais; enlaces e rompimentos; não faltando calorosos debates, altercações e reflexões; brigas, ciúmes que quase sempre resultavam em homéricas discussões que, por vezes, resvalaram na rispidez e grosseria generalizada entre os envolvidos.

Em uma daquelas madrugadas em que este escrevedor entrara para mais uma jornada de confabulações e trocas de amenidades, surge uma “guerrilheira”, como um raio avassalador, trovejando com a sua metralhadora bafejando inteligência aos borbotões. Talvez contasse dezesseis ou dezoito anos e, já esbanjava segurança, força de caráter e firmeza de palavras e atitudes. Tão veloz entrara e atirara algumas palavras pouco compreendidas por grande parte dos circunstantes, quanto ainda mais veloz saíra, quase sem deixar vestígios, como deve ser, em sua ação de guerrilhar, esboroando as defesas mais robustas.

Aquela Guerrilheira, em princípio inofensiva e frágil, avançou firme e resoluta no seu afã de revolucionar, deixando para trás de si, um velho soldado ferido, indefeso e enfermo, necessitado do seu socorro médico e, sobretudo, do seu cuidado. Qual! Ela o deixaria desfalecer; outros soldados, igualmente feridos pela fúria do seu metralhar, certamente, teria melhor sorte do que aquele que, apenas passava pelo local, como um caminhante distraído, desacreditando haver naquela guerrilheira, alguma intenção de o ferir. Para que? Sequer valeria a pena gastar a sua munição com aquele soldado andarilho, que nem parecia que estivesse em condições de lutar.

Aquela Guerrilheira deixou marcas indeléveis no espírito daquele soldado, que, por já haver vivido o dobro de sua vida e, por se acreditar experiente o suficiente para não se deixar atingir pelas suas balas de raríssima inteligência, sucumbira ao seu jeito  tão eficaz de manusear a palavra como arma de encantamento; pelo seu ágil modo de guerrilhar e de escapar aos revides da defesa; antes mesmo que fosse possível esboçar-se qualquer movimento no sentido de ser alvejada, a sua capacidade de fuga e de alto-proteção já se fazia sentir e, ela escapava e se protegia.

Crê-se que uma ilustração perfeita da Guerrilheira e o seu guerrilhar com o cérebro e a palavra que facilmente brotava dos seus dedos ágeis, velozes e irrequietos, seja a canção que tão bem representa este tipo de guerrilhar: “Canción para Mi América”, magnificamente interpretado por Mercedes Sosa.

 

https://youtu.be/o5Uuh6k7mJI

 

José Jorge Andrade Damasceno -17 de junho de 2023. 

sábado, 27 de maio de 2023

Memórias de Maio II

Memórias de maio II – Mãos que outra vez se entrelaçam

 

O outono é uma estação em que o corpo e a alma estão sendo preparados para a chegada do inverno, o que faz dela uma ponte entre o verão, com seus cheiros e sabores bem característicos, algumas vezes tórrido e seco, que permite a realização de inúmeras empreitadas impulsionadas por um farfalhar de sons, ventos e folguedos e, o inverno, mais frio, mais lento e  mais calmo. Nela, aqueles que são mais propensos à solidão e à circunspecção, fazem longas incursões imaginativas e profundas reflexões, que perpassam todo o seu interior, alcançando o âmago da alma, onde estão depositados os inúmeros sedimentos do viver pretérito, do amar, do querer sem poder, do desejar sem ter; das ilusões perdidas, das dores muitas vezes sentidas; onde residem as partículas de saudade, que vez por outra são revolvidas pelas reminiscências, evocadas ou não, que fazem subir à superfície lembranças que se pensava, há muito apagadas.

No outono, os cheiros de terra molhada; de folhas ao vento, bem como os sons dos pássaros e do ambiente como um todo, juntamente com os sabores bem mais leves e demoradamente apreciados, faz erguer os rememorares de há muito sufocados, que, uma vez acionados por alguma voz doce que chega aos sentidos, desdobra-se em torrentes nostálgicas que impelem o coração até lugares já não visitados, há algum tempo.

