domingo, 25 de janeiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XVII.


O Intervalo – II.

 

Os elementos que concorrem para o desencadear de lembranças, não concorrem na mesma medida, quando elas precisam ser ordenadas. O escavar das memórias, de acordo com o que é encontrado em Macel Proust (1871-1922), quase sempre é precedido por um fragmento inesperado, encontrado em algum processo sensitivo inerente ao viver humano, NO caso de Proust, tal desencadear se deu no momento mesmo em que ele provou um biscoito que lhe era servido com chá, em casa de suas parentes. Ao voltar a vivenciar aquele momento alguns anos depois, como que reabre a sucessão de eventos que passa a narrar na primeira pessoa, ordenando no tempo e estruturando em elaborações longas e densas, por meio do que, ele “rememora” um bom número de pessoas e eventos, a partir dos quais elabora construções que acabam por serem tomadas como tratados sobre o modo como funcionaria a memória social, fundamentada em um conjunto de outras memórias, por vezes superpostas. Ele assim se exprime em obra de sua lavra, hoje já clássica, “A Procura do Tempo Perdido - Para o lado de Swann”:

 

“[...]. Mas, no mesmo instante em que a colherada misturada com farelos do bolo tocou o meu palato, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Um prazer delicioso me invadira, isolado, sem a noção da causa. Ele imediatamente tornou as vicissitudes da vida indiferentes para mim, seus desastres, inofensivos, sua brevidade, ilusória, do mesmo modo que o amor age, enchendo-me de uma essência preciosa. ou melhor, essa essência não estava em mim, era eu. Parei de me sentir medíocre, contingente, mortal. De onde poderia ter vindo essa poderosa alegria? Sentia que ela estava ligada ao gosto do chá e do bolinho, mas o ultrapassava infinitamente, não devia  ser da mesma natureza. De onde vinha ela? O que significava? Onde  apreendê-la? Bebo um segundo gole no qual nada encontro a mais  que no primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o  segundo. É tempo de parar, a virtude da bebida parece diminuir. É  evidente que a verdade que procuro não está nela, mas em mim. Ela  a despertou, mas não a conhece, e só pode repetir indefinidamente,  cada vez com menos força, esse mesmo testemunho que não sei interpretar e o qual quero ao menos lhe pedir de novo e reencontrar  intato logo em seguida, à minha disposição, para uma iluminação  decisiva. [...].” (PROUST, 2022, p. 70-71.

 

Conforme pode perceber quem ora lê estes garatujares, embora Proust tenha sentido uma espécie de tempestade mnemônica, tal não se deu em meio à certezas; ao contrário. Inúmeras foram as interrogações que se lhe assomaram ao espírito, ao ponto de tentar repetir o fenômeno, mediante mais duas ou três colheradas do chá com bolo. No entanto, o primeiro desencadear ao toque do composto no seu palato, fê-lo como que reconstituir parte de um passado há muito submerso na memória, o que lhe permitiu escavar profundas camadas superpostas, pouco a pouco trazidas à superfície e, transformadas em textos densos e profundos, estabeleceu parâmetros sobre os quais trabalham aqueles que se exercitam na tarefa de rememorar aquilo que vivera, tanto no que diz respeito ao seu viver pessoal, quando ao que se refere à elaboração coletiva de uma memória comum.

É ainda na direção desenvolvida por Proust que caminha García Márquez (1927-2014) em seu “Viver para contar”, quando ao rememorar a viagem feita com a sua mãe para o lugar onde vivera, com o fito de vender a propriedade da família. Reportando-se ao episódio em que a sua mãe é recebida por um  seu velho conhecido da aldeia onde crescera, García Márquez apresenta um rememorar que lembra o trecho transcrito acima, provavelmente, indicando já conhecer o que fora desenvolvido pelo autor francês. Diz ele:

“[...]. Desde que provei a sopa tive a sensação de que todo o mundo adormecido despertava na minha memória. Sabores que tinham sido meus na infância e que perdera desde que me fui embora da aldeia reapareciam intactos com cada colherada e apertavam‑me o coração. Desde o princípio da conversa que me senti diante do doutor com a mesma idade que tinha quando lhe fazia partidas pela janela, de modo que me intimidou quando se dirigiu a mim com a seriedade e o afecto com que falava à minha mãe. Quando era pequeno, em situações difíceis, procurava dissimular a minha atrapalhação com um pestanejar rápido e contínuo. Aquele reflexo incontrolável voltou‑me de imediato quando o doutor olhou para mim. [...].” (MÁRQUEZ, 2003, p. 39).

