domingo, 28 de dezembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XIII.

27 de janeiro de 1986 – as provas – IV.

 

Em mais um escavar de profundas camadas de memórias já pretéritas,  se pretende trazer à público, um outro feixe de sedimentos de um tempo em que eram envidados esforços para que José Mário se pudesse imiscuir em um processo formativo que o preparasse para a interação necessária com o viver cotidiano. Aquele era um tempo em que as assim chamadas “tecnologias assistivas” nem ao menos eram cogitadas – os primeiros cegos começavam a ser inseridos no processo de programação computacional de grande porte mas, ainda assim, sem autonomia –; o que se tinha e, mesmo assim, com grande defasagem no que tange à sua abrangência e ao alcance de tantos quantos delas viessem a necessitar, era a já velha e carcomida “tiflologia”, que, apesar do termo aparentemente pomposo, nada mais era do que o modo como as pessoas cegas podiam se acercar dos meios de escrita e leitura comuns, para que assim, conseguissem prosseguir no seu intento de se fazer formadas e, sobretudo, aptas para a inserção no mercado de trabalho, ao menos, em tese. Não custa salientar, portanto que, no tempo em que José Mário se esforçava por ingressar em um curso de nível superior, ele só contava com a sua Reglete e o seu Punção para a escrita em Braille – para o seu próprio uso –; com a sua bengala para realizar os deslocamentos; com uma máquina de datilografia comum, para a sua interação com professores e os demais com os quais precisasse se comunicar por escrito. Para José Mário tomar contato com aquilo que mais tardiamente veio a ser chamado “tecnologia assistiva”, bem como iniciar as relações com ela, em seus primeiros rudimentos bem primordiais, foi preciso esperar ainda uma década. É assim que, ao intentar trazer à lume fragmentos de memória prospectados em suas mais profundas camadas há muito encobertas pelo passar do tempo e pelo acúmulo de tantas outras que se sobrepunham àquelas, se pretende que, uma vez ressignificada e saída do silêncio em que estivera, possa então se tornar História, conforme postulam Le Goff (1992), Ricöeur (2007), Bosi (1994), Fernández (1996), Traverso (2012), já amplamente citados nestes arrazoados.

Conforme se escreveu quase ao final dos garatujares anteriores, José Mário, não obstante a sua necessidade de descansar daquela manhã puxada que fora o segundo dia de provas, fora superada pelo desejo de saber qual teria sido o seu desempenho nas provas do dia anterior, o que lhe obrigaria a apelar para os filhos do vizinho, a fim de que um deles se dispusesse a ler o gabarito que houvera sido publicado no jornal A Tarde daquela segunda feira. Assim pensando, pouco depois do almoço, tendo dado um tempo para que o “feijão” se ajustasse ao processo digestivo, tímida e cautelosamente, ele se dirigira à casa de Seu Augusto e, não sem fazer algum esforço – embora aqueles rapazes  fossem seus velhos conhecidos de conversas, brincadeiras no quintal e piadas “ao pé do poste” –, lhes indagara se o jornal A Tarde havia sido  visto ali, naquele dia. Diante da resposta afirmativa, ainda mais intimidado, indagou se alguém lhe poderia ler o gabarito das provas do vestibular, para que ele o pudesse copiar... Pronto. Desafortunadamente, estava entregue o segredo que ele tanto guardara e, que só por necessidade – para não dizer extrema curiosidade – acabara por dar a conhecer àqueles vizinhos de muitos anos e travessuras. Afinal, aquele fora um segredo que José Mário intentara ocultar, mesmo daqueles seus velhos companheiros de infância, de subidas em pés de manga e de jáca, de brincadeiras de “cowboy”, de assistências de “Viagem ao fundo do Mar”, de programas como os de “Chico City”, entre outros folguedos de tempos em que se brincava na rua e, muitos daqueles brincares só eram viabilizados coletivamente, e que  se assistia programas de televisão no mesmo espaço, na mesma sala e no mesmo aparelho, um “Colorado” em preto e branco, como era o que jazia naquela casa. Era um segredo que só fora dado a conhecer a aqueles de quem não era possível ocultar, pois, era uma empreitada que sozinho, ele não poderia enfrentar. Mas, não fora aquela necessidade de apoio para a sua consecução, nem os amigos mais próximos, nem a sua mãe e, ainda menos, os seus vizinhos mais achegados, ficariam sabendo de sua sorte: a menos que viesse a lhe ser favorável.

