domingo, 25 de janeiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XVII.


O Intervalo – II.

 

Os elementos que concorrem para o desencadear de lembranças, não concorrem na mesma medida, quando elas precisam ser ordenadas. O escavar das memórias, de acordo com o que é encontrado em Macel Proust (1871-1922), quase sempre é precedido por um fragmento inesperado, encontrado em algum processo sensitivo inerente ao viver humano, NO caso de Proust, tal desencadear se deu no momento mesmo em que ele provou um biscoito que lhe era servido com chá, em casa de suas parentes. Ao voltar a vivenciar aquele momento alguns anos depois, como que reabre a sucessão de eventos que passa a narrar na primeira pessoa, ordenando no tempo e estruturando em elaborações longas e densas, por meio do que, ele “rememora” um bom número de pessoas e eventos, a partir dos quais elabora construções que acabam por serem tomadas como tratados sobre o modo como funcionaria a memória social, fundamentada em um conjunto de outras memórias, por vezes superpostas. Ele assim se exprime em obra de sua lavra, hoje já clássica, “A Procura do Tempo Perdido - Para o lado de Swann”:

 

“[...]. Mas, no mesmo instante em que a colherada misturada com farelos do bolo tocou o meu palato, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Um prazer delicioso me invadira, isolado, sem a noção da causa. Ele imediatamente tornou as vicissitudes da vida indiferentes para mim, seus desastres, inofensivos, sua brevidade, ilusória, do mesmo modo que o amor age, enchendo-me de uma essência preciosa. ou melhor, essa essência não estava em mim, era eu. Parei de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde poderia ter vindo essa poderosa alegria? Sentia que ela estava ligada ao gosto do chá e do bolinho, mas o ultrapassava infinitamente, não devia  ser da mesma natureza. De onde vinha ela? O que significava? Onde  apreendê-la? Bebo um segundo gole no qual nada encontro a mais  que no primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o  segundo. É tempo de parar, a virtude da bebida parece diminuir. É  evidente que a verdade que procuro não está nela, mas em mim. Ela  a despertou, mas não a conhece, e só pode repetir indefinidamente,  cada vez com menos força, esse mesmo testemunho que não sei interpretar e o qual quero ao menos lhe pedir de novo e reencontrar  intato logo em seguida, à minha disposição, para uma iluminação  decisiva. [...].” (PROUST, 2022, p. 70-71.

 

Conforme pode perceber quem ora lê estes garatujares, embora Proust tenha sentido uma espécie de tempestade mnemônica, tal não se deu em meio à certezas; ao contrário. Inúmeras foram as interrogações que se lhe assomaram ao espírito, ao ponto de tentar repetir o fenômeno, mediante mais duas ou três colheradas do chá com bolo. No entanto, o primeiro desencadear ao toque do composto no seu palato, fê-lo como que reconstituir parte de um passado há muito submerso na memória, o que lhe permitiu escavar profundas camadas superpostas, pouco a pouco trazidas à superfície e, transformadas em textos densos e profundos, estabeleceu parâmetros sobre os quais trabalham aqueles que se exercitam na tarefa de rememorar aquilo que vivera, tanto no que diz respeito ao seu viver pessoal, quando ao que se refere à elaboração coletiva de uma memória comum.

É ainda na direção desenvolvida por Proust que caminha García Márquez (1927-2014) em seu “Viver para contar”, quando ao rememorar a viagem feita com a sua mãe para o lugar onde vivera, com o fito de vender a propriedade da família. Reportando-se ao episódio em que a sua mãe é recebida por um  seu velho conhecido da aldeia onde crescera, García Márquez apresenta um rememorar que lembra o trecho transcrito acima, provavelmente, indicando já conhecer o que fora desenvolvido pelo autor francês. Diz ele:

“[...]. Desde que provei a sopa tive a sensação de que todo o mundo adormecido despertava na minha memória. Sabores que tinham sido meus na infância e que perdera desde que me fui embora da aldeia reapareciam intactos com cada colherada e apertavam‑me o coração. Desde o princípio da conversa que me senti diante do doutor com a mesma idade que tinha quando lhe fazia partidas pela janela, de modo que me intimidou quando se dirigiu a mim com a seriedade e o afecto com que falava à minha mãe. Quando era pequeno, em situações difíceis, procurava dissimular a minha atrapalhação com um pestanejar rápido e contínuo. Aquele reflexo incontrolável voltou‑me de imediato quando o doutor olhou para mim. [...].” (MÁRQUEZ, 2003, p. 39).