Portanto, os rememorares, via de regra, precisam de dispositivos que ajudem o seu desencadear, promovendo uma avalanche de fragmentos que puco a puco fão sendo agrupados em construções mnemônicas, sempre tendo em vista que tais construções tem o presente como elemento desencadeador de uma reconstrução do passado, através de uma consciente ação de seleção do que lembrar, do como e do quando lembrar; do que trazer a público; do que falar, do quando falar e do que silenciar, bem como, do que esquecer. No caso específico deste que ora escreve estes caracteres alfanuméricos, as músicas e os cheiros que se lhe assomam à memória, em geral, são os desencadeadores de feixes e feixes de lembranças que, pouco a pouco, vão se deixando apreender e vão sendo transformadas em arrazoados que exprimem – ou procuram exprimir – os rememorares decodificados em linhas e páginas, conversas e reflexões. Para dar um exemplo concreto do que foi dito, em 2005, quando residia em Niterói, por ocasião do cursar das disciplinas do doutorado, enquanto procurava dormir após um dia intenso de estudante de pós-graduação, ouvia um programa especial, no rádio, produzido e transmitido pela rádio Jornal do Brasil FM. Ali, era apresentado um CD de Elba Ramalho e Dominguinhos; tendo sido tocadas todas as faixas, entremeadas de falas dos dois artistas. Pois bem. Quando ele lembra ou mesmo, quando ele toca uma daquelas faixas – Chama – vem-lhe à memória detalhes bem nítidos daquele apartamento onde o programa era escutado, situado à Rua Teixeira de Freitas, condomínio Flamboyant, no bairro do Fonseca, como se ainda lá estivesse.

Mas, volte-se ao ano de 1986, ao final de fevereiro, logo após ter saído o resultado do vestibular que lhe dera acesso ao curso de licenciatura em História, a ser desenvolvido na ainda Faculdade de Formação De Professores De Alagoinhas (FFPA). Depois de ter visitado os seus amigos e aqueles que lhes deram apoio na caminhada até a realização daquele certame, passara a se preparar para realizar a matrícula, inicialmente programada para a terceira semana de fevereiro, no sentido de procurar, receber e organizar a documentação exigida para aquele fim. Entretanto, estava em curso uma greve de professores e estudantes , o que inviabilizou a efetivação da matrícula na data estabelecida.

José Mário, enquanto isto, passara pelo “Estadual” com o fito de receber a sua certificação de conclusão do segundo grau. Ali estivera por um bom par de horas, aguardando a chegada da diretora de então, que assinaria o dito certificado. Estando ali, fora sentar-se ao fundo do auditório, onde tantas vezes estivera acompanhado por muitos colegas, onde muitas conversas se desenrolaram; onde algumas garotas lhe despertariam o interesse, sem que, no entanto, ele o tornasse conhecido, por receio de sensura, rejeição explícita, ou coisas que tais. No entanto, ali ele estava, diante de uma imensidão de escola, inteiramente vazia por conta das férias; o espaço, portanto,seu velho conhecido, lhe fazia companhia à solidão que sentia. Sim. Uma solidão real, indicada pela ausência concreta de pessoas. Mas, havia aquela outra; aquela em que o seu espírito vagueava em busca de encontrar com quem trocar as impressões que ora experimentava; mas, experimentava apenas ele, consigo mesmo. Quisera mesmo que as horas se quedassem em sua companhia; que respirassem com ele aqueles ares que, dali em diante, se tornariam ares de um passado que ainda estava ali, ao alncance dos seus sentidos; um passado que passara, mas, há ainda tão pouco tempo.Porém, malgrado o seu desejo, as horas passaram, a professora/diretora chegara, assinara o documento, seu Faustino o entregara; ele, se retirara; se dirigira de volta para a sua casa.

Tendo sido adiada a matrícula e, tendo ele em ordem toda a documentação exigida, acabara por ir ter com a parentela de sua mãe, na cidade de Jacobina, tendo deixado seu irmão paterno em alerta e com uma procuração para fazer a sua matrícula, quando isto fosse determinado pela Faculdade. Assim pensando, assim agindo: no dia 28 de fevereiro ele se encontrava em Jacobina, quando ouvira pela televisão, que havía nascido mais uma moeda no Brasil: o Cruzado. Ouvira por todo o dia as vozes de Dilson Funaro, do então presidente da República José Sarney, bem como de inúmeros comentaristas de economia, se esforçando por orientar a população, sobre as novas diretrizes monetárias que passariam a reger a vida econômica e social do País.

Entretanto, depois de julgar ter entendido todas as explicações dadas e as análises feitas, uma surpresa: um telegrama do seu irmão, o convocava para voltar imediatamente para Alagoinhas, a fim de realizar a sua matrícula. José Mário não entendeu nada. Como assim? O seu irmão não fora instituído seu procurador para aquele fim?

Assim pensando, se perguntara outras vezes a mesma coisa. Por que então aquela urgência? Toda a documentação, além da procuração, já não se encontrava em suas mãos? E, como não havia como obter respostas àquela questão, no sábado, primeiro de março, um sábado de sol, depois de uma noite/madrugada inteiras de estrada, ele já se encontrava em solo alagoinhense para se apresentar na segunda feira, dia em que tornaria efetiva a sua entrada no ensino superior, entrada que a aprovação no vestibular fora apenas a primeira etapa. Outras, não imaginava quantas, haveriam de vir e, ele, as teria de encarar, enfrentar, caminhar, seguir em frente, não obstante os obstáculos que houvesse de transpor.

