domingo, 30 de março de 2025

1981 – O Fim do Primeiro Grau: A Oitava Série em um único lance – Parte I.

Já se disse em outras ocasiões, que, apesar de procurar não demonstrar os seus reagires de modo efusivo e de não ser dado a expansividades, José Mário, como os demais terráqueos, possuía os seus momentos de reflexões e ponderações. Logo após ter saído daquela sala localizada no pavilhão Jairo Azi – àquela altura, já conhecido entre os estudantes e professores como “treme-treme” -, ele voltara para casa por volta das dezessete horas, fazendo o trajeto de cerca de dois ou três quilômetros andando, que consistia em sair dos seus muros, seguindo pela rua 21 de abril até a longa rua Severino Vieira; descê-la até o cruzamento com a Luiz Viana, virando a esquerda e, caminhar até as proximidades do “Campo do Curtume”, virar a direita; atravessar uma ponte rústica que ligava o 2 de julho ao antigo matadouro; atravessar a via férrea, virar à esquerda e, logo em seguida, virar a direita, andando em uma rua inteiramente de chão batido, marcada por valetas por onde corriam os esgotos, por mais cerca de quatrocentos metros, em direção da “Captação do Saae”, chegando por fim, ao seu lugar de morada. Isto ele fizera, como se quisesse ruminar em seu cérebro, não só aquele ano letivo em que ele finalmente tivera êxito em concluir a carrancuda sétima série, bem como, procurava mentalmente palmilhar cada degrau daqueles lances de escada que precisara vencer e, entre escorregos e tropeços, tivera que voltar por mais duas vezes a intentar alcançar o seu topo. Alguns degraus eram limosos; outros, estavam quebrados em alguns lugares chaves, dificultando o caminhar, se não suave e tranquilo, ao menos, seguro e firme, rumo aos seus patamares. Ponderava outrossim, porque insistira em querer vencer aqueles degraus, prescindindo dos corrimões que o ajudariam a se equilibrar, nos momentos em que escorregasse em um ponto coberto de limo, ou tropeçasse em algum obstáculo inerente mesmo, ao esforço de subir degraus tão incertos no que tange à sua conservação, quanto desnivelados, no que tange à regularidade de sua construção.

Ao fim da caminhada, onde alternara lapsos de alegria por ter finalmente sido habilitado a cursar a oitava série, entremeados com espasmos de medos e dúvidas, no sentido de como seria aquela última etapa do primeiro grau, acerca das ponderações e reflexões que intentara fazer enquanto caminhava, concluíra, não sem uma profunda desilusão, que não alcançara qualquer resposta aos seus “Por quês”, ainda menos, aos seus “para quês”, que aliás, o acompanhara por todos aqueles anos de enfrentamentos da realidade que teimava em lhe gritar na cara, o que ele de fato era – ninguém, -, o que ele de fato possuía – nada, coisa alguma, perspectiva nenhuma -, o lugar a que de fato ele pertencia – a pobreza que embargava as possibilidades; a cegueira inibidora de sonhos e de quimeras.

E ainda, como se tudo não bastasse, inúmeras vezes ouvira de um bom número de professores, a tese que, ainda sem saber como e sem ter o necessário instrumental teórico ele de si para consigo combatia, que rezava, com toda a força do “cientificismo” que era evocado para a sua internalização, que dizia ser o “homem” u produto do seu meio – sobretudo, o social.

Nunca é demais salientar que, com aquela assertiva, se pretendia naturalizar a ideia de que a prostituta geraria inúmeras outras prostitutinhas; os ladrões, outro tanto de ladrõezinhos; os beberrões, criariam algumas levas de beberrões, em profusão; a empregada, cujo salário era um lugar para morar, alguma roupa para “tapar as vergonhas” e  alguma coisa para comer, inevitavelmente, geraria outras tantas empregadas que, substituiriam as suas genitoras, progenitoras, gerações infinitamente repetidas – aliás, era esta, a melhor parte da aplicação da aludida assertiva, pois, reproduziria uma escravidão não declarada e, plenamente justificada -; o  pobre, outro tanto ainda maior de pobrezinhos; o carvoeiro, faria das suas proles, outros tantos pequenos carvoeiros, que gerariam outros, mais outros; sem que viesse a haver, em qualquer tempo, alguma solução de continuidade. Tal proclamação acrítica, poderia – e talvez, se queria – provocar uma apatia social – assim como um aplacar de consciências nobres e letradas, inclusive do magistério que se acreditava “casta” superior, que se empenhava pela humanidade, embora não acreditasse na melhoria dela -, o que, evidentemente, inibiria qualquer outro esforço, de quem quer que fosse, no sentido de procurar quebrar aquele ciclo já consolidado e, com as suas bases solidamente fincadas, não só entre os que se encontravam no topo da pirâmide, quanto e, sobretudo, daqueles que formavam a base dela, inclusive, no seu imaginário. Daí perguntar o sujeito, esmagado não só pelas suas próprias dificuldades individuais e familiares mas, também pelo peso da pirâmide que o esmaga social, cultural e economicamente: para quê? Por quê?

Portanto, é já entrado nos seus vinte anos, que José Mário chega na sala de aula, no mês de março de 1981, para cursar a oitava série, ano que, não houvesse contratempos, fecharia o ciclo do então chamado primeiro grau, compreendendo os quatro anos iniciais, cursados no Grupo Escolar Brasilino Viegas, entre os anos  de 1969 e 1974 e, os quatro outros anos, cursados no Estadual, no Complexo Escolar Carneiro Ribeiro Filho, No instituto Central de Educação Isaías Alves (ICEIA) – estes últimos em Salvador entre 1975 e 1976 – e , por fim, outra vez no Centro Integrado Luís Navarro de Brito (Estadual), entre 1976 e 1981. Como se pode perceber, foi preciso percorrer quase vinte e dois anos – alguns de seus colegas nasceram neste intervalo e se formaram, enquanto ele, patinava no terreno escorregadio do primeiro grau – para que José Mário viesse a integralizar as séries que lhe dessem acesso ao segundo grau, indicando que ele precisou de cerca de dois anos e meio para conseguir completar cada uma das séries. Isto fez com que ele ficasse muito para trás, no que tange ao caminhar necessário em busca de alcançar “um lugar ao sol”, como se diria, na medida em que, para pleitear alguma vaga de emprego em oferta, não obstante a avultada demanda – e, ainda uma vez, não obstante às suas condições sensoriais desfavoráveis – era preciso ter, ao menos para ele, alguma formação que lhe cacifasse para lograr êxito na empreitada.