Assim, entre constrangimentos e mal disfarçadas surpresas, o gabarito foi lido por um deles – ou por uma delas, a esta altura, não há clareza no rememorar – tendo ele copiado as alternativas que deveriam ter sido marcadas para se configurar os acertos. Terminada que fora a leitura, ele se retirou daquele espaço, inegavelmente desapontado, para se mergulhar outra vez no seu refugiar costumeiro. Se recolhera para remoer o desapontamento que sentira ao perceber que não houvera alcançado o desempenho que acreditara teria tido. O número de alternativas acertadamente marcado, não lhe dera qualquer certeza de desempenho que redundasse em aprovação. Diversas vezes pensara em sequer se apresentar para o último dia de provas; se, naquela para a qual ele se acreditava mais preparado, houvera tido um desempenho tão abaixo do seu crivo, o que seria da segunda leva de provas, para a qual, efetivamente, ele não dispunha de qualquer preparo, ao menos para não “zerar”? Se não se saíra bem naquelas provas do primeiro dia, teria se saído ainda pior, naquelas que há poucas horas acabara de fazer.

Mergulhado naquele pensar, afogado naqueles cismares intermináveis e, embatendo-se em decisões que não se arredavam daquele cérebro em que cabriolavam, ora com força de afirmação do seu não comparecer para a realização da última leva de provas; ora, ao contrário, lhe gritava ser uma decisão covarde, o que lhe fazia rever o decidido minutos – para não dizer segundos – antes; fazendo e desfazendo a mesma decisão, conforme a força da tempestade que se abatia no seu interior, José Mário passara aquele resto de tarde entre avançar e recuar de uma caminhada que já fazia há alguns meses, que já ultrapassara alguns obstáculos, que já estava se encaminhando para os últimos metros do seu percurso.

Foi assim que aquela noite o encontrou. Não saíra do seu refúgio, a não ser para comer. Isto ele fizera cabisbaixo e sem se dispor a dizer para a sua mãe que não iria para o dia seguinte das provas. Depois, procurara conciliar o sono. Este, teimoso e resistente, custara a vir. E, se veio, o fizera de forma picotada; também trouxera consigo aqueles pesadelos de quem se faz acompanhar, quando o que o quer por perto se encontra agitado e embatendo-se consigo mesmo, quer, não quer e, ato contínuo, volta a querer. Mas, o que ele não recuperara mesmo, quer no seu ímpeto, quer em um misto de medo e resistência à ideia de recuo, foi o ânimo. Ele, ao que parecia ao insone e alquebrado vestibulando, arrefecera e, por isso mesmo, deixara de lhe servir de combustível para insistir em palmilhar aquele último pedaço de caminho que se lhe apresentaria para ser percorrido no dia seguinte àquela noite, muitíssimo mal dormida.

 

Alagoinhas – 28 de dezembro de 2025 – sexagésimo quinto verá brasileiro, vivido por quem traceja estes garatujes.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 21 de dezembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XII.

27 de janeiro de 1986 – as provas – III.

 

Conforme se vem salientando ao longo dos arrazoados aqui propostos, a memória – tanto aquela ligada ao indivíduo, quanto a que se manifesta a partir do conjunto dos indivíduos –, quando ainda não monumentalizada, no dizer de Jacques Le Goff (1924-2014), está sujeita a ressignificações a partir do presente, sem, contudo, perder aquilo que mais interessa ao pesquisador, que é o fato de saber que, o que foi dito por aquele que se lembra, de fato aconteceu, conforme assegura Paul Ricöeur (1913-2005), quando diz que não se tem nada melhor para dar a conhecer um determinado evento, se não a memória do indivíduo que lembra.  É nesta perspectiva que se continua a buscar na trajetória de José Mário, a memória daquele passado em que ele estivera envolvido em seu esforço para dar continuidade ao processo formativo que, de acordo com o que pensava, dar-lhe-ia o ferramental de que necessitava para que, entre outras coisas, pudesse prover a si e aos que por ele viessem a ser arrimados. É assim que, ao desenvolver estes garatujares, se tem procurado realizar incursões nos sedimentos das diversas camadas da memória, sob as quais se encontra o passado que se tem procurado trazer ao crivo de tantos quantos tenham tido a paciência de os ler. Faz-se ainda mister ressaltar de passagem que, os rememorares que vem sendo trazidos nestas postagens, estão sustentados no princípio postulado por Le Goff, em obra de 1996, publicada no Brasil sob o título de “História e Memória”, originalmente publicada em formato de verbetes, quando ao final daquele em que discorre sobre a memória, crava uma espécie de resumo de todo o seu trabalho em fazer o leitor entender o que é e para que serve a memória, afirmando que: “A memória, onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o futuro. [...].” (LE GOFF, 1996, p. 477). 