 

Alagoinhas – 25 de janeiro de 2026 – verão brasileiro.

 

Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 18 de janeiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XVI.

 

O Intervalo – I.

 

Depois de escavar sedimentos de memórias que trouxeram à lume as reações de José Mário ao saber que houvera saído o resultado do certame a que se submetera com o fito de conquistar o acesso ao ensino superior, no arrazoado  que o paciente leitor ora tem diante de si, pretende-se abordar mais alguns movimentos do protagonista, no sentido de repercutir alguns dos desdobramentos relacionados àquela que fora uma das maiores efemérides do seu caminhar até então. Evidentemente, é no feixe de camadas de memória deste escrevente, que se vai buscar aqueles fragmentos a partir do qual a narrativa será construída. Não é de mais salientar, que a memória aqui trazida no processo de construção textual aqui desenvolvida, é evocada e selecionada por quem lembra e, é uma representação do passado, a partir do presente.

Passadas algumas horas após as peripécias feitas por José Mário para saber se estaria ou não na lista dos aprovados que acabara de sair no jornal A Tarde daquele dia 7 de fevereiro de 1986, pelo menos três sentimentos contraditórios lhe perpassaram o espírito. O primeiro e mais imediato deles, foi a euforia, desencadeada que fora pela surpresa de ter encontrado o seu nome em uma lista de aprovados que não mais acreditava vir a constar, considerando as conferências dos gabaritos publicados logo após a realização das provas. Segundo a sua análise de resultados de tais conferências, a ele parecera que não seria daquela vez que faria parte do seleto grupo de estudantes que avançaria no percurso formativo, alcançando o acesso ao ensino superior. Impulsionado por aquela euforia decorrente de tão agradável surpresa, ele passou alguns dias inebriado pela sua classificação e, passara a visitar as pessoas que contribuíram com ele, no alcançar daquele feito. Conforme se apontou no arrazoado anterior, a primeira visita feita sob a égide da alegria que lhe explodira no peito, fora feita ao Pastor Jessé da Silva (1948-2022), quando descera do ônibus em que embarcara na rodoviária e se dirigira aquela casa, situada à Rua Benjamin Constant, para ali, trocarem um abraço de grandes amigos que o eram, desde o ano de 1980, quando tiveram os primeiros contatos pessoais. Já lá pelos meados daquela mesma tarde, a professora Edna Garcia Batista (1945-2017), sua professora de Língua e Gramática Portuguesa - já largamente citada nos escritos anteriores –, o recebeu em sua casa para um longo “dedo de prosa” descontraído e, livre das amarras das lições, das leituras e das explicações que marcaram os encontros anteriores, porém, envolto pelo mesmo carinho e atenção que os dominara, por pelo menos uns três meses. Nos oito ou dez dias seguintes, José Mário prosseguira em seu visitar a outros amigos e demais que o incentivara com palavras de apoio e, lhe propiciara alguma outra contribuição que lhe impulsionasse a continuar a caminhar no rumo que houvera escolhido seguir. Portanto, aquela euforia fora o combustível que mantivera aquela máquina de fazer visitas e implementar longas e até animadas conversas, com as gentes mais diversas, tanto no ser, quanto no ter.

No entanto, pouco a pouco, aquele combustível foi, por muito gasto e sem a indispensável reposição,  se tornando insuficiente para fornecer a energia necessária para a movimentação física e mental de um estado de espírito eufórico, dando lugar ao segundo dos sentimentos contraditórios que aquele rapaz passara a experimentar, em relação à surpresa de ter encontrado o seu nome na lista de aprovados no certame que o habilitaria a prosseguir no seu processo formativo. Era a busca de respostas para as questões que se lhe avultavam ao cérebro, que queria saber “o que fazer?” e “como fazer?”, que fazia murchar a euforia dos primeiros dias, tomando de chofre o espírito daquele moço, obrigando-o a voltar a atentar para a realidade social e econômica em que ele vivia, desde a mais tenra idade. Aquela, por sua vez, lhe gritava na cara e sem a menor discrição, que, apesar de ter ele subvertido em seu favor uma parte da discrepância inerente à sua formação escolar, a outra parte, aquela que envolvia a característica social em que ele se encaixava, embora não o impedisse de tomar parte daquela nova jornada escolar para a qual ele fora habilitado, no entanto, ele não estava social e economicamente equipado para caminhar naquela estrada que se lhe abria, uma vez que, para nela jornalhar, ele não dispunha do aparato exigido para tal. Os gritos que a realidade lhe impusera ao espírito, acabara por atormentar a José Mário, nos dias que se seguiram àqueles primeiros, marcados pela euforia do resultado que lhe fora favorável.

