domingo, 1 de novembro de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – XVI.

 

Pablo Ortega Y Murat: entre a pressão familiar pela permanência e a pressão da consciência pela ruptura – I.

 

Em mais um feixe de digressões em torno da obra “O Senhor Embaixador” de Érico Veríssimo (1905-1975), publicada em 1965, portanto, pouco mais de um ano após a instauração da Ditadura Militar no Brasil, este escrevedor volta a convidar às pessoas que ora percorrem estas linhas, à atentar para mais uma porção de observações e reflexões, desta feita, tomando como referência para tanto, o personagem Pablo Ortega, secretário da representação diplomática da República do Sacramento, a quem caberia a tarefa de acompanhar o chefe da diplomacia em suas ações e atuações junto aos diversos departamentos e/ou instituições do governo norte-americano, no que tange à defesa dos interesses daquele pequeno país situado em algum canto do caribe ao qual servia e, como se não bastasse, foi a ele a quem coubera por escolha pessoal de Gabriel Heliodoro Alvarado, acompanhar o novo embaixador em sua entrega de credenciais ao presidente norte-americano. O que para uma parte dos que gravitavam no entorno do governo sacramentenho seria um privilégio servir aos interesses econômicos de seu país através da diplomacia, ainda que para tanto não fosse talhado, conforme se dizia a respeito de Gabriel Heliodoro que, ainda há pouco, entregara as suas credenciais junto à Casa Branca. No entanto, de acordo com o desenrolar da trama traçada por Veríssimo, não era assim que pensava Ortega y Murat. Para ele, além de ser um trabalho penoso, aquele de representar um governo corrupto e sanguinário, como ele dissera sem rodeios à Glenda  Doremus, na conversa que tivera com aquela georgiana na biblioteca da embaixada, um peso ainda maior, era ter como Embaixador aquele homem rude, a quem detestava, que apenas estaria ali pelo desígnio e vontade de Juventino Carrera, que o enviara para servir de seu porta-voz em Washington e, principalmente, para destravar um avultado empréstimo junto ao Departamento de Estado, que poderia lhe dar bons e duradouros frutos, dentre eles, a permanência à frente dos destinos do seu País, ainda que fosse por meio de alguma medida de exceção. Por precisar desempenhar o papel que lhe era imposto pelo dever inerente ao posto que ocupava, Pablo Ortega convivia com constantes dores de cabeça, o que o obrigava a lançar mão de aspirinas e, por vezes, buscar outras maneiras de mitigar aquela pressão que lhe corroía o ser.

Assim, conforme já se afirmou em postagens anteriores – e aqui se faz necessário reforçar –,nesta obra ainda pouco explorada, sobretudo, pelos historiadores em suas elaborações teóricas sobre o modo como a história pode ser apreendida e/ou compreendida por meio da produção literária, Veríssimo emprega uma maneira de fazer saber ao mundo, como se dava o processo de construir e manter ditaduras, sobretudo, à sombra de um imaginado perigo comunista, explorado como um fantasma sempre presente no imaginário das pessoas que estiveram à frente de grande parte dos movimentos instauradores de todas as ditaduras vigentes no continente, entre as décadas de 1950 e 1980 - inclusive a brasileira, saliente-se –, por vezes, sob a instância dos setores econômicos e sociais, tidos por conservadores dos valores religiosos, da “moral” e dos “bons” costumes que o fantasma do comunismo ameaçava, que bem poderia se aproximar dos meios empregados por outros literatos, fazendo uso de construções cenográficas, psicológicas e sociológicas de personagens que, somente nas entrelinhas, poderiam ser  percebidos como sendo aqueles que estariam atuando na vida real de quaisquer rincões da América Latina. Conforme assevera Carlos Appel em seu prefácio à edição aqui utilizada,

“[...]. Conhecemos a história da República do Sacramento através do relato que Pablo Ortega faz a Glenda Doremus durante uma festa na Embaixada. É uma história comum e semelhante à das demais repúblicas ao sul dos Estados Unidos. Todas exibem as mesmas convulsões e falsas ideologias, [...]”.