De modo que, aquele novo período escolar, no âmbito do processo de educação formal – ou, como parte dela - fora iniciado com José Mário já trazendo algumas preocupações, expressas, aliás, por outras pessoas do seu entorno: o que faria para se bastar, uma vez que andava para os vinte e um anos e nada tinha de seu? Quando, como e com quem constituiria uma “família”? Esta última preocupação se lhe assoma ao espírito àquela altura do seu viver, por conta de uma guinada que dera um ano antes, fazendo-se ingressar na Primeira Igreja Batista de Alagoinhas, na condição de um de seus membros, estabelecendo um elemento a mais na sua construção mental. No entanto, apesar de algumas vezes pensar naqueles temas, compreendia de antemão, que nenhuma resposta objetiva e concreta poderia ser encontrada, enquanto não houvesse alcançado uma formação que lhe permitisse dar os passos necessários e indispensáveis para desenvolver quaisquer planos com o fito de avançar em qualquer direção que desejasse e/ou pudesse decidir.

É assim pensando, ponderando e considerando, que José Mário inicia o seu trajeto pela oitava série e, claro, levara como uma de suas preocupações fundamentais, no que tange ao corpo disciplinar que precisaria dar conta, a sua sempre “pedra no sapato”: a matemática. Como não poderia deixar de ser, principiara muitíssimo mal aquela maldita, fechando a primeira unidade com média de quatro e meio, por mera condescendência da sua professora, Zenilda, que lhe propusera algumas operações simples, para a nota atingir, ao menos, a média, que era cinco, fizera as operações por ela propostas e, conseguira, felizmente na prorrogação, não ficar com quatro e meio, que foi o que conseguira no tempo normal.

 

Alagoinhas-Bahia – março de 2025.

 

Professor José Jorge Andrade Damasceno.

 

E-mail: historiadorbaiano@gmail.com 

sábado, 22 de março de 2025

A SÉTIMA SÉRIE EM TRÊS TEMPOS III

– 1980: Ponto Final, depois de dois pontos parágrafos e algumas páginas em branco.

Retome-se aqui o caminhar daquele aluno em sua terceira investida no intento de prosseguir no seu esforço de vencer aquela série, por duas vezes deixada por concluir. Aqui, como nos textos anteriormente lidos neste espaço, a memória será evocada em socorro deste escrevente, uma vez que, é por meio das suas rememorações, que algumas ressignificações do passado a partir do presente fincados nas experiências posteriormente integradas às coisas lembradas, algumas das muitas situações vividas por aquele que a evoca, pode ser alvo das reflexões e de reinterpretações de quem as viveu e/ou, de quem possa ter tomado conhecimento com os elementos aqui recordados. Considerando apenas o subtítulo dado a este tratado, o leitor atento que vem caminhando a perscrutar os rastros deixados por José Mário nas sendas do seu processo educativo formal, deve estar a se perguntar, a onde está o ano de 1979, que não aparece neste escrito, uma vez que, a julgar pelo proposto na expressão que abre este arrazoado, aquele intervalo de trezentos e sessenta e cinco dias e noites que o compõem – longos e, por assim dizer, quase intermináveis, saliente-se - , foi omitido pelo seu autor.

Em parte o arguto leitor argumenta assertivamente, ao apontar o salto observado na construção do caminhar de José Mário, perturbado por um cipoal de pressupostos econômicos, culturais coletivos inerentes ao inter-relacionamento com a sociedade excludente em que estava “inserido”, ao qual ele precisaria fazer face, em meio a um emaranhado de raízes, caules, troncos e galhos – ainda verdes ou já secos há tempos – que se lhe procurava obstaculizar a passagem, o que o obrigava a empreender esforços braçais para abrir picadas, muitas delas ainda não palmilhadas por pés que precedessem aos seus. Foices, machados, picaretas ou facões, por inúmeras vezes, foram os seus instrumentos auxiliares na tarefa de aberturas de picadas em matas sociais espessas e, muitas vezes, quase inexpugnáveis. Ainda que entre temores e hesitações, sem tréguas para lamentar os fracassos, nem mesmo para contabilizar os ganhos, o que se havia era de enfrentar os desafios materiais e imateriais que constantemente lhe eram impostos, tanto ao corpo, quanto ao espírito.

No entanto, cabe destacar aqui, que a aludida omissão, não se deve a algum lapso de memória daquele que ora elabora este arrazoar. Trata-se, isto sim, de avançar “em busca” de desenrolar alguns dos fios formadores de um feixe de lembranças tecidas no transcurso dos tempos já pretéritos, que permitam compreender um processo iniciado três anos antes do “tempo” enunciado. Isto equivaleria dizer que, se pretende deixar aqui algumas páginas em branco como marco de um intervalo entre dois parágrafos, escritos nos arrazoados anteriores, páginas aliás, que, contraditoriamente, só estão em branco no texto que ora o leitor tem diante de si, uma vez que, algumas das “peripécias” de José Mário – no dizer de um dos mais assíduos leitores destes garatujares –, referentes ao ano aqui deliberadamente oculto, já foram abordadas no espaço virtual em que está hospedada esta publicação.

É assim que, nas páginas que se seguem, o leitor já encontrará José Mário retomando a sétima série pela terceira vez, dois anos após a ter abandonado em sua segunda tentativa de concluir, ou, como ele mesmo diria, se empenhar em  largar o pesado fardo de pedras no lugar a ele destinado, depois de ter deixado para trás, imerso em interrogações, um rio de matérias, temas e disciplinas que só lhe amofinava o cérebro, sem que ele pudesse saber “o que ali fazia”, nem para quê “tanto esforço dispendia”. Em suma, faltava um alvo a perseguir, para além daquele mais imediato, o concluir aquela série que já se lhe afigurava em franca decomposição e, passar para a seguinte. Mas, faltava saber o “para o quê” alcançar,  chegar no final daquele tão árduo  mourejar, em terreno tão áspero, quanto árido.

Desta forma, tendo passado todo o ano anterior em que procurara virar definitivamente a página do processo de escolarização formal, inscrevendo-se entre os cegos que se dirigiam ao Senai de Salvador, em busca de aproveitamento de sua mão de obra na já decadente indústria soteropolitana,  depois de ter patinado em tal empreitada, ei-lo de volta a Alagoinhas, com a “viola no saco”, com a “crista baixa” e, com “o semblante murcho”, dirigindo-se ao velho “estadual”, com o fito de, outra vez, se matricular naquela série abandonada inconclusa.

Portanto, conforme ele podia constatar, já àquela época, aquela nova troca de folhinhas e calendários de 1979 para 1980, só traria de novidade, um fevereiro com vinte e nove dias. Mas, nas cogitações de José Mário, ainda não estava o retomar daquele fardo de paus, pedras e areia enxarcada que ele por duas vezes largara pelo caminho, uma vez que, conforme se deu nas tentativas anteriores, ainda se não apresentava para ele, uma motivação clara; um objetivo concreto e palpável, que lhe ajudasse a responder as indagações de há muito postas em suas elaborações: “para que”, “por quê” ainda insistir em levar adiante um processo educativo formal, visto tal insistência ter se mostrado inócua e, saliente-se, terem se esboroado tudo aquilo que ele houvera esperado de tão infrutuosos esforços até ali envidados? Afinal, ele ainda tinha há não muitos dias daquele novo janeiro, mais um rotundo revés em seu intento de se fazer operário na indústria. A sua pretensão de vender a sua força de trabalho desqualificada malogrou, diante de um grande número de fatores, sendo um dentre eles,  a crise geral no sistema fordista de produção, que impulsionara a indústria brasileira até então. Por meio das características de organização e funcionamento da produção industrial inerentes ao referido sistema, os cegos eram aproveitados em alguns setores fabris, mormente, naqueles onde a coordenação motora e a desenvoltura do candidato a trabalhador eram prevalentes.