Assim, noites pós noites de longas horas insones, tempo em que ele fora confrontado com perguntas que iam desde aquela que apontava para a sua indumentária escassa e pouco adequada ao novo ambiente que passaria a frequentar, até aos materiais tiflológicos que deveria utilizar ou, que deveria buscar aceder, junto à secretaria de educação do Estado, no seu setor de “educação especial”, é que se passara grande parte dos dias que antecederam o momento em que se daria a sua matrícula no curso e na Faculdade para os quais fora aprovado. Foi daqueles embates de si para consigo que, de súbito, se lhe ocorreu procurar aquelas dedicadas senhoras que atuavam no aludido setor, entendendo que seria dali que lhe viria o apoio de que precisaria para aquele momento em que, acreditava, estaria dando um salto gigantesco, no que tange à preparação de uma pessoa cega para que ela alcançasse o ápice de uma carreira, por meio da qual, entraria no mercado de trabalho, com uma profissão definida e com a autonomia pretendida.

Conforme era do seu temperamento, ato pensado, pensamento executado. Em algum dos primeiros dias de março de 1986, já sob os auspícios do recém nascido “Plano Cruzado”, depois de mais uma daquelas noites mal dormidas, José Mário se levanta por volta das cinco da manhã, disposto a se dirigir até a capital do Estado, com o intuito de encontrar aquelas “senhoras dedicadas”, já suas conhecidas, para lhes fazer saber a novidade e, claro, apelar pelo seu apoio, no que tange ao fornecimento de material tiflológico por meio do qual, ele pudesse – conforme cria – fazer frente às suas novas necessidades – que, na verdade, não eram novas mas, sim, mais prementes –, de modo a poder caminhar com alguma tranquilidade ou mesmo, com alguma desenvoltura naquela nova senda, onde as exigências, o desempenho e as cobranças certamente seriam maiores.  Entretanto, malgrado aquelas senhoras terem recebido a novidade com alguma simpatia – elas jamais esperariam nada daquele aluno rebelde, insubmisso e indisciplinado, conforme uma delas confessara alguns anos mais tarde –, o resultado daquela entrevista acabou por desencadear o terceiro sentimento controverso naquele espírito em que ainda restava um pouco de “crença” nas instituições e nas pessoas encarregadas de apoiar as iniciativas das pessoas cegas, no sentido de construir o seu caminho para alcançar a sua autonomia: a descrença absoluta em quaisquer delas.

Depois de terem ouvido atentamente o relato quase entusiasmado do seu interlocutor, uma delas proferiu uma sentença que José Mário nunca esquecera, que caiu sobre ele como se fora um balde com água recém extraída das geleiras siberianas:

- “Cursar História para quê José Mário? Para ensinar no Instituto de Cegos”?

Nem é preciso dizer que José Mário quase não conseguiu articular uma resposta. A única que lhe veio ao cérebro, ele a exprimiu, quase balbuciante:

- “E, quem disse que eu quero ensinar no Instituto de Cegos? Eu quero ensinar na escola comum”.

Assim, sem poder aquilatar o efeito daquelas suas palavras dirigidas àquelas “dedicadas senhoras” – talvez até tenham sido tomadas como insolentes e atrevidas –, José Mário voltara quase no mesmo rastro para Alagoinhas, com uma máquina de escrever Olivetti Letera32 e um gravador Philips nas mãos – e as fitas? E as pilhas para fazer o dito funcionar? E o papel? –, como tendo sido a única coisa que elas poderiam dar como incentivo àquele aluno, ali, já com a certeza de que não poderia contar com elas, pois, deixaram bem claro: “Nossa tarefa e responsabilidade é com o primeiro e o segundo graus. Quem entra no terceiro grau, precisa saber que não é aqui o ponto de apoio”. Ou seja: quer voar mais alto do que a sua realidade econômica e social permite? Então, se vire, como puder

 

Alagoinhas – 18 de janeiro de 2026 – verão brasileiro.

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 11 de janeiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XV.

 

07 de fevereiro de 1986 – O resultado–.

 