Retome-se, pois, a conversa de Ortega com a senhorita Doremus, que se desenrolara enquanto corria o banquete oferecido pelo novo Embaixador sacramentenho, quando o secretário da embaixada explica à sua interlocutora, o quanto ela estava equivocada, ao tomar como verdadeiras e utilizar como fundamento de sua dissertação de mestrado, informações obtidas de “fontes” oficiais da ditadura liderada por Juventino Carrera. Depois de discorrer longa e criticamente sobre a dissertação que a mestranda deixara na chancelaria pedindo que ele lesse o que produzira, Ortega apontou diversos vícios e de condução da pesquisa e equívocos resultantes do modo como aceitara o corpus documental que lhe fora dado pela gente da embaixada e pela leitura acrítica que fizera, tendo embarcado nas diversas armadilhas que aquele material lhe fizera cair, cometendo por extensão, erros interpretativos, aceitando até mesmo lendas que, segundo Ortega, se assemelhavam àquela contada para explicar o surgimento de Roma. A mestranda caíra no lugar comum de considerar o governo que fora defenestrado pelo movimento que conduzira aquele que o considerara como uma “ditadura”, evidentemente, não se reconhecendo na mesma condição; ela aceitou sem maiores questionamentos, a narrativa proposta pelo regime que ora estava em vigência, como sendo o anterior um covil de corruptos e salteadores do erário do povo sacramentenho, enquanto que o que então se encontrava empoleirado à frente do País, se apresentava como justo em suas ações políticas e reto, no que respeitava ao trato com o povo.

Assim, de modo enfático e demonstrando não só conhecer a história do seu País, mas, apresentando àquela mestranda uma leitura histórica baseada em uma percepção crítica das fontes e, no uso de um corpus documental diversificado, Pablo Ortega arremata as suas impressões a cerca do trabalho da jovem estudante de história, ao assegurar que” [...]. Chegamos agora à parte de sua dissertação que considero fundamentalmente errada: aquela em que você afirma que o Governo Revolucionário foi justo e clemente para com os vencidos. Pura fantasia! [...]”. E o primeiro secretário da embaixada caribenha prossegue a sua análise:

 

“[...]. O Sacramento viveu pelo menos uma semana de terror, apesar de todos os protestos do Arcebispo Primaz. Criaram-se os famosos” tribunais revolucionários”, começaram os julgamentos sumários dos membros do Governo deposto e os fuzilamentos. Pelo menos durante três dias e três noites, Carrera permitiu que elementos do povo, embriagados de vitória e de rum, saqueassem a cidade, incendiassem as casas de alguns dos membros do Governo de Chamorro, violassem suas mulheres e filhas e linchassem o Chefe de Polícia, expondo depois seu corpo mutilado em praça pública... [...]”.

 

Prossegue o diplomata sacramentenho, procurando apontar qual a hipótese com a qual a mestranda trabalhara no desenvolvimento do seu tratado dissertativo, ao afirmar que:

“[...]. Se bem entendi seu trabalho, o que você pretende provar é que, governado por um ditador despótico e branco como Chamorro ou por um mestiço como Carrera, que você imagina um democrata, um país como o Sacramento dificilmente ou nunca poderá atingir sua maturidade política e uma ordem social e econômica próspera e estável pela simples razão de que seu povo é formado em sua maioria de elementos mestiços... Certo? [...]”.

Ao concordar com a assertiva proposta por Ortega, aquela mestranda recebe dele o contraponto àquele equívoco axiomático de sua proposição. Diz ele que a premissa está errada. Diante do que ouvira até ali, Glenda questiona o fato de estar ele servindo àquele governo corrupto e sanguinário, quando diz não compreender “[...]. Como é que um” liberal” como você, que sabe todas as podridões de seu Governo, está aqui em Washington a servir esse Governo? [...]”. Ao que Pablo Ortega responde “[...]. Decerto porque estou podre também. [...]. Com aquela resposta que Veríssimo coloca nos lábios do seu personagem, certamente, ele está apontando o mal-estar que Ortega y Murat vive a cerca do papel que precisa desempenhar enquanto membro do corpo diplomático do seu País e, aquilo que a sua consciência propõe, quando se encontra “sozinho a cismar”.

 

Alagoinhas – 01 de novembro de 2026 – primavera brasileira.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com