domingo, 1 de março de 2026

FRAGMENTOS DE MEMÓRIA, PEDAÇOS DE HISTÓRIA - PARTE I

JOSÉ MÁRIO NA GRADUAÇÃO – 1.

 

Lançando mão das metáforas dos fragmentos de alimentos que, quando em contato com o paladar  desperta rememorares que se sobrepõem ao esquecimento, utilizados por Marcel Proust (1871-1922) e Gabriel García Márquez (1928-2014), este escrevedor pretende proporcionar  aos caros leitores destes garatujares, mais alguns nacos de História, advindos de processos mnemônicos imersos nas camadas de um passado que “ainda não passou”, a despeito do tempo há muito transcorrido. É certo que no caso dos fragmentos de memórias aqui trazidos, A EVOCAÇÃO DO PASSADO não se relaciona com o toque de um alimento dado no paladar do rememorador, visto que, ele raramente provara qualquer iguaria excepcional em grande parte da sua experiência associada ao palato; a sua alimentação cotidiana, além de frugal, sempre fora trivial, no que respeitava ao lugar que ocupava na sociedade alagoinhense de então. Mas, também é certo que, tais fragmentos podem vir a ser desencadeados a partir de outras sensações como os cheiros e os sons do ambiente em que vivera e, que ao voltar a sentir/ouvir, ainda que de si para consigo, em seu consciente, conforme assevera Ecléa Bosi (1936-2017), em sua já clássica obra “História e Sociedade: lembranças de Velho (1994)”, “[...], a lembrança pura, quando se atualiza na  imagem-lembrança, traz à  tona da consciência um momento único, singular,. _não repetido, _irreversível, da vida. Daí, também, o caráter não  mecânico, mas evocativo, do seu aparecimento por via da memória. [...]” (BOSI, 1994, p. 49).

Tendo isto em conta o caráter evocativo deste tipo de rememorar, Enzo Traverso 2012, sustenta que:

“[...]. A memória é qualitativa, singular, pouco preocupada com comparações, com a contextualização, ou  com generalizações. Quem a transporta não necessita  de apresentar provas. O relato do passado prestado por  uma testemunha — sempre que não seja um mentiroso  consciente — será sempre a sua verdade, ou seja, a imagem do passado em si deposto. Pelo seu carácter subjectivo, a memória nunca é cristalizada; mais se parece  com um estaleiro aberto, em contínua operação. [...].” (TRAVERSO, 2012, p.22).

Mais adiante, no mesmo parágrafo, ele reforça a assertiva transcrita acima, considerando alguns dos limites da memória, por sua sujeição a erosão que lhe é imposta pelo tempo, dizendo que “[...]. Não é só o tempo a erodir e a enfraquecer a recordação. A memória é uma construção,  sempre filtrada por conhecimentos adquiridos posteriormente, pela reflexão que se segue ao acontecimento,  por experiências que se sobrepõem à primeira e modificam a recordação. [...].” (TRAVERSO, 2012, p. 22), significando que o “recordar” não tem um caráter estático, na medida em que está sujeito ao acúmulo de outras experiências construído ao longo de um tempo que se desenvolve desde o momento “lembrado” e chega àquele em que se dá o lembrar e este, por sua vez, é dado a conhecer, tanto por meio de uma escrita, quanto por meio de uma entrevista de História Oral.

Portanto, é assim que se chega àquela segunda feira dos meados de março de 1986, dia em que José Mário teria o seu primeiro dia de aula na condição de graduando na Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas. Era um dia quase outonal, visto que todos os seus primeiros sinais já estavam postos e, logo, logo ele chegaria e se instalaria no lugar do verão que não tinha pressa de se retirar. Em todo o caso, era março; março que tinha as suas águas cantadas pelo poeta; também era naquele mês que o ano letivo tinha início, em todos os espaços e graus de ensino no Brasil; era também em março que ganhava corpo uma vaga de ações fiscalizadoras dos preços das mercadorias, um fenômeno que até ali se circunscrevera a poucos cidadãos brasileiros, mormente, aqueles que faziam parte dos meios de comunicação, que então, acabava por se alargar sobremaneira, criando a horda dos “fiscais do Sarney”, que buscavam enquadrar os comerciantes que se recusassem a cumprir as proposições constantes no “plano Cruzado. Enfim, era um março atípico e diferente dos vinte e cinco marços vividos anteriormente por aquele rapaz que se dirigiria ao prédio onde aquela faculdade funcionava e, onde ele iria dar os primeiros passos da sua caminhada rumo à sua formação profissional.