Diante do arguto e paciente leitor destes garatujares, se encontra mais um arrazoado fundamentado nos escavares de sedimentos de memória, armazenados há pelo menos quarenta anos, em que se procurará trazer à tona, alguns fragmentos de um tempo que, ainda que já vá um tanto longe, não o está fora do alcance de quem o viveu e dele tem lembranças. A Alagoinhas apresentada como pano de fundo para contextualizar o rememorar aqui proposto, era ainda um urbe quase pacata, de poucos automóveis; a sua população se aproximava da centena de milhar, embora a sua distribuição espacial fosse facilmente estruturada em bairros como o 2 de Julho, Mangalô, Barreiro e Santa Terezinha como os que abrigava um maior número de habitantes; enquanto o Jardim Pedro Braga, o Silva Jardim, a Praça Kenedy e Alagoinhas Velha, experimentavam grande expansão com loteamentos, construções de novas residências e a implantação de conjuntos residenciais. A Praça J. J. Seabra e a praça Ruy Barbosa, eram de longe os maiores, os mais conhecidos e os mais frequentados espaços públicos de então. Grande parte daqueles que cursavam o ensino superior, o faziam fora do seu território, mormente em Salvador e Feira de Santana. Este escrevedor tem muito nítido em sua memória tátil aqueles espaços; suas travessas, suas ruas paralelas e perpendiculares, as conhecendo muito bem, ao ponto de conseguir percebê-las, a cada ponto citado durante estes escritos, como se neles estivesse passando enquanto escreve. É dentro deste corolário de lembranças espaciais, sociais e vivenciais que se fundamentam as memórias aqui esboçadas. Insiste-se em trazer como fundamento teórico e metodológico da proposta largamente exposta no transcurso destes escritos, o postulado de Paul Ricöeur, a respeito da memória, quando afirma ser ela a única coisa que temos em que nos fiar de ter se dado alguma coisa, em algum momento. Diz o filósofo francês já diversas vezes citado nesta série de rememorares, que viveu entre os anos de 1913 e 2005 : [...] uma busca específica de verdade está implicada na visão da ”coisa” passada, do que anteriormente visto, ouvido, experimentado, aprendido. Essa busca de verdade especifica a memória como grandeza cognitiva. Mais precisamente, é no momento do reconhecimento, em que culmina o esforço da recordação, que essa busca de verdade se declara enquanto tal. Então, sentimos e sabemos que alguma coisa se passou, que alguma coisa teve lugar, a qual nos implicou como agentes, como pacientes, como testemunhas. [...] (RICÖEUR, 2007, p. 70).

E, mais adiante, para o fim que aqui interessa, ele arremata, que:

Será preciso, [...], não esquecer que tudo tem início não nos arquivos, mas com o testemunho, e que, apesar da carência principial de confiabilidade do testemunho, não temos nada melhor que o testemunho, em última análise, para assegurar-nos de que algo aconteceu, a que alguém atesta ter assistido pessoalmente, e que o principal, se não às vezes o único recurso, além de outros tipos de documentação, continua a ser o confronto entre testemunhos” (RICÖEUR, 2007, p. 156).

 

Enfim, chegava a metade do dia daquela terça-feira 28 de janeiro, último dia das provas do vestibular que forneceria o passaporte para o ingresso no ensino superior para quem nele fosse aprovado, dia que José Mário quase não se dispusera a se dirigir ao local para onde convergira um bom número de estudantes que pleiteavam as vagas disponibilizadas para os cursos de licenciatura ofertados pela FFPA; dia em que ele não experimentara a mesma disposição para o enfrentamento daqueles testes que, não só avaliavam o nível de conhecimento propedêutico dos candidatos mas, também, ao que parecia, avaliava a capacidade de resistência de um bom número deles. Certamente, aquele terceiro e último dia de provas, já fora marcado pela abstenção de uma parte dos avaliados, quer pelo cansaço físico e mental ou pela descoberta das fragilidades dos conhecimentos testados até ali, quer pelo desânimo resultante de tal descoberta. O certo é que José Mário, ao se dirigir ao “Estadual” para encarar aquele último dia de provas, o fizera, muito mais pelo seu temperamento que não admitia iniciar uma jornada e voltar do meio do caminho; mas, também e, principalmente, porquê, para ele, não era só desistir; era, sobretudo, apresentar uma justificativa fundamentada no terreno movediço de explicações que não se sustentariam em pé, no momento em que fosse em busca de apoio daqueles que o haviam emprestado, quando ele o buscara.

Portanto, concluída aquela última etapa da empreitada levada à termo em três dias de sol pleno e de calor intenso; em três dias marcados por variações de ânimo vividas por aquele vestibulando, desencadeadas pelas diversas frustrações experimentadas a cada conferência de gabaritos; três dias marcados por uma perda gradativa de confiança em um resultado que viesse a coroar os esforços até ali envidados, dirigiu-se ele para a sua residência, mergulhando de volta ao seu estado de solidão latente, em elucubrações feitas de si para consigo, no sentido de intentar encontrar uma tábua de salvação daquele naufrágio do seu barco, que ele já sentia soçobrar. Fizera maquinalmente o trajeto de volta para casa; lá entrara, almoçara e, se dirigira ao seu espaço de dormir, para ali, recobrar o sono mal conciliado na noite anterior. E, adormecera; adormecera para repassar como em um “filme” imaginário, tudo que procurara fazer, bem como tudo que sucedera, desde o instante em que decidira trilhar aquele caminho em busca de avançar no seu processo formativo, daquela vez, não mais o escolar obrigatório e formal; mas, pensava ele, aquele seria um processo de formação para a vida laboral, igualmente formal mas, diferentemente do anterior, com uma ponta de validade, na medida em que, conforme pensava, ressalte-se, ele alcançaria uma titulação que o catapultaria, inexoravelmente, ao seleto grupo das pessoas capacitadas para o exercício de uma função social dada.