É assim que, outra vez em maio, este escrevedor volta ao lugar que dez anos antes, deixara triste e com o gosto amargo de se sentir tal qual aquela ave, que fora abatida em pleno voo, quando acreditava se dirigia a um lugar de floração viçosa, de frutos saborosos, que imaginava lhe agradaria o paladar, saciaria a sua sede de néctar e atiçaria o seu olfato com um suave perfume. Ou então, usando outra alegoria, ele volta a pisar naquele solo, que deixara dez anos antes, cabisbaixo e com aquela sensação experimentada pelo automobilista, que, a despeito de liderar toda a jornada, sofre pane seca, pouco antes de completar a volta que o levaria ao topo do podium.

Outra vez um sábado; um sábado em que chovia torrencialmente, se daria um reencontro tão longamente esperado. Ali, se desfaria um imenso hiato, aberto ao deixarem o Riomar, naquele memorável maio, que já se fazia decano. O outono se fez ainda mais presente, visto que a chuva quase não deu tréguas, contudo, sem impedir que aquelas mãos voltassem a se entrelaçar.

Entre duas xícaras de café e um suco de laranja, transcorreu aquela tarde; chegou aquela noite; o passar do tempo não foi percebido e, os dois puderam conversar; puderam sentir o perfume um do outro; puderam sorrir... ele, pôde fazer voar a imaginação; experimentar a emoção de outra vez estar ao lado dela; de outra vez pensar nela, não mais tão distante quanto ela estivera por todo este tempo; não mais mediado pelos meios de comunicação moderna. Não. Ela estava ali, ali ao alcance de suas mãos; sua voz lhe chegava aos ouvidos, não pelo telefone ou pelo whats App; mas, ali, ao lado; na cadeira ao lado. Os instantes de silêncio, ela interrompia indagando:

- No que está pensando?

E ele, apanhado em flagrante delito do coração, respondia, quase desconcertado:

- Em nada!

Ora, naquele momento a sua timidez irreversível se apresentou intrépida, fazendo com que ele se sentisse, como um menino que, mal dissimuladamente, tenta fechar nas suas mãos trêmulas, os caramelos subtraídos da frasqueira, sem que houvesse tempo de escapar à chegada súbita de quem os guardara!

Assim, aquele “nada” dado como resposta, foi uma imposição da timidez, que nunca o deixa falar, quando precisa falar; quando quer falar; quando deseja falar: o que sente, o que anseia, o que anela daquele alguém que ali está perguntando:

- “No que está pensando”? “O que está maquinando”? “Por que o silêncio”?

E a resposta, imposta é:

- “Nada”, “nada”, “por nada”!

Ah, esta timidez paralisadora! Silenciadora! Não haveria um remédio para, ao menos, neutralizar os seus efeitos que tanto abate o espírito de quem sofre com ela?  Como se desvencilhar do estupor que ela provoca, no momento mesmo em que se encontra frente a frente, lado a lado, desfrutando do instante há muito esperado, imaginado?

Aquele ensejo de reencontro, embora tenha sido muitas vezes cuidadosamente elaborado no espírito daquele que tanto o desejara, ao se lhe afigurar como algo que ali estava, diante de si, o intimida e paralisa: a voz quase não saem; as palavras teimam em não se deixar manejar; as frases mal articuladas, rebentam de lábios quase cerrados, o que, certamente, dificulta o entendimento de quem as ouve...

Como das outras vezes, várias foram as músicas trocadas, em uma espécie de preparativo para o novo entrelaçar de mãos. Entre elas, se poderia escolher duas, entre as que um mandou para o outro.

Ela, curiosa e arguta caçadora de "amenidades", descobrira uma que ele nunca houvera ouvido, embora seja apaixonado por músicas e, tenha um bom número delas.

 

https://youtu.be/RhmCA7FZKRE

 

A outra, ele também nunca ouvira antes – embora tenha sido gravada nos últimos anos do século XX -, mas, por entender que se encaixava perfeitamente no interregno entre os dois momentos até então vividos, mandou para ela.

 

https://youtu.be/dFE4V5qSawY

 

José Jorge Andrade Damasceno – maio de 2023

historiadorbaiano@gmail.com 

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Memórias de Maio - I

Memórias de maio – mãos que se enlaçaram

 

Pleno de reminiscências, maio tem sido pródigo em evocar um bom número delas. Já se escreveu sobre algumas; outras ainda aguardam a sua vez. Talvez, tais reminiscências aflorem pelo fato de ser um mês outonal, momento em que o inverno se aproxima e, o clima ameno, desperta memórias que se fazem recônditas no fundo da alma, como se quisesse indicar o aprofundamento da solidão, marca indelével deste escrevedor, avultada por sua escassa sociabilidade, aprofundada pelo inverno frio e chuvoso que se avizinha. Nele o tempo parece se arrastar ainda mais lentamente; o corpo sente mais intensamente a falta de calor.