Naquela última segunda feira de janeiro de 1986, dia em que José Mário realizaria o segundo bloco de provas necessário para continuar a sua caminhada pelo vestibular, como o fizera no dia anterior, acordara ainda cedo, talvez dia já claro, mas, ainda não nascido de todo, erguendo-se e dirigindo-se ao banho e ao café, depois, vestindo-se e deixando a residência para alcançar o ônibus que, por ser uma segunda feira e, havendo grande movimentação de pessoas para a rodoviária, a fim de alcançarem o transporte que os levaria aos locais/lugares de trabalho, o coletivo urbano iniciava a circulação por volta das quatro da manhã – horário que, aliás, ele já conhecia bem –, sendo então provável que conseguisse embarcar naquele que iria para a rodoviária, o que permitiria desembarcar próximo do hospital Dantas Bião, de onde seguiria a pé em direção do Estadual, que não ficava longe dali e, chegaria em um horário compatível com o momento da abertura dos portões, quando todos ingressariam no espaço em que realizariam aquelas provas. Convém chamar a atenção de quem percorre estas linhas, que a Alagoinhas em que se passam os eventos aqui rememorados, era uma cidade que não oferecia muitas oportunidades de empregos formais aos seus munícipes, o que forçava a saída daqueles, em busca de outros centros urbanos – como Catu, Camaçari e Salvador –, onde pudessem encontrar as oportunidades de trabalho que por cá eram limitadas ao comércio varejista e ao setor de transportes  - urbano e rodoviário -, muitas vezes, incompatíveis e/ou insuficientes para atender à necessidade da grande maioria daqueles que estavam aptos para ingressar no mercado de trabalho. Isto explica, ao menos em parte, a grande pressão exercida sobre o sistema de transportes local, o que forçava o aumento da oferta de horários, tanto no setor urbano, quanto no rodoviário, que permitisse atender ao que era demandado por uma população que era obrigada a se deslocar do seu lugar de moradia, em busca de alcançar o sustento diário para si e para os seus.

Voltando a falar de José Mário em sua empreitada no intento de se fazer imiscuir no ensino superior, saliente-se de passagem que, não obstante a tensão vivida no primeiro dia e o cansaço decorrente do longo tempo que precisou empregar para completar todo o processo de leitura, reflexão, marcação das alternativas, além da escrita da redação, José Mário se mantivera firme na sala onde aqueles procedimentos foram realizados, aproveitando todo o tempo que lhe fora disponibilizado para tal e, só deixando o Estadual por volta do meio dia e meio, naquele segundo momento, por volta das sete horas da manhã seguinte, ele já lá se encontrava, pronto para enfrentar, mais aquela jornada de provas.

No entanto, para ele, aquele era o momento mais difícil do certame a que se propusera a enfrentar. Ali, José Mário estava diante de matérias cujos temas e proposições, ele pouco ou nada sabia – mais nada do que pouco, diga-se de passagem –, visto que, conforme já foi apontado em postagens anteriores, aquelas que eram as chamadas “ciências duras” – ou, como se diz hoje, “ciências Naturais e da Terra” –, quase não foi por ele aprendida, embora todas elas – ou quase todas – tenham sido regularmente cursadas. É de bom alvitre ressaltar que, em tais matérias, José Mário fora aluno de bons professores, tais como Antônio Fagundes, Zenildes  e Maria do Carmo, nas matemáticas; o professor Aristóteles, em física; o professor Benedito, em biologia; também era bom o professor de Química... Portanto, o nada ter aprendido de tais matérias, não se devera aos professores que ele tivera; mas, sim, a ele mesmo, que não possuía aptidão, disposição ou mesmo  interesse nelas. Para reforçar a inaptidão e o desinteresse, cumpre apontar o escasso acesso aos livros que delas tratavam, embora, alguns deles estivessem transcritos em Braille, como a Química de Antônio Lembo, a Física de Bonjorno, os professores mencionados acima, não os adotava como sendo o seu material de trabalho, o que dificultava ainda mais a feitura de qualquer esforço por parte daquele aluno, no sentido de melhor compreender ou, quando menos, apreender os rudimentos mais basilares daquelas ciências, ao menos, para não se dar tão mal em um certame como aquele, onde havendo classificação, tal se daria de acordo com a pontuação geral obtida.

