domingo, 19 de julho de 2026

NACOS DE LITERATURA – ALGUMAS DIGRESSÕES – I.

 

Introdução

 

Conforme já se pode perceber no título dado ao texto que ora se faz publicar, ao escrever estes garatujares em forma de reflexões envolvendo o  fazer da História e uma ínfima parte de uma dada construção da Literatura, este escrevedor inicia um novo desfilar de postulados com o qual pretende conversar com quem tenha a paciência e o interesse neste tipo de tema. Cabe salientar de passagem que,  quem traceja estes escritos, há algum tempo vem fazendo algumas incursões voltadas para o estreitamento de um esforço para compreender a História a partir da literatura. É neste sentido que publica em 2024, o livro intitulado “Um retrato tirado de Alagoinhas ”quando ela ainda era menina moça” :  histórias e memórias da cidade, nos escritos de Maria Feijó”,  uma obra inserida no âmbito da coleção “Nem “Vultos”, nem “Feitos”: UM CONSTRUTO DE HISTÓRIAS E MEMÓRIAS ATRAVÉS DE DIVERSAS TRAJETÓRIAS”, por meio da qual procura entender um pouco da História de Alagoinhas, tendo como ponto de partida o avultado romance da literata alagoinhense Maria Feijó de Souza, usando a epígrafe que ela propõe nas páginas iniciais do seu avultado compêndio. Por meio daqueles historiares literários, se buscou entender algumas tomadas de posição no campo da política social por parte da elite econômica e cultural da cidade, posicionamentos que, aliás, estão de algum modo delineados no modo de pensar daquela sociedade que Feijó entendia como “ainda menina moça”, o que talvez se quisesse dizer “ainda adolescente”; ainda em formação. Na obra de 2024, o seu autor procurara apontar os traços que Feijó faz desfilar ao longo das oitocentas páginas de uma trajetória professoral que, na prática, expõe as sub-reptícias atitudes de uma elite social, econômica e cultural que por sua vez, encarnava um modo de pensar calcado em uma moral parcial e classista, pouco ou nada aplicável àqueles que dela fosse uma das partes.

Mas, conforme já é de conhecimento de quem acompanha estes arrazoares, José Mário, personagem esquadrinhado em grande parte dos textos aqui publicados, embora tenha sido um leitor voraz, sempre tivera grande dificuldade de ir além dos textos que se lhe passava sob os dedos. Ele entendia o texto pelo texto, sem que pudesse identificar alguma coisa que estivesse além daquilo que ali se encontrava escrito; ele não imaginava que os escritos que lhe caíra nas mãos e que percorrera com atenção, ultrapassassem as páginas nas quais estavam impressos em forma de caracteres. José Mário não conseguia identificar a existência de uma História que norteasse tal ou qual texto, senão, aquela ficcional, construída pela argúcia da imaginação do seu autor. Sequer desconfiava haver uma História de fato vivida, em algum tempo ou lugar, que acabaria por desencadear no romancista, uma capacidade para desenvolver a construção de uma obra em que tal “História” ganharia contornos ficcionais. Para ele, não era verossímil que tal ou qual obra, em quaisquer dos casos, fosse apresentada de modo a descrever o cotidiano de um sistema social, econômico ou cultural, procurando destacar as opressões, as pressões, as tensões  e/ou circunstâncias que precisassem ser realçadas mas, que por vezes, não poderia ser explicitada. Em suma: para José Mário, aquele conjunto de obras rotuladas genericamente de “Romance”, nada mais era do que o fruto do trabalho ficcional de engenhosos criadores de enredos bem elaborados, bem urdidos, com personagens bem construídos e com roteiros bem sincronizados que, ao fim e ao cabo, visava instigar o imaginário do leitor e, de acordo com a capacidade de imaginação de cada um, pensar em realidades diversas daquelas então vividas; em outros casos, fazer crer que, em algum momento, em algum rasgo de sorte, poderia ser que a sua realidade de falta de quase tudo, sofresse uma virada tal que, a fartura de tudo viesse a ocupar o lugar real no seu viver. Ah, mas a realidade era tão dura que, na maioria das vezes, nem mesmo um romance bem tramado era capaz de arrancar aquele leitor do lugar em que se encontrava, ao devorar aquelas histórias de sucesso e ventura daqueles personagens que lhe cativara a preferência.