Corria o ano da graça de 2013 e, chovia torrencialmente em Aracaju, como se aquele fosse um “Toró de lágrimas”, que, depois de amainar e se tornar “água corrente”, acabaria por molhar não apenas a superfície; mas, evidentemente que então não se sabia, acabaria por molhar caprichosamente uma plantinha, ainda recém germinada no coração, que mais tarde, se desenvolveria e se tornaria árvore.

A despeito do temporal que caía intermitente e impassível, eles saíram de diferentes e distantes espaços e dirigiram-se ao Riomar, para enfim, terem um encontro pessoal, real, concreto e palpável, no mundo real das pessoas e das coisas. Fora o momento mágico em que as suas vozes foram ouvidas mutuamente, sem a intermediação de equipamentos eletrônicos, sínteses de voz, leitores de tela... Sim: eles ali estavam, frente a frente; lado a lado; como até então, não puderam estar.

Na memória, ficou o momento da apresentação; o sorriso que aflorou naquele rosto que a tristeza teimava em moldar com a dureza e a circunspecção do tempo de asperezas e labores permanentes...Levados a um local onde pudessem conversar, ali se deixaram ficar, talvez, para se poderem certificar que de fato estavam ali, um juntinho do outro, separados por uma mesa onde repousavam duas latas de refrigerante, que aliás, custaram a ser esvaziadas...; ela, com suas mãozinhas ágeis, delicadas e irrequietas, logo quebrou o gelo do toque, do contato tátil, da construção cerebral dos elementos constitutivos daqueles seres reais que se encontravam ali, quase falando pelo silêncio; ele, tímido por natureza e intimidado pela graciosa presença daquela flor tão perfumada quanto meiga e doce; aspirava as suas palavras como se as precisasse reter, ou pudesse reservar para não sucumbir ao tempo que demoraria para outra vez as poder ouvir, tão perto como as ouvia naquele momento de grande enlevo e encantamento.

Mas, como já dizia um cantor da “jovem guarda”: “... tudo que é bom dura pouco”, o tempo passara veloz e, chegara a hora do encantado e da encantadora serem outra vez separados. Separados, imaginava ele, para se voltarem a encontrar no dia seguinte e, assim, pensava, ele falaria destemidamente tudo que quisera, que precisava e que desejara falar para ela; tudo que imaginara e, até ensaiara dizer para ela, sem freios, medos, acanhamentos, reservas... sobre o que sentia por ela; como se encantara pelo seu jeitinho de “fada”; como fala o poeta às suas “escolhidas” para o seu amor...

Mas “quá”! Ele a procurou; para ela ele telefonou; escreveu; esperou que respondesse ou que atendesse... Nada; um silêncio profundo se fez e, logo ele voltou ao seu habitual mundo vazio e solitário, mundo no qual sempre habitou e, por poucas vezes dele saiu.

No entanto, a lembrança daquela noite chuvosa de sábado, teimava em não se deixar apagar, a despeito de alguns esforços feitos neste sentido, uma vez que a “esperança” de um “novo amanhecer”, acabara por se desvanecer, ainda na madrugada do domingo, quando o sono quase não veio, tanto quanto não vieram as respostas que ele buscara. Os seus cabelos encaracolados; o formato do seu queixo; a maciez das suas mãos, teimaram em não lhe sair das pontas dos dedos, mesmo não mais tendo voltado a tocar neles. Parecera que houvera horas e horas de toques, como se a superfície do tocado se tivesse transformado em profundidades que as mãos que se entrelaçaram construíram e fizeram fortes aqueles vestígios tão frágeis, como se tivessem passado anos a elaborar e reelaborar aqueles sinais táteis no profundo do ser que a tocara...

Como se tem feito em outras rememorações, aqui se quer deixar marcada a música que permeou a memória deste escrevedor, no momento em que se conversava a respeito do encontro e enquanto o esperava, ansiosamente. Foram muitas as músicas trocadas entre eles, nos dias que antecederam à efeméride aqui brevemente trazida da memória. Entre elas, certamente, a interpretação de José Augusto – “Por Eu ter Me Machucado” -, expressa melhor o momento emocional que ele vivia e a expectativa que criara em torno do encontro. E, como o leitor pôde perceber no desfecho do arrazoado, acabou por ser uma espécie de “prévia” alusão aos desdobramentos posteriores.