Entretanto, ele ali precisaria estar para enfrentar aquelas questões que estavam sob os seus dedos, que, até mesmo os enunciados lhes eram pouco compreensíveis. O que precisaria fazer então, era evitar zerar qualquer uma daquelas provas, sob pena de desclassificação sumária do certame. Talvez, por isto mesmo, a tensão naquele segundo dia fosse ainda maior do que a do primeiro, exatamente porque, sequer saberia qual a resposta que não seria a correta, dentre as quatro possíveis, inseridas em cada questão proposta. Desta maneira, as provas seriam respondidas de modo alheio a qualquer processo de aprendizagem das matérias que estavam sendo apresentadas como sendo uma forma de aferir o que aquele aluno aprendera em todo o seu processo de escolarização. Era sim, um esforço para que nenhuma daquelas provas tivesse marcadas questões erradas em sua integridade, obtendo zero acertos, como já se disse, o que resultaria na perda de todo o certame!

Foi assim pensando que José Mário se dirigiu até a mesma sala onde estivera no dia anterior, para ali encarar aquela tarefa que lhe incumbia executar. Ao receber o material correspondente às provas que ele deveria responder naquele dia, procurara percorrer todas as suas páginas, no intuito de encontrar algum enunciado que para ele viesse a fazer algum sentido, visando alcançar o objetivo já acima indicado: não se fazer eliminar sumariamente daquele certame. Abrira sobre a mesa a tabela periódica que se encontrava anexa ao material; passeara com os seus dedos nas páginas e nos gráficos correspondentes à Física, não sendo, evidentemente, capaz de reconhecer ou responder quaisquer questões dali derivadas; talvez tenha encontrado na prova de biologia, alguma questão que pudesse tentar responder sem medo de  errar – embora não tivesse grande confiança naquilo – se demorando um pouco mais nelas, tomando-as enfim, como uma espécie de “tábua” de salvação, por meio da qual pudesse evitar o completo naufrágio. Tendo se debatido por algumas horas naquelas águas encapeladas, se deu por vencido e concluiu mais aquela cansativa jornada, finalizando o processo de marcação no gabarito, assinando a documentação que tivera de o fazer e, levantando-se e saindo para deixar o local, algo por volta das onze da manhã, chegando em casa na justa hora do almoço.

Mas, o desejo de descansar daquela manhã puxada, fora vencido pelo desejo de saber qual teria sido o seu desempenho nas provas do dia anterior, o que lhe obrigaria a apelar para os filhos do vizinho, a fim de que um deles se dispusesse a ler o gabarito que houvera sido publicado no jornal A Tarde. Grande era a sua timidez para realizar aquela operação e, ainda maior era o seu temor de se fazer saber vestibulando, na medida em que, até ali, só ele, a sua mãe e aqueles que lhe deram apoio, sabiam do seu intento.

 

Alagoinhas – 21 de dezembro de 2025 -  ainda primavera brasileira  (verão, daqui a três horas e quinze minutos).

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 14 de dezembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte XI.

26 de janeiro de 1986 – as provas – II.

 