De tal sorte, no último dia do ano há pouco findo, ele se deu conta, de forma crua e rude – mas não sem surpresa, por conta da experiência anteriormente vivida, há apenas alguns meses -, que quase nada valeria o fruto do seu esforço laboral, pois, a remuneração que receberia em troca, sequer o permitiria morar em um pensionato, dos mais baratos de Salvador. Diante daquela constatação,  volta desolado para a sua cidade e sem trazer quaisquer perspectiva de futuro. Em nada podia pensar de plausível; em nada conseguia atinar que lhe parecesse exequível. Havia acabado de voltar as costas para mais uma inserção no trabalho industrial que pouco ou nada lhe acrescentaria a aquilo que se pudesse chamar de “experiência laboral”, nem mesmo, insista-se, à manutenção mínima de uma pessoa solteira, resultante da remuneração em forma de salário. O que faria: insistiria naquele tipo de inserção precária? Saliente-se que, àquela altura, ele desconhecia completamente os problemas estruturais que assolava o processo de industrialização no Brasil em geral e, na Bahia, em particular, levando-o a viver uma espécie de reviravolta conceitual, forçando o setor fabril a se reorganizar, no que tange às suas bases  estruturais, bem como dos elementos formadores da sua infraestrutura de organização e de funcionamento. Para ele, bem como para a maioria daqueles que participavam daquela expectativa de vender a sua mão  de obra de tal venda, obter um salário, as propostas de trabalho que lhe eram oferecidas pelo “Senai”, passava pela boa ou pela má vontade daquele intermediador, em relação a este ou aquele intermediado. Logo, compreendia que não houvera caído nas boas graças do homem do Senai, que decidia onde e quando cada cego sob o seu “comando”, ocuparia uma das cada vez mais raras e sempre mais precárias vagas disponibilizadas no já declinante parque industrial baiano.

Ainda assim, enquanto ruminava  tudo aquilo em seu cérebro, caminhava resoluto em direção do “Estadual” – mas ainda sem saber ao certo, por que e/ou para quê -, com a intenção de reiniciar pela terceira vez a sétima série do primeiro grau. Para tanto, precisaria voltar ao balcão da secretaria daquele estabelecimento escolar e, pedir ao seu titular, que lhe matriculasse outra vez, para ver se, naquela oportunidade, enfim, ele cumpriria todo o calendário letivo, logrando concluir a jornada por duas vezes abandonada. Tendo ingressado no prédio e se dirigido ao local pretendido, fora recebido por seu Faustino, secretário que já o conhecia de outras visitas, que prontamente atendera à sua demanda e, depois de ter procurado a sua pasta, já encaminhada para o “arquivo morto” da escola, o matriculara, indicando que em março as aulas teriam início, informando que ele estaria entre os alunos que cursariam aquela série, no turno vespertino.

Retomadas as aulas em março, conforme o tempo passava e José Mário se reajustava aos enfados de uma série outras vezes já cursadas, sem falar na dissonância entre a série e a idade de quem a cursava, pouco a pouco procurara construir a estrada para nela trafegar, se não com mais facilidade, ao menos, com mais conforto até o fechamento daquele processo pesado e moroso de escolarização. Ele procurara se aproximar dos novos colegas, com o intuito de permutar as experiências colegiais; da mesma maneira, buscou um interação mais propositiva com os professores, com o objetivo de receber deles apoio e apontar para eles a forma mais eficiente de desenvolver as atividades letivas com maior proveito para ele e com maior possibilidade de uma avaliação confortável e justa para aqueles.

Assim, José Mário passou a conversar com cada um dos seus novos mestres, tendo resultados melhores com aquela procura de interação aluno/professores. Com aquela que para ele era uma nova estratégia, José Mário acabou por entabular uma relação de trabalho com a professora da sua temível matemática, que,, por tão frutuosa, acabou ultrapassando o local e o tempo, sendo aquela professora respeitada por ele e, tendo ganhado dela igual respeito, que perdura até os instantes em que são escritas estas linhas. Ao se aproximar daquela professora, logo ele foi dizendo que não só não sabia, como não gostava de matemática; entendendo, contudo, que para avançar na seriação, seria preciso que ele fizesse um esforço para ultrapassar aquela barreira que lhe já impedira o avanço por outras duas vezes.

Compreensiva e dedicada, aquela professora se dispusera a ajudar aquele desempertigado e resistente aluno, a ao menos, aprender o suficiente para prover o seu necessário e desejado avanço. E assim se fez. Dissera ele que possuía uma versão em Braille do livro “Matemática”, desenvolvido pelo professor Benedito Castrucci (1909-1995). Disse para ela que sabia não ser aquele o compêndio adotado para toda a turma, pelo que, solicitava que lhe desse alguma sugestão de uma outra obra, que por meio dela, aquele aluno pudesse encontrar em Braille. Ela, porém, o tranquilizara ao informar que, embora não fosse de fato aquela a obra que adotara para o seu trabalho em sala de aula, ela a conhecia e  possuía, assegurando que lhe poderia sim, ajudar, com explicações extraclasse, feitas a partir da obra que o aluno tinha acesso.

Nem é preciso dizer que a disposição daquela professora foi uma “alavanca de Arquimedes” para aquele aluno, uma vez que o impulsionou para a frente, no sentido de perceber que, com aquela disposição professoral, ele precisaria procurar andar no mesmo passo, a fim de também fazer aquilo que lhe era devido: esforçar-se para compreender aquelas abstrações envolvendo letras, sinais, algarismos; álgebras, equações, inequações..., de forma que conseguisse se fazer avançar naquilo que intentava: concluir o primeiro grau. E assim se fez.

Algumas vezes tendo chegado em casa após uma tarde inteira de aulas, logo e, imediatamente, José Mário precisaria se deslocar até a residência daquela professora que se localizava no lado oposto ao seu lugar de residir, aproximadamente a três quilômetros, que precisavam ser vencidos por meio de transporte coletivo, de posse do volume em Braille, correspondente ao tema exposto, para ali dirimir as inúmeras dúvidas que se lhe ficavam das engenhosidades matemáticas por ela explicadas. Saliente-se, de passagem, que o problema não estava na “explicadora” mas, sim, no “explicando”.