À guisa de exemplo daquilo que se acabou de explicitar, se tomará o caso da leitura que José Mário fizera de “O Senhor Embaixador”, obra publicada em 1965, pelo gaúcho Érico Veríssimo (1905-1975), cuja trama girava em torno de uma certa República do Sacramento!, país imaginário instalado em algum canto do Caribe. Tal república era uma ditadura que estava prestes a cair sob o fogo da revolução comunista e, que o seu embaixador nos Estados Unidos da América se dispusera a lutar ao lado do “compadre” que o elevara ao posto diplomático mais importante. É claro que José Mário não tivera senão o texto em si; jamais imaginara que Veríssimo empreendia uma crítica mordaz aos sistemas ditatoriais encarapitados em uma considerável parcela de países da América Latina – inclusive a deflagrada no Brasil em 1964 – e, que para os denunciar, precisava ocultar as suas localidades em países inventados, bem como os seus nomes reais, escamoteados em personagens caricatas e estravagantes. O que para José Mário talvez se aproximasse de uma realidade dada, ainda assim, uma realidade bem distante daquela descrita por Veríssimo, fosse a caracterização de cada um dos elementos presentes na trama por ele urdida, que acabara por levar Gabriel Heliodoro Alvarado ao fuzilamento pelo pelotão revolucionário, por ele desdenhado, ao legar os seus “conjones” a algum museu que acreditava seria erguido para homenagear o governo que ora acabava de ser derrubado.

Mas, para além disto, nada mais. Ele, conforme já se salientou, não conhecia o contexto sob o qual se produziu o artefato literário que acabara de ler e, por consequência, não lhe pudera compreender, nem esmo aceder o intertexto, visto que, ainda de acordo com o que já se apontou, ele não fora capacitado para perceber além das palavras que lia; não conseguia racionalizar aquilo que não fosse percebido na superfície a ele apresentada. Foi preciso o transcurso de um longo  tempo e a reformulação da sua compreensão sobre a literatura, para que a pudesse entender como uma das diversas formas de apresentar a realidade aos que dela fizessem uso, no sentido de apreender o fazer histórico que se desenvolvia em seu entorno. Tal compreensão lhe permitiu – já bem mais tarde, ao longo do seu processo formativo – um aproveitamento da produção literária que se lhe passou pelas mãos e pelos ouvidos, no sentido de poder obter maiores ganhos na sua compreensão e, posteriormente, na sua utilização como uma ferramenta para a compreensão da História.

Entretanto, para José Mário, o momento em que se dá o salto para a compreensão da literatura como uma ferramenta capaz de abrir o entendimento para a apreensão de algumas dentre as muitas “faces” da História, está situado no ano de 1996,quando  ele é convocado para assumir a docência na cadeira de História da América, após ter estado em uma lista de espera, por conta de sua aprovação em segundo lugar, no último dos concursos feitos para ingressar na Uneb. Passados alguns meses da publicação do resultado, fora consultado sobre o seu interesse em assumir as disciplinas relacionadas à História da América, uma vez que aquela que a lecionava, fora transferida para outra unidade e, ficara vaga a cadeira que ocupava. Enquanto procurava atender às exigências legais e médicas para atender à convocação, passara a conversar com professores que trabalhavam com aquela matéria, sobretudo, aquela que a desenvolvia no curso de História da Ufba. Ao recebê-lo em sua casa, quando lhe passava algumas informações sobre o modo como ela estruturava os semestres em que trabalhava com a América independente, falara de autores e obras relacionadas à disciplina e, lá para as tantas, pronunciara dois nomes de literatos que lhe soaram desconhecidos e, de fato o eram, causando nele uma estranheza relacionada à sua inserção entre as referências para o estudo da matéria em causa. Falara de Mário Vargas Llosa – de quem dissera não gostar, por suas posições políticas serem divergentes  – e, também falara de Gabriel García Márquez que, não obstante ser um dos detentores do Nobel de Literatura, José Mário nunca houvera ouvido falar. De volta para a sua Alagoinhas, com as mãos cheias de sugestões bibliográficas e o cérebro girando a onze mil por segundo, se autocensurava  pelo fato de já haver concluído a graduação; já ter sido aprovado para ingressar no mestrado; já estar prestes a assumir um lugar de docente na universidade e, nunca – ao menos não se lhe ocorrera – ter ouvido falar de García Márquez, de Vargas Llosa – ao menos eles, que poderia fazer uso das obras. Mas, como o fazer, se as não conhecia?

Para além de não conhecer as obras ou os autores mencionados, José Mário possuía mais um limite que precisaria superar. Para ele, literatura, era literatura e História, era História, como se fossem água e óleo: não se misturavam e, se misturasse, um sujaria a água e, esta, por sua vez, limitaria a utilidade do que lhe acabara de sujar e impossibilitar o seu uso, tanto para beber, quanto para limpar. Assim pensando, por algum tempo, ele relutou em incorporar o uso da literatura à sua metodologia de ensino de História da América. .

 

Alagoinhas – 19 de julho de 2026 – inverno brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comente; quero saber o que você pensa!