Entretanto, malgrado todo aquele reboliço desencadeado no seu cérebro, José Mário dormira profundamente por toda aquela tarde, não obstante o  forte calor do final de janeiro; apesar da inexistência de meios mecânicos para proporcionar um pouco de conforto enquanto procurava refazer o corpo e a mente, naquele quarto onde o telhado baixo e a quase inexistente ventilação aumentava ainda mais a sensação de calor, fazendo com que José Mário se debatesse e suasse profusamente, a tarde passara lenta e a noite chegara morna e, ao mesmo tempo que indiferente àquele rapaz ainda envolto em ideias que davam conta de sua pouca malícia e de sua quase total desconexão da realidade da vida efetivamente vivida; não passava pelos pensamentos daquele rapaz formado pela leitura romântica da vida, que o que ele quisesse obter, ainda que, eventualmente, capacitado para tal, teria que ser quase que tomado a força; teria que enfrentar a obstinada resistência da sociedade em permitir que ele pudesse exercer alguma coisa no campo da vida profissional, ainda que ele fosse – ou imaginasse ser –capacitado para o fazer. A sua ingenuidade não possibilitava compreender que a vida não lhe sorriria feliz por ser ele um “Licenciado”, um “graduado”; sequer passava pelos seus pensamentos a perspectiva de que, na realidade, o graduar-se ou o licenciar-se, seria uma arma para o combate; não o troféu do combate.

Assim passaram-se os dias e as noites que se seguiram ao que se descreveu linhas acima. Aqueles pensares chegavam e saíam como as ondas do oceano, ora fortes e devastadores; ora suaves e percebidos apenas pelos sussurros dos seus movimentos; ora rebentando nas pedras, esmiuçando as quimeras e tornando em pó as formulações e os intentos que vicejavam por alguns minutos ou, quando muito, por algumas horas, para depois serem esfarelados como os barquinhos de papel engolidos pelas águas espumosas das quais não consegue escapar ou ainda, feitos nada, como os castelos de areia tão cuidadosamente construídos nos muitos instantes de solidão e nos remoeres dos anseios de se obter as ferramentas para a tão necessária inserção social. Eram dias que insistiam em não começar, entre noites que teimava em não terminar; as tardes quentes e lentas, como que arrastavam os pés, como aquele que não quer chegar, pelo menos, não quer chegar logo ao fim, para assim, vir a noite e com ela a insônia, aquela dama que insiste em não arredar dali, pelo menos, enquanto o dia seguinte não se aproximar. Aquele ciclo acabava por devastar os nervos, os ânimos, as vontades, as possibilidades... Mas, a teimosia, esta, também impertinente, não arredava do seu posto de observação; vigiava cada movimento; cada mudança de rumo ou de humor; tomava nota de cada pensar em desistir; marcava com cores vivas cada querer voltar atrás!... Ah, a teimosia... a teimosia... aquela velha senhora que parecia inquebrantável em seu propósito de não permitir recuos, nem mesmo aqueles recuos pretensamente estratégicos... Ela, ela não admitia nem ele, pois, via uma espécie de escusa para desistir..

Pois então, fora exatamente a teimosia quem insistira para que José Mário, mesmo não acreditando ter qualquer chance, de acordo com a leitura que fizera dos gabaritos que consultara, esperasse e ficasse atento à divulgação do resultado do vestibular e, claro, fosse conferir a lista dos aprovados, até para ter a certeza de que nela o seu nome não estaria elencado. Ouvinte de rádio desde a sua meninice, sendo aquele o único veículo a que tinha acesso, sabia que havia uma seção do “Balanço Geral”, então apresentado por Fernando José (1943-1998), na qual as manchetes dos principais jornais de Salvador eram destacadas, atentava a cada manhã, para aquela parte do programa, com o fito de saber quando sairia a manchete dando conta de que a Uneb divulgaria o resultado daquele vestibular em que ele era um dos postulantes; em anos anteriores, algumas rádios até divulgavam nominalmente as listas de aprovados, sobretudo, nos cursos socialmente mais importantes: Medicina, Odontologia, e Direito, para os quais o glamour tanto da mídia quanto das famílias dos aprovados era já de conhecimento público. Ele não esperava tanto, no que respeita à curso de licenciatura, da Universidade do Estado da Bahia e, ainda menos, da Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas. Mas, conseguir saber que aquele resultado saíra e, em qual jornal procurar, já seria um grande avanço, pois assim, saberia, se sim ou se não, se não ou se sim. E, assim foi.