No entanto, ao realizar as primeiras avaliações, ia, pouco a pouco, conseguindo obter notas intermediárias – pouco acima da média que permitiria alcançar o êxito escolar - que, ao fim e ao cabo, lhe permitiria, enfim, concluir aquela sétima série, pela terceira vez cursada. Tanto é assim que, ao final de novembro, todos estavam ali na sala, para ouvir e conferir as suas notas e médias, para saber se passariam direto ou, se, malgrado, ainda teriam que enfrentar mais algumas semanas de recuperação. E, como todos os demais, apesar de haver melhorado a sua compreensão e as suas notas, também José Mário ali estava, ansioso por saber se, enfim, estava passado em matemática, visto que, nas demais, possuía plena certeza de aprovação.

Sendo assim, ao entrar na sala onde se encontraria com os demais estudantes para saber o que lhes esperava para os próximos dias, a coordenadora disse que, os nomes que ali seriam lidos, eram os de tantos quantos iriam para a recuperação. Os não lidos, por conseguinte, estariam já de férias e passados para a oitava. Atento, José Mário acompanhava a leitura dos nomes e, a coordenadora passa pela letra J, após ter lido alguns nomes com a letra I, avançando para aqueles cujos nomes eram grafados com L. Como sempre, ele fora muito reservado e sem     expansividades. Depois de se assegurar que de fato houvera passado enfim para a oitava, levantou-se e se foi, com aquela sensação de que conseguira, ainda que com grande esforço tanto físico, quanto intelectual, ultrapassar aquela barreira que por um bom tempo se lhe afigurara intransponível, invencível, inexpugnável.

 

Alagoinhas – 22 de março de 2025

 

Professor Jorge Damasceno–

historiadorbaiano@gmail.com 

sábado, 15 de março de 2025

1985:QUARENTA ANOS DE UMA POSSE PRESIDENCIAL FRUSTRADA

Ele até que veio. Todavia, não conseguiu chegar.

 

O ano de 1984 no Brasil, em todo o seu transcorrer, foi marcado por grandes expectativas em relação ao desenlace da mais longa ditadura de caráter militar do período republicano – ditadura que alguns estudiosos classificam como “civil-militar -, tempo em que cinco generais do Exército brasileiro, ocuparam o poder executivo do país, deixando um rastro de dor, sangue e lágrimas, por todo o tempo de vigência do “regime de exceção” implantado vinte anos antes. Durante a escrita daquela “página infeliz da nossa História” – como dissera Chico Buarque de Holanda, em música lançada naquele mesmo 1984 -, alguns milhares de cidadãos, em nome de um pretenso combate a um imaginado comunismo, tiveram seus espaços de residência invadidos e pais, amigos, filhos, mães que foram conspurcados do seu interior e, posteriormente presos nos diversos espaços militares do espalhados por todos os estados e por todas as regiões do território nacional, sem quaisquer considerações no que respeitasse a idade e/ou  a condição social deles. Sobretudo – mas não só – sob a vigência do Ato Institucional Número 5 (AI5), algumas centenas ou, quiçá milhares daqueles denominados como “presos políticos”, foram tornados incomunicáveis, tiveram cerceado o direito a acompanhamento jurídico, sistematicamente torturados, seviciados – uma das vítimas, dissera em entrevista recente na imprensa, que “meteram o dedos em todos os buracos”, quando presa junto com a sua mãe, na mesma unidade onde estivera preso e fora assassinado o seu pai, contando 15 anos na ocasião do ocorrido -, outros foram mortos, em alguns casos, tiveram os seus corpos incinerados, enterrados em valas comuns ou em lugares de dificílimo acesso, lançados ao mar – em alguns outros casos, estando ainda com vida -, forçando a um grande números daqueles outros familiares que escaparam a um tal destino, a fazer verdadeiras peregrinações pelos diversos órgãos de repressão, buscando – e por vezes recebendo – apoios de várias entidades tais como “OAB”, “ABI” e, alguns setores da Igreja Católica, com o objetivo de obterem informações de seus parentes presos, de receberem indicações do que foi feito deles e, onde foram sepultados, no caso de terem sido mortos.

Era janeiro e, quase ao seu final, comemorara-se o aniversário da cidade de São Paulo e, em meio àquela efeméride, deu-se início a uma campanha, posteriormente denominada de “Diretas Já”, fazendo alusão às eleições presidenciais que se avizinhavam, que desde o golpe perpetrado em 1964, fundamentados em “Entulho” legal desde então construído, eram feitas em um “Colégio eleitoral”, formado por deputados e senadores da República, por meio do qual era legitimada a candidatura apresentada pela cúpula militar. A referida campanha, era encetada, com vistas a que se permitisse a volta do sufrágio universal para que o próximo presidente fosse eleito pelas urnas. Artistas, políticos, religiosos e civis em geral, se fizeram presentes em palanques armados em várias capitais brasileiras, no transcurso de todo aquele último ano de governo daquele que seria o último dos generais presidentes. A campanha ganha fôlego com o avançar dos dias e, um deputado acaba por apresentar um projeto que pudesse enfim, acabar com a eleição presidencial por meio do Colégio Eleitoral e, se fizesse por via direta, com participação de todos os eleitores em tão importante escolha.

Embora se soubesse que a bancada oposicionista não possuía os dois terços dos votos necessários para a aprovação da Emenda Dante de Oliveira, como ficou conhecida, alimentou-se a esperança de que alguns deputados da base governista viessem a ser convencidos da necessidade daquela mudança e, para tal, mobilizou-se “a rua”, em grandes comícios como o da  Cinelândia no Rio de Janeiro, entre outros, com cada vez maior número de pessoas sendo atraídas para aquelas manifestações. Sem qualquer surpresa, a emenda constitucional foi derrotada em plenário e, só restou aceitar a realização da eleição de um homem da oposição, mesmo no Colégio Eleitoral Seria uma espécie de enfrentar o inimigo em seus domínios e com as suas próprias armas.

Desta forma, um experiente político mineiro foi o escalado para travar aquela batalha. Tendo sido um dentre aqueles que estivera ao lado do presidente deposto por aqueles militares que ora deveriam ser apeados do poder que usurparam, aquele mineiro de fala mansa e de excelente transito entre os partidos, mesmo o que dava apoio incondicional aos chefes militares do executivo por todo aquele tempo, costurara uma aliança que envolvia quase todo o espectro político do país, conseguindo enfim, reunir em torno do seu nome, os principais votantes no Colégio Eleitoral, o que se constituiu em manobra fundamental, que permitiu que o seu nome fosse sufragado, para que passasse a ser o novo presidente do Brasil, sendo o primeiro civil a ocupar aquele cargo, desde 1964, quando João Goulart fora defenestrado da presidência, por meio de um golpe promovido pelas Forças Armadas.