Não obstante as aulas só serem efetivadas à noite, naquela segunda-feira, José Mário despertara cedo, se é que dormira, ainda envolto nas questões que formulara ao sair do prédio da FFPA, após a realização de sua matrícula. O dia passara arrastado mas, enfim, passara e, ele se dirigira ao edifício situado à Praça Ruy Barbosa, talvez ali já fosse a rua Elvira Dórea; como chegara cedo, pouco antes das seis e meia, acercara-se de um banco de pedra que estava posto sob algumas árvores. Ali, ele acompanhara os últimos cantares de cigarras maduras, o que indicava de fato a proximidade do outono. Enquanto aqueles zip-zip-zips, ressoavam como sinfonia de abertura da noite, os pensamentos daquele rapaz revoavam para dentro do recinto que o iria receber, juntamente com outros trinta e nove colegas, para começar, acreditava, a responder às indagações que fizera e, claro, não encontrara quaisquer respostas que lhe satisfizessem o seu espírito irrequieto.

No entanto, à medida que os minutos passavam e que os demais estudantes chegavam, ele passava a ter clareza de uma primeira resposta aos seus indagares: ele não conhecia e, nem era conhecido de quase nenhum daqueles que fariam com ele aquela jornada. Exceto uns dois ou três que o conheciam de outras experiências não estudantis, a sua suspeita acabara por se confirmar: era ele apenas mais um, em meio àquela “multidão” que, em princípio, fora indiferente a ele, exceto, o fato de se tratar de um aluno cego, que, certamente poderiam ter pensado, teria algumas dificuldades em andar no mesmo passo e ritmo que o restante da turma.

Ingressados que foram na sala de aula destinada ao novo curso e, ao conjunto dos alunos que nele estariam envolvidos, outra surpresa: pouco ou nada compreendera do que ouvira da parte daquelas professoras que se apresentaram como sendo a que “comandava” a realização do curso – professora Ialmar Leocádia Viana, chefe do departamento de História (cujo nome já lhe causou incompreensão) –, bem como aquela outra que permaneceria na sala para dar a sua aula, após a apresentação do curso e de suas principais diretrizes. A professora Zalvira Vilas boas, fizera a sua primeira exposição, apresentando e explicando o programa de disciplina que pretendia desenvolver, Introdução à História, aumentando ainda mais a confusão na cabeça de José Mário, visto não ter ele tido a oportunidade de ler o dito programa; nem mesmo, saber realmente do que se trataria em tal disciplina. Ainda naquele curto espaço de tempo, duas coisas lhe causaram espécie – talvez elas já tivessem tido lugar no dia seguinte. A primeira delas foi o fato de um aluno de outro curso/turno, entrar naquela sala sem a menor cerimônia, para anunciar a sua campanha para a presidência do “DA”, claro, José Mário não fazia a menor ideia do que fosse aquilo. A segunda, esta já na exposição do plano de curso de História Antiga, que ficara a cargo da professora Alba Melo, foi a desenvoltura com que um dos alunos interpelou a professora, enquanto apresentava o seu programa de curso, questionando o porquê da ausência de referência a “Marx”. E, de si para consigo, José Mário perguntou “Marcos?” Ou seria “Marques?”, pois, aquele nome que o aluno apontou faltar nas referências da professora, José Mário nunca houvera ouvido, principalmente, depois de ser informado por um colega a quem perguntara, tratar-se de “Karl Marx”; para o coitado, deu no mesmo”

Mais uma surpresa se guardou para o final da aula. Quando acabada aquela que fora a primeira parte do primeiro dia de aula, viria o professor José Sales da Costa, que ele conhecia, através do contato que com ele tivera na Primeira Igreja Batista de Alagoinhas, que seria o responsável por conduzir a matéria de Filosofia. Mas, notou que, o grupo inicial não permaneceu na sala, o que lhe aguçou a curiosidade, visto que, o público que assistiria àquela disciplina iniciada às vinte horas e dez minutos, reduzira-se consideravelmente. O que houve, perguntou. Algum tempo depois obteve a resposta. Uma parte da turma que ingressara no curso de licenciatura plena em História, era egressa do curso de Estudos Sociais – cuja licenciatura era de curta duração –, que já haveria cursado Filosofia, o que os desobrigava o fazer, pois, já aproveitaria a carga horária.

 

Enfim, vinte e duas e quarenta, José Mário sai para tentar alcançar o último ônibus que o levaria ao seu lugar de moradia, para ali, procurar dormir, ainda que antes de o conseguir, viesse a ruminar o que lhe fora oferecido como matéria para aquele seu iniciar de caminhada.

 

Alagoinhas – 01 de março de 2026 – verão brasileiro.


José Jorge Andrade Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com