Portanto, os rememorares, via de regra, precisam de dispositivos que ajudem o seu desencadear, promovendo uma avalanche de fragmentos que puco a puco fão sendo agrupados em construções mnemônicas, sempre tendo em vista que tais construções tem o presente como elemento desencadeador de uma reconstrução do passado, através de uma consciente ação de seleção do que lembrar, do como e do quando lembrar; do que trazer a público; do que falar, do quando falar e do que silenciar, bem como, do que esquecer. No caso específico deste que ora escreve estes caracteres alfanuméricos, as músicas e os cheiros que se lhe assomam à memória, em geral, são os desencadeadores de feixes e feixes de lembranças que, pouco a pouco, vão se deixando apreender e vão sendo transformadas em arrazoados que exprimem – ou procuram exprimir – os rememorares decodificados em linhas e páginas, conversas e reflexões. Para dar um exemplo concreto do que foi dito, em 2005, quando residia em Niterói, por ocasião do cursar das disciplinas do doutorado, enquanto procurava dormir após um dia intenso de estudante de pós-graduação, ouvia um programa especial, no rádio, produzido e transmitido pela rádio Jornal do Brasil FM. Ali, era apresentado um CD de Elba Ramalho e Dominguinhos; tendo sido tocadas todas as faixas, entremeadas de falas dos dois artistas. Pois bem. Quando ele lembra ou mesmo, quando ele toca uma daquelas faixas – Chama – vem-lhe à memória detalhes bem nítidos daquele apartamento onde o programa era escutado, situado à Rua Teixeira de Freitas, condomínio Flamboyant, no bairro do Fonseca, como se ainda lá estivesse.

Mas, volte-se ao ano de 1986, ao final de fevereiro, logo após ter saído o resultado do vestibular que lhe dera acesso ao curso de licenciatura em História, a ser desenvolvido na ainda Faculdade de Formação De Professores De Alagoinhas (FFPA). Depois de ter visitado os seus amigos e aqueles que lhes deram apoio na caminhada até a realização daquele certame, passara a se preparar para realizar a matrícula, inicialmente programada para a terceira semana de fevereiro, no sentido de procurar, receber e organizar a documentação exigida para aquele fim. Entretanto, estava em curso uma greve de professores e estudantes , o que inviabilizou a efetivação da matrícula na data estabelecida.

José Mário, enquanto isto, passara pelo “Estadual” com o fito de receber a sua certificação de conclusão do segundo grau. Ali estivera por um bom par de horas, aguardando a chegada da diretora de então, que assinaria o dito certificado. Estando ali, fora sentar-se ao fundo do auditório, onde tantas vezes estivera acompanhado por muitos colegas, onde muitas conversas se desenrolaram; onde algumas garotas lhe despertariam o interesse, sem que, no entanto, ele o tornasse conhecido, por receio de sensura, rejeição explícita, ou coisas que tais. No entanto, ali ele estava, diante de uma imensidão de escola, inteiramente vazia por conta das férias; o espaço, portanto,seu velho conhecido, lhe fazia companhia à solidão que sentia. Sim. Uma solidão real, indicada pela ausência concreta de pessoas. Mas, havia aquela outra; aquela em que o seu espírito vagueava em busca de encontrar com quem trocar as impressões que ora experimentava; mas, experimentava apenas ele, consigo mesmo. Quisera mesmo que as horas se quedassem em sua companhia; que respirassem com ele aqueles ares que, dali em diante, se tornariam ares de um passado que ainda estava ali, ao alncance dos seus sentidos; um passado que passara, mas, há ainda tão pouco tempo.Porém, malgrado o seu desejo, as horas passaram, a professora/diretora chegara, assinara o documento, seu Faustino o entregara; ele, se retirara; se dirigira de volta para a sua casa.

Tendo sido adiada a matrícula e, tendo ele em ordem toda a documentação exigida, acabara por ir ter com a parentela de sua mãe, na cidade de Jacobina, tendo deixado seu irmão paterno em alerta e com uma procuração para fazer a sua matrícula, quando isto fosse determinado pela Faculdade. Assim pensando, assim agindo: no dia 28 de fevereiro ele se encontrava em Jacobina, quando ouvira pela televisão, que havía nascido mais uma moeda no Brasil: o Cruzado. Ouvira por todo o dia as vozes de Dilson Funaro, do então presidente da República José Sarney, bem como de inúmeros comentaristas de economia, se esforçando por orientar a população, sobre as novas diretrizes monetárias que passariam a reger a vida econômica e social do País.

Entretanto, depois de julgar ter entendido todas as explicações dadas e as análises feitas, uma surpresa: um telegrama do seu irmão, o convocava para voltar imediatamente para Alagoinhas, a fim de realizar a sua matrícula. José Mário não entendeu nada. Como assim? O seu irmão não fora instituído seu procurador para aquele fim?

Assim pensando, se perguntara outras vezes a mesma coisa. Por que então aquela urgência? Toda a documentação, além da procuração, já não se encontrava em suas mãos? E, como não havia como obter respostas àquela questão, no sábado, primeiro de março, um sábado de sol, depois de uma noite/madrugada inteiras de estrada, ele já se encontrava em solo alagoinhense para se apresentar na segunda feira, dia em que tornaria efetiva a sua entrada no ensino superior, entrada que a aprovação no vestibular fora apenas a primeira etapa. Outras, não imaginava quantas, haveriam de vir e, ele, as teria de encarar, enfrentar, caminhar, seguir em frente, não obstante os obstáculos que houvesse de transpor.

 

Alagoinhas – 25 de janeiro de 2026 – verão brasileiro.

 

Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

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