É assim que, depois da frustração enfrentada por aqueles todos que queriam as "diretas já", Tancredo de Almeida Neves (1910-1985) acabou eleito pelo colégio eleitoral, para suceder o último presidente general, cuja conclusão do mandato se daria em 15 de março de 1985, ocasião em que o primeiro presidente civil em 25 anos passaria a ocupar o Planalto. Ele até veio, tendo feito um discurso antológico, logo depois do resultado do sufrágio; até escolheu as pessoas com as quais queria trabalhar o processo de redemocratização do Brasil, chamando-as para compor o seu corpo de ministros; fez até algumas viagens internacionais, para se apresentar como o futuro mandatário do seu  país; e, acreditou-se mesmo que o Brasil caminharia na direção da superação do autoritarismo que lhe marcou os passos nos últimos vinte anos, onze meses e quinze dias,  completados naquele ano em que o seu governo se iniciaria. todavia, não conseguiu chegar ao local da posse, para receber a faixa presidencial, pois, na noite que antecederia a transmissão do cargo,  deu-se o internamento de Tancredo Neves no hospital de Base em Brasília, culminando com a sua morte, cerca de trinta e seis dias depois, no Instituto do Coração, em São Paulo, frustrando, uma vez mais, todas as expectativas daqueles que tanto tempo esperaram pelo fim da ditadura cívico militar, que matou, torturou, fez desaparecerem pessoas e os seus corpos, em vinte e um anos de vigência de sua nefasta subjugação da frágil e excludente democracia brasileira. 


Professor Jorge Damasceno

- historiadorbaiano@gmail.com

sexta-feira, 7 de março de 2025

A SÉTIMA SÉRIE EM TRÊS TEMPOS II

 

1978: Sem Escola, Sem Jogo de Bola, sem garota cortejada.

 

O escrito que o leitor ora tem diante de si, procura continuar a discorrer sobre os descaminhos de José Mário, no seu labutar com o seu processo de escolarização formal, apontando para os seus descontínuos lidares com a “sétima série”. Aqui, se pretende retornar ao percurso que ele procurou cumprir, com vistas a alcançar êxito em completar a aquela série, cuja primeira exposição foi desenvolvida no primeiro dos três arrazoados com os quais se pretende ocupar, de acordo com o proposto no título dado a este rememorar, fundamentado em um tempo pretérito.

 No dizer de Ecléa Bose (1936-2017), o rememorar é sempre um processo desencadeado a partir de uma evocação, a partir da capacidade daquele que pretende tornar presente uma ou mais lembranças, a partir daquilo que viveu ou conheceu do passado. Diz a autora de “Memória e sociedade: lembranças de Velhos” (1994) que, “Não há evocação sem uma inteligência do presente, um homem  não sabe o que ele é se não for capaz de sair das determinações atuais.  Aturada reflexão pode preceder e acompanhar a evocação”. A “inteligência” que aparece no trecho citado, quereria dizer discernimento, na medida em que, aquele que evoca, precisaria perceber claramente, o que seria aquilo que lembra ter sido vivido em um tempo mais pretérito, e o que se trata do que é vivido no presente.

Ainda nesta mesma formulação, no período subsequente, Bosi sustenta uma assertiva incontornável para se conhecer e se compreender o lembrar, ao afirmar que

 

[...]. Uma lembrança é diamante bruto que precisa ser lapidado pelo espírito. Sem  o trabalho da reflexão e da localização, seria uma imagem fugidia. O  sentimento também precisa acompanhá-la para que ela não seja uma  repetição do estado antigo, mas uma reaparição.(BOSI, 1994, p. 81). 

 

Conforme já foi dito em escritos anteriores, para José Mário, a passagem de 1977 para 1978, nada mais foi do que uma troca de calendários; uma substituição das velhas folhinhas de um ano que acabara de passar, por outras novas, para marcar o ano que acabara de começar. Para ele, quase tudo ficou por se fazer, se concluir, se começar. Entrara enfim no ano em que completaria dezoito anos, malgrado ter que esperar todo o ano iniciado em janeiro, para se tornar, finalmente, “de maior”, mal sabendo o que isto queria dizer, a não ser que, teoricamente, se faria independente!; no entanto, nem suspeitava que se tornaria independente apenas do ponto de vista formal; a autoridade e o sustento maternos se afirmavam e se faziam imprescindíveis – a pesar dos poucos recursos que possuía a executora de atividades precárias e informais -, a despeito daquela sua pretendida independência. Nem sequer o rapaz suspeitava que a autonomia financeira, aquela que de fato faz uma pessoa socialmente independente, demoraria tanto tempo para se fazer presente em seu viver, muito menos, que precisaria esperar cerca de dezoito longos anos mais à frente.

Portanto, logo no primeiro mês daquele “novo ano”, ele precisou efetivar a sua matrícula e, tomara uma decisão que já estava urdida em seu cérebro, desde que abandonara aquela primeira sétima série, há apenas uma unidade de sua conclusão, cuja duração, poderia corresponder a cerca de dois ou três meses, além daquele em que se retirara do processo. Enfim, decidira que pediria que fosse matriculado no noturno que, conforme já se disse, acreditava ser o turno adequado para a sua idade e a série que iria cursar.

Paralelamente a esta movimentação de José Mário no sentido de reingressar no processo formal de escolarização, ele estava se envolvendo com uma outra novidade para o seu estreito conhecimento do mundo vivido por aqueles que, tal qual ele, não enxergavam. Embora sem grande entusiasmo – como aliás, é comum em seu comportamento, quando se trata de alguma coisa que possam envolver mais do que três ou, no máximo, quatro pessoas, ou ainda, que precise expor publicamente as suas habilidades e/ou inabilidades, (rotulado como “antissocial”) -, juntamente com um seu amigo, que acabara de retornar a residir em Alagoinhas, passaram a criar e participar de um time de futebol de cegos na cidade.

No entanto, a despeito de ter participado de alguns jogos, por cerca de um ano, na condição de zagueiro sentado – como ele mesmo se descrevia – , passando por algumas cidades como Salvador, Feira de Santana e Candeias, ao contrário do seu amigo idealizador do dito time, José Mário, como se poderia imaginar, logo se afastou do folguedo, sobretudo, por ter compreendido em tempo, saliente-se,  não ter qualquer habilidade para dominar aquela bola que, ainda que com guizos para que se pudesse orientar, teimava em lhe escapar do controle, fugindo caprichosamente do seu alcance de defensor desastrado. E, certamente, percebera que nada alcançaria de relevante, ao se envolver com aquele “correr” inútil atrás de uma bola que nunca se deixaria dominar por ele. Se houvesse uma votação para escolher o melhor e o pior dos jogos, sem a menor dúvida, ele seria campeão imbatível, naquela última modalidade: “o pior em quadra”.

Tal compreensão, certamente, veio de sua participação em uma daquelas partidas, precisamente, aquela que se fez realizar em Candeias – região metropolitana de Salvador -, quando tomou um coice do atacante do time formado por cegos de  Salvador, que lhe valeu a retirada de quadra, antes do final da partida. Com o joelho doendo bastante; com dificuldade até mesmo para caminhar em direção ao local onde se reuniriam para o almoço, aquele “zagueiro sentado” ficou a ruminar acerca daquilo, talvez se perguntando: para quê?