Ao levantar de mais uma daquelas longas noites insones, Poucos antes das seis daquela manhã de sexta-feira que antecedera o carnaval de 1986, José Mário ligara o rádio e passara a ouvir o “Balanço Geral” programa diário veiculado pela Rádio Sociedade da Bahia (AM) – “ Balanço total, o que deu no Jornal” dizia a vinheta, gravada  com a inconfundível e belíssima voz de oton Carlos (1957-2020). Atentamente, ele escutava Fernando José lendo as manchetes do “Bahia Hoje”, do “Jornal da Bahia”, da “Tribuna da Bahia” e, por fim, anunciava “as manchetes do Jornal A Tarde”: “[...]. Sai o resultado do vestibular da Uneb [...]”... José Mário nada mais ouviu; engoliu o café e correu para a rodoviária, pensando encontrar ali um dos seus irmãos, que atuava como fiscal de transportes, para que lesse o jornal e visse a lista dos aprovados que ali estava publicado . Não o encontrando, criou coragem, procurou vencer a timidez – na verdade, era o medo de não se achar elencado naquela lista – se encaminhou para uma banca de jornais e, pediu ao jornaleiro que, por gentileza, lesse a lista dos aprovados em História...

- “Mas, olhe, não precisa ler tudo não... Basta ler aqueles aprovados com o nome iniciado pela letra J”...

José Mário engoliu o choro, ao ouvir o seu nome... Pediu que lesse outra vez.... De novo, engoliu o choro, agradeceu e saiu, procurando conter as lágrimas, que queriam lhe irromper das órbitas... Com o coração aos saltos, ele entra no ônibus e, desce na Praça Ruy Barbosa, para se dirigir até a rua Benjamin Constante, onde se situava a residência do Pastor Jessé, aquele que propiciou o recurso para que pudesse pagar a sua inscrição, para lhe dizer que... passou! Nunca ele choraria em público, daquele jeito, sem ... procurara estancar o pranto, antes de bater à porta que logo se lhe abrira e, largara a informação para o amigo, como se ... e veio o abraço... O abraço de quem se comprazia com aquela notícia e.... saindo de diante dele, deixou que rebentasse o ribeiro, sem receios ou vergonhas de quaisquer natureza. Era o extravasar de uma etapa percorrida e, mesmo contrariando o seu próprio diagnóstico, concluída com êxito.

 

Alagoinhas – 11 de janeiro de 2026 – verão brasileiro

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 4 de janeiro de 2026

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XIV.

28 de janeiro de 1986 – as provas – V.

 

 

O arrazoado que se encontra diante de quem se disponha a percorrer as suas linhas, começa a evocar a proposição desenvolvida pelo Historiador francês Jacques Le Goff (1924-2014), com o fito de sustentar os elementos que aqui serão evocados, no sentido de dar curso ao tema que há algumas semanas se vem desenvolvendo. Em sua “História e Memória”, saída no Brasil em 1992, depois de fazer um completo arrazoar sobre os diversos traços de que se constitui a relação entre a “História” e a “Memória, Le Goff assevera que “A memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. [...]” (LE GOFF, 1992, p. 423). É em tal sentido que, ao se levantar as já espessas camadas de sedimentos muito fragmentados de quem rememora, tem sido evocada a memória de situações e circunstâncias vividas em um tempo que já está assentado em um passado que ainda não passou de todo – no dizer de Henry Rousso –, pois os seus diversos desdobramentos ainda são sentidos por tantos quantos as atravessaram. No dizer de Paul Ricöeur (1913-2005), “[...], sentimos e sabemos que alguma coisa se passou, que alguma coisa teve lugar, a qual nos implicou como agentes, como pacientes, como testemunhas. [...].” (RICÖEUR, 2007, p. 70).

É assim que, para reforçar a importância da memória para a História, a ideia de “lugares de memória” é bem ilustrativa para melhor se compreender aquilo que se vem arrazoando ao longo desta série de textos. Conforme se vem salientando ao longo destes garatujares, os espaços onde se dá um determinado evento individual ou coletivo, podem funcionar como desencadeador de memórias; também, há “lugares” que, nem sempre são criados para um tal fim – embora que outros, deliberadamente, podem sê-lo –, acabam por se tornar um “lugar de memória”, na medida em que, ao voltar alguém a percorrer salas, corredores e outros elementos concretos de um espaço dado, inúmeras lembranças podem vir à tona, espontaneamente ou não, fazendo com que aquele que estando ali, se lembra, possa refazer um circuito completo de acontecimentos, situações e/ou circunstâncias vividas naquele “lugar”. Os exemplos são abundantes. Para ilustrar, se pode citar as catedrais; as necrópoles; os diversos tipos monumentos aos mortos, ao soldado desconhecido; os prédios onde eram praticadas as seções de torturas – com a exceção dos “monumentos”, quase nenhum dos exemplos apontados, foi construído com a finalidade de ser um “lugar” de memória. No entanto, aqueles que foram vítimas das torturas perpetradas pelas forças da repressão, acabam por constituí-los como tais. Exemplo similar é o espaço onde funcionou o Centro Integrado Luíz Navarro de Brito, onde José Mário fez todo o seu processo formativo. No entanto, para ele, é um “lugar de memória” por excelência. Ali, no prédio onde estava instalada a direção, por sinal, ele realizara as provas por meio das quais, intentava inserir-se em mais uma etapa daquele processo que iniciara onze anos antes.

