Pablo Ortega Y Murat: entre a pressão familiar pela
permanência e a pressão da consciência pela ruptura – I.
Em mais um feixe de digressões em torno da obra “O Senhor
Embaixador” de Érico Veríssimo (1905-1975), publicada em 1965, portanto, pouco
mais de um ano após a instauração da Ditadura Militar no Brasil, este
escrevedor volta a convidar às pessoas que ora percorrem estas linhas, à atentar
para mais uma porção de observações e reflexões, desta feita, tomando como
referência para tanto, o personagem Pablo Ortega, secretário da representação
diplomática da República do Sacramento, a quem caberia a tarefa de acompanhar o
chefe da diplomacia em suas ações e atuações junto aos diversos departamentos
e/ou instituições do governo norte-americano, no que tange à defesa dos
interesses daquele pequeno país situado em algum canto do caribe ao qual servia
e, como se não bastasse, foi a ele a quem coubera por escolha pessoal de
Gabriel Heliodoro Alvarado, acompanhar o novo embaixador em sua entrega de
credenciais ao presidente norte-americano. O que para uma parte dos que
gravitavam no entorno do governo sacramentenho seria um privilégio servir aos
interesses econômicos de seu país através da diplomacia, ainda que para tanto
não fosse talhado, conforme se dizia a respeito de Gabriel Heliodoro que, ainda
há pouco, entregara as suas credenciais junto à Casa Branca. No entanto, de acordo
com o desenrolar da trama traçada por Veríssimo, não era assim que pensava
Ortega y Murat. Para ele, além de ser um trabalho penoso, aquele de representar
um governo corrupto e sanguinário, como ele dissera sem rodeios à Glenda Doremus, na conversa que tivera com aquela georgiana
na biblioteca da embaixada, um peso ainda maior, era ter como Embaixador aquele
homem rude, a quem detestava, que apenas estaria ali pelo desígnio e vontade de
Juventino Carrera, que o enviara para servir de seu porta-voz em Washington e,
principalmente, para destravar um avultado empréstimo junto ao Departamento de Estado,
que poderia lhe dar bons e duradouros frutos, dentre eles, a permanência à
frente dos destinos do seu País, ainda que fosse por meio de alguma medida de
exceção. Por precisar desempenhar o papel que lhe era imposto pelo dever inerente
ao posto que ocupava, Pablo Ortega convivia com constantes dores de cabeça, o
que o obrigava a lançar mão de aspirinas e, por vezes, buscar outras maneiras
de mitigar aquela pressão que lhe corroía o ser.
Assim, conforme já se afirmou em postagens anteriores – e aqui
se faz necessário reforçar –,nesta obra ainda pouco explorada, sobretudo, pelos
historiadores em suas elaborações teóricas sobre o modo como a história pode ser
apreendida e/ou compreendida por meio da produção literária, Veríssimo emprega
uma maneira de fazer saber ao mundo, como se dava o processo de construir e
manter ditaduras, sobretudo, à sombra de um imaginado perigo comunista, explorado
como um fantasma sempre presente no imaginário das pessoas que estiveram à
frente de grande parte dos movimentos instauradores de todas as ditaduras vigentes
no continente, entre as décadas de 1950 e 1980 - inclusive a brasileira,
saliente-se –, por vezes, sob a instância dos setores econômicos e sociais,
tidos por conservadores dos valores religiosos, da “moral” e dos “bons” costumes
que o fantasma do comunismo ameaçava, que bem poderia se aproximar dos meios
empregados por outros literatos, fazendo uso de construções cenográficas,
psicológicas e sociológicas de personagens que, somente nas entrelinhas,
poderiam ser percebidos como sendo
aqueles que estariam atuando na vida real de quaisquer rincões da América
Latina. Conforme assevera Carlos Appel em seu prefácio à edição aqui utilizada,
“[...]. Conhecemos a história da
República do Sacramento através do relato que Pablo Ortega faz a Glenda
Doremus durante uma festa na Embaixada. É uma história comum e
semelhante à das demais repúblicas ao sul dos Estados Unidos. Todas
exibem as mesmas convulsões e falsas ideologias, [...]”.