Naquele dia, aliás, morria o papa Paulo VI, notícia que ouvira no rádio, ao chegar em casa, ainda mancando e com o joelho inchado. Claro que ele ocultara o joelho avariado, da vista de sua mãe; tivera que se virar como pudera, para amenizar as dores e, esperar que o caríssimo joelho se recuperasse naturalmente. O que, felizmente aconteceu. Contudo, José Mário não mais voltou a atuar no dito time de futebol de cegos de Alagoinhas, como acabou sendo conhecido.

Mas, retome-se o caminhar de José Mário, em seu já tardio processo de escolarização formal. Chega março e, com ele, o início do ano letivo, que se daria em um novo turno, como já se adiantou há algumas linhas, em que José Mário haveria de reiniciar o palmilhar do caminho há pouco interrompido. Teria, portanto, que encarar a sétima série, pela segunda vez, com aquele ar de alguma coisa que já cheirava a mofo, a curtume pleno de couros esticados, recém-saídos de animais há algum tempo abatidos ou, com ares de necrotério; com aquela disposição já arrefecida e com forças já diminutas, que, malgrado todo aquele sentimento, precisaria seguir, embora, não atinasse para onde ou mesmo,  para que fim.

Ao ultrapassar aquele já seu conhecido portão e, ingressar nas dependências do Centro Integrado Luís Navarro de Brito, o “Estadual”, com o qual já estava familiarizado, José Mário se deparou com colegas estranhos; nem sequer, um seu conhecido; professores diferentes e, sobretudo, indiferentes; talvez já cansados de jornada há muito iniciada – quer do ponto de vista diário, dividido em três turnos, quer do ponto de vista dos anos já passados em um jornalhar quase sem razão e sem fim, a não ser, o do sobreviver seu e dos seus – e, ele mesmo, sem ânimo e sem conseguir perceber sentido em tudo aquilo, encarara aquelas idas e vindas insossas, insípidas, inodoras, infrutíferas  e, portanto, inúteis. Todavia, ele teria de seguir; e, seguiu, até quando deu.

Os restantes meses daquele ano se passaram, como que arrastados em sua pesada marcha, como se fossem puxados por equinos – ou seriam muares; ou asininos, quem sabe, um velho jegue esquálido, arrancado de alguma seca no semiárido  brasileiro? - já quase sem forças, esfomeados, doentes e cansados, cujo passo, a cada centímetro arrastado, se fazia ainda mais arquejante, vacilante e quase imperceptível, à observação daquele impaciente vivente. Abril, maio, junho... E, nada de chegar dezembro, nada de avanço no aprender, no apreender, no compreender, sobretudo, ela, a já infame matemática dos seus inúmeros pecados! Não dá mais; e não deu. Nem deu, nem ficou qualquer memória de colegas ou professores com quais tivera interagido, salvo um, o de matemática, embora, felizmente, ele tenha esquecido o seu nome, mesmo não havendo esquecido o modo como ambos se trataram logo no primeiro dia: frios, solenes, equidistantes, dispostos a se afrontarem, porém, sem se defrontarem.

Aquela interminável espera foi mitigada por desvios de caminhos, que José Mário implementara, quando já se encontrava incomodado por todas aquelas noites enfadonhas que precisava encarar naquela sala de aulas, que tanto molestava o seu espírito. Ao invés de ir para o “Estadual”, ele se dirigia até a casa de uma de suas ex-colegas, que conhecera no ano anterior e, por quem se afeiçoara; mas, as visitas eram marcadas por intermináveis conversas sem destino a chegar, conduzidas pela sua timidez e, sobretudo, pelo seu medo de um duplo perder: perder aquela a quem cortejava – a quem chegara a dedicar algumas serenatas -; e, por via de consequência, perder também a condição de amiga, tão poucas eram! Mas, em suma, aquelas visitas regulares à cortejada, o ajudaram a passar aquele tempo que teimava em não querer passar. Mesmo não tendo sabido de qualquer manifestação em seu favor ou em seu desfavor, por parte daquela a quem dedicara algumas malbaratadas músicas, tropegamente tocadas ao violão, tal investida, de pretensa cortesania, fora um lenitivo àquele lento passar de dias, que o ajudara a se sentir um pouco melhor naquele caminhar quase inglório.

Enfim, depois de longa tergiversação e de não pequeno procrastinar, José Mário assumira que não permaneceria vivendo naquele “faz de conta” que ia para a escola e que ali estudava, situação já enfastiante para ele e, jogara a toalha. Não é possível precisar se lograra alcançar setembro; se ao menos fizera alguma avaliação, principalmente da temida matemática, cujo professor era um ser tão estranho, quanto indiferente; talvez, ele fosse um militar – sem que se saiba dizer se de força militar estadual ou da Armada Federal –, que pouco se importava com aquele aluno arredio, provocador, que ousava fumar charutos em sua aula, acintosamente dizendo ser maconha! Para aquele professor, tanto melhor que aquele aluno avesso a ele e à sua matéria, fosse reprovado; um estorvo a menos o seria para ele. De certo mesmo, o que se pode aqui afirmar, é que José Mário, uma vez mais, deixara para trás uma sétima série, por ele mal frequentada, em cujo transcurso, pouco fez para avançar, sem se submeter a quaisquer tipos de avaliações, por meio das quais, ao menos, viesse a ser  testado em seus “avanços”; preferindo o recuo à derrota, o que seria dos males o menor, assim o cria. Retomaria aquele seriar um dia? Naquele instante, ele não saberia responder; a sua disposição, porém, era de tomar o rumo do trabalho, tão logo alcançasse a maioridade, status que o final daquele ano lhe deixara e, que o início do outro lhe encontrara.

 

Alagoinhas, 07 de março de 2025

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com

sábado, 1 de março de 2025

Ainda 1977 – Um Post-scriptum

 

ao rememorar, mais uma digressão percorre o espírito.

 

Aqui, caberia um “post-scriptum” à última das “Seis digressões sobre uns tempos idos – VI”, para que este escrevedor procure desenvolver mais uma digressão em torno do dia a dia de José Mário envolvendo os dias que se seguiram ao seu malogrado e precoce ingresso em atividade laboral remunerada, refletindo sobre um momento do seu mourejar, que, como se perceberá no transcurso deste enunciado, talvez possa se situar em um lapso de tempo que medeia entre o fim do curto período em que José Mário fez a sua inserção extemporânea naquele que mais tarde se convencionou denominar de “mundos do trabalho”, ou como diriam os pensadores econômicos, o seu curto período de inserção no contexto em que se agrupa a chamada “população economicamente ativa” e a sua quase imediata exclusão daquele conjunto de pessoas que laboravam em busca de salário – embora, sequer tenha sido inscrito nos registros estatísticos, uma vez que o seu ingresso na atividade laboral foi informal e efêmera -, inserção que se tornou uma experiência frustrante para aquele rapaz que pretendia se apresentar ao mercado de compra de força de trabalho, mercado que apenas o receberia como alguém que poderia vir a compor um “exercito de reserva de mão de obra”, que apenas serviria para exercer um certo controle sobre a massa salarial, permitindo o mercado comprador daquela mercadoria, então em grande expansão da correlação “demanda/oferta” – com razoável prevalência da segunda sobre a primeira -, exercer o controle do crescimento dos seus preços, forçando o aviltamento do seu valor. Com isto, agregaria lucro “mais valia”, ampliando assim a pressão sobre eventuais demandas por melhorias dos valores pagos pela utilização da força de trabalho que já se encontrava sob o seu domínio.