Portanto, conforme já é cediço através dos escritos anteriores, há pelo menos quarenta anos, José Mário, na ânsia de desenvolver o seu processo formativo, que teria o ingresso no ensino superior uma de suas etapas, buscava se apropriar de elementos propedêuticos que o permitissem fazer aquela transição, o que levaria a uma completa mudança de rumos do seu caminhar. Daí o estado de apreensão e ansiedade que vivenciara  naquela tarde em que, levado pela curiosidade e, mais do que isto, pelo desejo mesmo de saber qual teria sido o seu desempenho em relação aos conteúdos que julgara estar mais preparado, vindo a noite, o  encontrar desalentado, com o espírito tanto abatido, quanto reflexivo, sobre o continuar ou o recuar naquela caminhada que já lhe parecia perdida. E, com tantas interrogações a fervilhar naquele cérebro em ebulição, o sono teimava em não se apresentar; quando o fizera, não fora reparador; se fizera intermitente, arredio e, sobretudo, apenas o fizera mediante o cansaço do corpo que reclamava repouso.. Tendo enfim conciliado o sono, o fizera resoluto de não se dirigir ao local das provas, no terceiro dia de sua realização.

Assim, a manhã seguinte àquela tarde de conferência de gabaritos e à noite turbulenta e quase insone, o vestibulando despertara de um susto; em um raiar de dia que não ouvira o gorjear dos pássaros; nem aspirara os aromas matinais; despertara, porém sem o ímpeto dos dias anteriores, desfizera a resolução tomada antes de adormecer; levantara de um salto e se dirigira ao banho; tomara café e saíra. Na verdade, sem pressa; sua esperança era que não conseguisse chegar antes do fechamento dos portões; perderia, não por deliberação que beirava a covardia; mas, por não alcançar em tempo hábil o local das provas do último dia; aquelas que, dependendo do seu desempenho, o levaria a se fazer aprovar para o curso pretendido. Chegara. Talvez, houvesse sido o último a entrar no espaço das provas; tivera a impressão de ouvir o portão ser fechado logo após a sua entrada. Acreditara que, mais um minuto e, estaria fora do grupo que concorreria à vaga de História.

Mas, uma vez mais diante do material a ser lido e respondido, acomodado na sala da direção do “Estadual”, passara a se aplicar em interpretar os textos em Braille que estavam sob os seus dedos; atentara para a formulação das questões, temendo não as compreender corretamente e, por via de consequência, não as responder adequadamente. Ali, diga-se de passagem, ele tomara contato pela primeira vez, com questões de geografia que fugiam àquela que aprendera e que encontrara nos diversos livros que lera. Nada – ou quase nada – de relevo, hidrografia,, nem questões atinentes àquilo que depois veio a saber serem do campo da “Geografia física”. Questões como distribuição de renda; progressão aritmética ou geométrica de populações; densidade demográfica...; questões que, como foi dito em relação ao primeiro grupo, viera a saber se tratar de geografia econômica ou humana... Nem é preciso dizer que tudo aquilo era do seu inteiro desconhecimento; as respostas foram dadas por dedução – nem sempre lógica –, que o levara a perder pontos preciosos no computo geral do gabarito; era assim que lhe surgiam, a cada nova página lida, a cada questão que procurava resolver, novidades que lhe não foram apresentadas ao longo de todo o primeiro grau, nem mesmo no segundo.

Deste modo, ao final do turno de provas, José Mário se encontrava física e mentalmente exausto e, ao remoer as respostas que dera – como aliás, era do seu feitio, desde os tempos escolares –, ficara cada vez mais descrente de uma aprovação naquele certame. Nele, o bravo estudante descobrira, a cada linha lida daquele caderno de provas, o quanto estava desprovido de leituras e de conteúdos escolares, para fazer frente àqueles outros concorrentes, mais bem providos de acúmulo propedêutico e mais preparados para aquele tipo de enfrentamento. Talvez, aquele certame não tenha sido pior para ele, pelo fato de todo o material necessário para a sua realização ter sido transcrito em Braille e, ele não ter precisado lidar com ledores semianalfabetos ou analfabetos funcionais, o que dificultaria ainda mais a mobilização da sua já parca provisão de recursos intelectuais e a sua pequena quantidade de conteúdo para dar provisão àquela empreitada. Ah, como ele aguardara aquela tarde, como sendo o instante de dormir o sono reparador, aquele que não alcançara na noite anterior!

 

Alagoinhas – 04 de janeiro de 2026 – verão brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com