 

https://youtu.be/4C1TkY9W0ds

 

José Jorge Andrade Damasceno

historiadorbaiano@gmail.com

 

25 de maio de 2023.

  

domingo, 14 de agosto de 2022

Minha crítica ao "dia dos Pais".

Eu não gosto do dia dos pais.

 

Todas as vezes que se abre o facebook, o abestado pergunta: “no que você está pensando”? Quase sempre, eu tenho ignorado pergunta tão invasiva. Mas, hoje, eu queria dar uma resposta com um textão; o arrazoado com umas quinhentas páginas; um tratado histórico, filosófico e sociológico sobre esta idiotia social chamada “Dia dos Pais – ou mesmo das mães, ou dias de quaisquer bestices que sirvam para o incremento do comércio e das atividades litúrgico-sociais das igrejas.

No entanto, por me faltar competência para tanto e, sobretudo, por ter como certo que o tal tratado não seria lido nas tais “redes sociais”, me contentarei se conseguir escrever ao menos algumas linhas sobre esta efeméride inútil, insossa, ineficaz e inodora e, portanto, desnecessária.

Se acreditam que estou errado, ou mesmo exagerando por ter um completo desprezo por este e outros “dias”, me responda então: há pais que “merecem” e outros que não “merecem” o tal “dia”?

De pronto, eu respondo que não.

E, por que não? Perguntariam alguns.

E eu respondo: por não se viver em uma sociedade meritocrática, não é possível dizer-se que há “pais” e “pais”.

Todos são pais: os que dão presentes; os que dão a ausência como presentes; os que matam os filhos de outros pais, deixando sem pais os seus filhos; os que matam as mulheres de outros pais – e, não poucas vezes as suas próprias -, deixando outros pais viúvos e outros filhos – por vezes, também os seus -, sem as suas mães; também são pais os que acediam, os que abusam, os que violam  e engravidam impunemente as filhas de outros pais – não raro as suas próprias filhas -, fazendo crescer o número dos filhos que não podem ter os seus pais para as coisas mais basilares da vida; são pais, aqueles homens que assassinam as filhas de outros pais, por sadismo, por ciúmes, “por amor”, por acreditarem ser os donos de suas vidas e proprietários dos seus corpos, deixando outros pais sem as suas filhas; do mesmo modo que são pais, aqueles que em nome do combate à corrupção, quebraram inúmeras empresas, grandes, médias e pequenas, lançando milhões de pessoas no desemprego, no subemprego, no bico, no biscate, na miséria, impedindo outros pais de levarem os sustento para os seus filhos e, assim, fazendo o País voltar ao mapa da fome da ONU; também são pais, aqueles que roubaram a grana da merenda, da saúde e da educação, deixando inúmeros filhos de pais, sem comer, sem aprender, sem saneamento básico, sem atenção à saúde; sem hospitais dignos, sem escolas funcionando e ensinando a ler o mundo; também são pais, aqueles que exploram o trabalhador em seus direitos, em seus salários; também são pais, aqueles que de posse de seus notebooks, de seus microfones, câmeras, de suas concessões de rádio e de televisão, se dedicam com empenho e denodo incansável, à tarefa de assassinar reputações de pessoas e de empresas; também são pais, aqueles que matam “marginais” que deixarão pais sem filhos e filhos sem pais; ah, também são pais, os salafrários, os calhordas, os patifes, os canalhas, os cafajestes; também são pais, os cachorros, os gatos, os jumentos, os cavalos, os hipopótamos, os elefantes, os rinocerontes; igualmente são pais, os carneiros, os bodes, os galos, os papagaios e os barbeiros. Embora a lista seja grande, ela não é exaustiva.

No entanto, há um macho, que por conta de sua natureza híbrida, não tem a capacidade biológica de ser inserido na categoria dos que são pais: o burro. Não fora ele filho de um cruzamento entre asininos e equinos, mesmo que o burro viesse com todas as fêmeas copular, jamais poderão procriar.

 

José Jorge Andrade Damasceno – indignado com tanta a criticidade intelectual, em meio a uma grande imbecilização, difundida pelas “redes sociais”.