Retome-se, pois, a conversa de Ortega com a senhorita
Doremus, que se desenrolara enquanto corria o banquete oferecido pelo novo
Embaixador sacramentenho, quando o secretário da embaixada explica à sua
interlocutora, o quanto ela estava equivocada, ao tomar como verdadeiras e
utilizar como fundamento de sua dissertação de mestrado, informações obtidas de
“fontes” oficiais da ditadura liderada por Juventino Carrera. Depois de
discorrer longa e criticamente sobre a dissertação que a mestranda deixara na
chancelaria pedindo que ele lesse o que produzira, Ortega apontou diversos
vícios e de condução da pesquisa e equívocos resultantes do modo como aceitara
o corpus documental que lhe fora dado pela gente da embaixada e pela leitura
acrítica que fizera, tendo embarcado nas diversas armadilhas que aquele
material lhe fizera cair, cometendo por extensão, erros interpretativos,
aceitando até mesmo lendas que, segundo Ortega, se assemelhavam àquela contada
para explicar o surgimento de Roma. A mestranda caíra no lugar comum de
considerar o governo que fora defenestrado pelo movimento que conduzira aquele
que o considerara como uma “ditadura”, evidentemente, não se reconhecendo na
mesma condição; ela aceitou sem maiores questionamentos, a narrativa proposta
pelo regime que ora estava em vigência, como sendo o anterior um covil de corruptos
e salteadores do erário do povo sacramentenho, enquanto que o que então se
encontrava empoleirado à frente do País, se apresentava como justo em suas
ações políticas e reto, no que respeitava ao trato com o povo.
Assim, de modo enfático e demonstrando não só conhecer a
história do seu País, mas, apresentando àquela mestranda uma leitura histórica baseada
em uma percepção crítica das fontes e, no uso de um corpus documental diversificado,
Pablo Ortega arremata as suas impressões a cerca do trabalho da jovem estudante
de história, ao assegurar que” [...]. Chegamos agora à parte de
sua dissertação que considero fundamentalmente errada: aquela em que você
afirma que o Governo Revolucionário foi justo e clemente para com os vencidos.
Pura fantasia! [...]”. E o primeiro secretário da embaixada caribenha prossegue
a sua análise:
“[...]. O Sacramento viveu pelo menos uma
semana de terror, apesar de todos os protestos do Arcebispo Primaz. Criaram-se
os famosos” tribunais revolucionários”, começaram os julgamentos sumários dos
membros do Governo deposto e os fuzilamentos. Pelo menos durante três dias e
três noites, Carrera permitiu que elementos do povo, embriagados de vitória e
de rum, saqueassem a cidade, incendiassem as casas de alguns dos membros do
Governo de Chamorro, violassem suas mulheres e filhas e linchassem o Chefe de
Polícia, expondo depois seu corpo mutilado em praça pública... [...]”.
Prossegue o diplomata sacramentenho,
procurando apontar qual a hipótese com a qual a mestranda trabalhara no
desenvolvimento do seu tratado dissertativo, ao afirmar que:
“[...]. Se bem entendi seu trabalho, o que
você pretende provar é que, governado por um ditador despótico e branco como
Chamorro ou por um mestiço como Carrera, que você imagina um democrata, um país
como o Sacramento dificilmente ou nunca poderá atingir sua maturidade política
e uma ordem social e econômica próspera e estável pela simples razão de que seu
povo é formado em sua maioria de elementos mestiços... Certo? [...]”.
Ao concordar com a assertiva proposta por
Ortega, aquela mestranda recebe dele o contraponto àquele equívoco axiomático
de sua proposição. Diz ele que a premissa está errada. Diante do que ouvira até
ali, Glenda questiona o fato de estar ele servindo àquele governo corrupto e
sanguinário, quando diz não compreender “[...]. Como é que um” liberal” como
você, que sabe todas as podridões de seu Governo, está aqui em Washington a
servir esse Governo? [...]”. Ao que Pablo Ortega responde “[...]. Decerto porque
estou podre também. [...]. Com aquela resposta que Veríssimo coloca nos lábios
do seu personagem, certamente, ele está apontando o mal-estar que Ortega y
Murat vive a cerca do papel que precisa desempenhar enquanto membro do corpo
diplomático do seu País e, aquilo que a sua consciência propõe, quando se
encontra “sozinho a cismar”.
Alagoinhas – 01 de novembro de 2026 – primavera
brasileira.
Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com