Ainda em Alagoinhas, tendo deixado para trás as salas e carteiras escolares do “Estadual”, não mais pertencendo ao conjunto dos quase sete mil alunos que frequentavam aquele estabelecimento de ensino, José Mário, despojado de quase tudo que intentara desenvolver naquele ano de 1977, passava a imaginar o que faria para superar aqueles acúmulos de desastres e de decisões tomadas sob a égide do desespero e da necessidade de fazer frente às demandas que se lhe apresentavam, a despeito de não dispor das ferramentas adequadas para o fazer, se colocando em um cruzar de pensamentos e ideias que lhe fervilhava no cérebro e na alma. 1978 era logo ali; as suas perspectivas em relação àquele ano que se aproximava, se limitavam ao trocar de calendário. Ainda estava por completar dezessete anos e, nada de concreto levaria para o iniciar do ano dezoito, o que bastante o afligia, na medida em que a maioridade se aproximava célere e, noves fora a obrigação  de se alistar e de tirar o seu título de eleitor, nada mais se lhe afigurava de concreto para o ano que já estava quase às portas.

Conforme se vem apontando ao longo dos arrazoados anteriores, tomando-se como base o postulado de Ecléa Bosi (1936-2017), que diz ser a memória “[...] um cabedal infinito do qual só registramos um fragmento. [...].” (BOSI, 1994, p. 39), o que significaria afirmar que o rememorar de um caminhar individual e/ou coletivo, estaria diretamente imbricado no viver o presente, uma vez que é nele que a lembrança se apresenta ao espírito daquele que lembra. Talvez, este pressuposto ajude a aqueles que ora percorrem estas linhas, a entender um pouco melhor o que pretende o seu autor, ao procurar trazer alguns dos elementos do cotidiano de José Mário, na medida em que, apresenta alguns lembrares daquilo que se referem a um tempo passado, embora, já ressignificados pelo presente. Mais adiante, a mesma autora sustenta que “[...], a lembrança pura, quando se atualiza na  imagem-lembrança, traz à  tona da consciência um momento único, singular, não repetido, irreversível, da vida. Daí, também, o caráter não  mecânico, mas evocativo, do seu aparecimento por via da memória. [...].” (BOSI, 1994,p. 49). Portanto, há um esforço no sentido de se fazer uma busca pelo rememorar de um  certo “passado”, que talvez ainda não tenha “passado”, no dizer do francês Henry Rousso “Un Passé Qui ne passe pas”. Mais ainda: conforme a ilustração trazida pelo italiano Enzo Traverso, em obra de 2012, “[...], a memória nunca é cristalizada; mais se parece  com um estaleiro aberto, em contínua operação. [...]. (TRAVERSO, 2012, p. 23).

Tomando Halbwach (1877-1945) como referência basilar para a sustentação dos seus postulados, Bosi arremata, para as finalidades da reflexão aqui proposta, assegurando que:

 

[...]. A lembrança é uma imagem construída pelos materiais que estão, agora, à nossa disposição,  no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual.  Por mais nítida que nos pareça a lembrança de um fato antigo, ela não é  a mesma imagem que experimentamos na infância, porque nós não  somos os mesmos de então e porque nossa percepção alterou-se e, com  ela, nossas idéias, nossos juízos de realidade e de valor. O simples fato  de lembrar o passado, no presente, exclui a identidade entre as imagens de um e de outro, e propõe a sua diferença em termos de ponto  de vista. (BOSI, 1994, p. 55).

 

Assim, partindo das premissas encontradas nas formulações acima evocadas, é que se pretende discorrer sobre mais um rememorar daquele que ora escreve estas linhas, procurando estruturar alguns nexos que propicie reflexões sobre os elementos que forjaram uma parte da trajetória daquele que se esforçava por se imiscuir no curso do tecido social que o envolvia, sobretudo, na sua procura por se fazer participante da vida econômica. José Mário, instigado pelas proposições da sua genitora, começava a perceber que o tempo não mais lhe era favorável, no sentido de insistir em se esforçar para obter a conclusão do seu processo de escolarização formal. Ele começava a pensar que, não faria mais qualquer sentido, ainda matricular-se para refazer a sétima série, no mesmo turno  em que malograra naquela primeira tentativa. Além de não querer mais se encontrar com os antigos colegas, que no ano seguinte já estariam na oitava série – por vergonha e, com um naco de vaidade ferida -, era para ele um tanto fora de propósito, ter sua matrícula inserida entre aqueles alunos, que, certamente, seriam ainda mais moços do que ele. Com isto em mente e esmagado por aquelas impetuosas vagas de pensamentos que se lhe ocupava a massa cinzenta; premido pelas circunstâncias e, empurrado pela necessidade premente de alcançar os degraus que precisaria vencer para “ser alguém na vida” e, sobretudo, convencido de não haver outro jeito para fazê-lo – mesmo já quase descrente de que aquilo assim seria, isto é, que o processo de escolarização formal  lhe daria acesso aos meios que precisava para “vencer” a pobreza, a falta de quase tudo, inclusive a de perspectiva, saliente-se ainda uma vez, de passagem -, ele procurou se matricular no noturno, período em que, acreditava, estaria em meio a alunos mais ou menos da sua mesma idade, e, talvez, com o seu mesmo nível de atraso, no concernente à tal de “idade escolar” adequada.

Passados os distantes folguedos e as inacessíveis festinhas de final de ano, a realidade gritava freneticamente em sua cara que mil novecentos e setenta e oito acabara de chegar. Impertinente e indiferente, ele se apresentava à vida de José Mário, fazendo com que percebesse uma obviedade, que talvez não estivesse tão clara para aquele que há pouco, entrara em sua décima oitava volta em torno do sol: o tempo não só não para, como também, não espera. Isto acaba por  exigir dos terráqueos, uma  contínua ação e constante reação, no sentido de se ajustar ao ritmo de seu curso, que se mantém, invariavelmente, em cadência permanente. O tempo que rege o viver humano, portanto, passa inexorável, implacável  , indiferente às dificuldades que alguém venha ter na compreensão do seu “passo” e/ou nunca parando nem recuando, à espera de que sejam destravados os impasses dos caminhantes..

É pouco provável que se possa alcançar o que estivera no seu íntimo, nem mesmo no seu ânimo, quando José Mário procurava refletir o ano que já se findara e com ele as perspectivas não atingidas e, de que maneira pensava encarar aquele outro em que completaria a maioridade. No entanto, talvez se possa especular, a despeito do lapso de tempo já deixado para trás,, por meio de alguns fragmentos de memórias que se se apresentam no momento de lembrares presentes, partindo de algumas observações em torno dos rastros deixados pelas  suas pegadas no terreno pisado entre os meses finais daquele 1977 e, quase todos os transcorridos no ano que logo, logo se iniciaria.

Portanto, foi entre os acordes de “maluco beleza”, “Tigresa” e “Sonhos”, que José Mário transitou todo aquele último trimestre do ano, se envolvendo em um episódio, embora memorável, sequer cogitável no início do seu percurso anual – aliás, nem mesmo a sua ida à cerimônia de posse dos novos Edis e do alcaide, acontecida no primeiro dia do ano, fora por ele cogitado, em algum momento. O episódio aludido, se deu mais ou menos nos finais de outubro, quando, incentivado pelo seu professor de violão, José Mário resolveu concorrer em um concurso de calouros, na condição de intérprete, em uma festa tradicional do bairro, realizada anualmente na Praça Santa Isabel, a “Festa da Mocidade”.

Cabe informar ao leitor, que aquela ideia não partiu dele, embora a ele coubesse a decisão de sua execução, evidentemente. A ideia apareceu, depois que José Mário participara de simulações de programas de calouros, ora, na condição de jurado; ora na condição de intérprete, desenvolvidas pelo professor, juntamente com os seus filhos, como forma de descontração e, como eles diziam, como uma forma de desinibir, quiçá, futuros artistas. Aquela brincadeira transcorria em um amplo espaço lateral à residência para onde ele acorria com o fito de receber os ensinos que lhe eram propiciados pelo pai daqueles filhos, os quais ele considerava “gênios”. A partir das lições ali recebidas, José Mário pretendia conseguir dominar aquele instrumento que tanto apreciava, escutado por meio das audições de rádio, nas quais gente como Wilson Dantas, Raimundo Espinheira, entre outros, quando executavam magistralmente o “pinho”, em um programa levado ao ar pela então Rádio Emissora de Alagoinhas, a (ZYC31) - não sendo possível para este escrevedor precisar com qual intervalo, se semanal ou diário -, entre as vinte e as vinte e duas horas.

Assim, em uma de suas participações naqueles programas simulados, na condição de intérprete, José Mário surpreendeu a todos – até mesmo a consorte do professor, que raramente aparecia para pessoas estranhas ao seu convívio familiar, assomou à porta para ver o que se passava -, ao levar a música de um desconhecido “Matusalém”, para defender junto àqueles jurados mirins e o seu professor. Durante toda a execução da música “As Aventuras de Matusalém”, tanto os jurados, quanto o seu mentor, não conseguiam conter as gargalhadas, por conta do caráter pouco usual da composição apresentada. Mesmo assim, o intérprete foi aplaudido e, portanto, o vencedor da noite.

Talvez fosse final de setembro ou meados de outubro e, se avizinhava a já mencionada “Festa da Mocidade”. Acreditando poder concorrer a algum prêmio que, de outra forma não alcançaria ter como adquirir, como um violão, por exemplo, José Mário começou a procurar alguma música com a qual viesse a participar dos programas de calouros, daquela vez, não mais simulados. Mesmo a festa já tendo sido iniciada, o candidato a calouro não atinava o que cantaria no dito certame, visto que, os candidatos do início da semana, foram todos desbancados, um a um, por uma magistral interpretação de “Sonhos”, composição de Peninha, com um primoroso acompanhamento e voz firme e bonita, ostentada por um garoto que, talvez contasse coisa de 12 anos se muito, pois, a sua voz ainda não houvera sofrido as alterações inerentes à adolescência. Chegando em casa em uma daquelas noites de domínio absoluto do garoto, eis que José Mário, ao sintonizar a Rádio Mundial do Rio de Janeiro – mas, também pode ter sido a Rádio Jornal do Brasil, cuja transmissão era realizada a partir daquela mesma cidade -, ouvira pela primeira vez a música recentemente lançada por Raul Seixas: “No Dia em que a Terra Parou”.

Ele, por certo, entendia que, tentar interpretar aquela melodia, seria um risco que correria, por ser uma música que os instrumentistas encarregados pelo acompanhamento dos calouros não conheciam e, claro, José Mário não a saberia executar corretamente ao violão, por ser ainda neófito no manejo daquele instrumento. Não obstante tudo aquilo, no dia seguinte, ainda bem cedo, correu para o centro da cidade e, com a benevolência dos proprietários da “Revidisc Magazine”, ele pôde ouvir, memorizar e, em casa, transcrever para o papel, em Braille, aquela letra que tanto o impactara, apesar do seu pouco entendimento, acerca da mensagem que o “maluco beleza” queria passar.

No entanto, o risco maior estava na execução da música por parte do conjunto oficial da festa, conforme aludido linhas acima. Porém, depois de arranhar satisfatoriamente as notas e os acordes, cria, partiu para o tudo ou nada. No penúltimo dia da festa, quando aquele menino de voz firme e melodiosa batia a todos os seus concorrentes, José Mário se inscreve e, vai defender aquela música que ninguém conhecia e, por conseguinte, ninguém a conseguiria tocar a contento, para o acompanhar. Arriscou. Pegou uma das guitarras dos meninos do “Fantástico” – nunca sequer houvera tocado em uma antes – e se acompanhou, não sem atropelos e tropelias, acabando por desbancar o vencedor de todas as noites anteriores, indo assim para a final no último dia da festa.

Bem mais tarde, ao rememorar e refletir sobre aquele episódio, José Mário acabou por reconhecer que o seu êxito naquele programa de calouros não fora justo, uma vez que, embora tenha conseguido cantar corretamente a música que escolhera, cometera inúmeras falhas na sua claudicante execução à guitarra, como se fora aquele time que vence a partida com um gol em completo impedimento do atacante, nos últimos minutos do jogo. Diante de tal constatação, entendeu que a sua vitória naquelas duas noites, deveu-se, ainda que não exclusivamente, à sua condição de cegueira. Evidentemente, ao chegar a aquela conclusão, sentiu-se humilhado, pois, o garoto que vencera todos os demais concorrentes, em todas as edições anteriores do programa de calouros, tivera uma performance infinitamente melhor do que ele. E mais: começara a entender um pouco, o porquê que, conforme o entendimento firme e profundamente fincado no imaginário social, a pessoa cega é compreendida como sendo naturalmente dotada de capacidade inerente à sua condição sensorial, para interpretação musical e/ou instrumental. Este fundamento, equivocado, saliente-se, poderia ter levado os jurados a ignorarem todo o desempenho dos demais concorrentes de José Mário naquela refrega musical. Por conta disto, ele nunca mais participou de certame semelhante.

 

Alagoinhas – 01 de março de 2025.

 

Professor Jorge Damasceno– historiadorbaiano@gmail.com