Em conversa com um seu colega de ofício, este escrevente chamava à sua atenção para a desconfiança que aquele pesquisador, sempre manifesta em relação à “memória”, uma vez que, conforme ele assevera, a “memória” é inadvertidamente elevada à condição de verdade – claramente se trata de uma compreensão equivocada do nobre colega historiador -, visto ser ela passível de manipulações e inconsistências. Em contrapartida, ele eleva o “documento” à condição de maior confiabilidade, visto não estar mais sujeito aos interditos por ele anotados em relação à “Memória”. No entanto, Jacques Le Goff (1924-2014), ao indicar que um “documento” é como que uma “monumentalização” de um momento histórico dado, permite inferir que, como tal e para tal ele foi produzido. Isto aponta para a ideia de que, embora ao chegar na mesa de trabalho do historiador algum tempo depois de produzido, portanto, impossibilitando – ou dificultando – a sua manipulação, dando uma aparência de objetividade, ele fora produzido por alguém, preservado para alguma finalidade, arquivado para que pudesse “testemunhar” de uma dada realidade, aquela que o fizera o seu autor – ou autores  - e, sobre eles uma sociedade, uma circunstância ou uma instância dada, fizera pressão para que fosse produzido. Logo, não só é preciso desconfiar da “memória”, sujeita em última instância, a aquele que lembra; mas, de igual modo, se faz necessário desconfiar de qualquer “documento”, considerando-o permeado de subjetividades intrínsecas ou extrínsecas a ele. Há um monumento deste tipo, por exemplo, que conta a “conversão de Constantino” ao “cristianismo”, que indica tal haver se dado, após um “sonho com a cruz” e, a garantia de que “por aquela cruz”, ele venceria. Tal vitória teria se dado e, como “cumprimento” da promessa feita pelo imperador romano que, caso de fato vencesse a dita batalha, se tornaria um “cristão”, torna o dito cristianismo a “Religião” oficial e única do império. Ora: quem escreveu o tal relato? Para quem e por que o escreveu? Parece mais uma justificativa forjada para explicar a romanização do cristianismo até então perseguido pelo próprio Constantino; fica-se com a impressão que é um texto feito para aplacar qualquer questionamento a respeito do modo como se deu a “cristianização” do paganismo romano, sem que se fizesse qualquer exigência, tal como o “crer” e o “se arrepender”, o que proporcionaria o  “Novo Nascimento”, por exemplo, uma prerrogativa inerente à conversão. Tal prerrogativa, evidentemente, não é contemplada pelo decreto imperial. Ora: por que a “narrativa” documentada ou, no dizer de Le Goff “monumentalizada” pôde ser tomada como “verdade” ao longo dos séculos e, a “memória”, ainda que sujeita à falhas, inconsistências e/ou descontinuidades, não pode ser tomada, ao menos,  como parte de uma “verdade?

Conforme assevera Maurice Halbwachs (1877-1945), “[...]. A sucessão de lembranças, mesmo as mais pessoais, sempre se explica pelas mudanças que se produzem em nossas relações com os diversos ambientes coletivos, ou seja, em definitivo,  pelas transformações desses ambientes, cada um tomado em separado, e em seu conjunto” (HALBWACHS, 2003, P. 69). Isto quer dizer que a “memória” não é estática, portanto, passível de ressignificações, ao contrário do “documento” que é “monumentalizado”, em sentido estrito, não mais sujeito à manipulações, adequações e inserções, pois tal já fora feito, quando da sua produção e/ou arquivamento. Logo, ambos devem ser constantemente interrogados, pois, como já é cediço, não falam por si.

Assim sendo, é uma vez mais, através das lembranças levantadas de um tempo que já vai remontando a algumas dezenas de anos, que este garatujador tem procurado trazer aos seus fiéis leitores, algumas facetas do caminhar de José Mário. Nelas, o rapaz é percebido como quem precisa constantemente embater-se contra obstáculos os mais diversos, com o fito de empreender o seu processo de escolarização e, nos arrazoados que até aqui vem sendo desenvolvidos, ele aparece enfrentando as intempéries de se imiscuir no processo de formação superior.

Conforme já se apontou em páginas anteriores, tendo saído de casa por volta das seis da manhã e, tendo percorrido a pé todo o trajeto que o levaria ao seu já bem conhecido prédio do “Estadual”, José Mário chegara ao local das provas um pouco antes do horário da abertura dos portões. Ali, já se encontrava um bom número de outros vestibulandos, que, por certo, também estavam ansiosos pelo momento que ingressariam nas respectivas salas, receberiam o caderno com as questões que precisariam responder, no prazo pré-determinado de cerca de quatro horas, tempo em que, além das respostas às questões propostas, também precisariam desenvolver uma redação, por meio da qual discorreriam sobre um tema indicado e, que, por meio dela, precisariam demonstrar a coerência e a consistência da exposição de ideias, bem como, seriam avaliados em sua capacidade de realizar uma discussão através de  um texto com uma ordenação lógica e exposição escrita de um pensamento concatenado.

Quando enfim foram abertos os portões e autorizado o ingresso dos candidatos ao recinto onde tomariam parte do tão esperado primeiro dia do certame que poderia lhes abrir vagas para os cursos de licenciaturas ofertados na Faculdade de Formação de Professores de Alagoinhas, algumas centenas deles se dirigiram às salas onde estavam alocados. José Mário, enquanto se dispunha a fazer o mesmo, de posse do seu cartão de identificação, acabou por ter o seu caminhar interrompido por pessoas ligadas à organização do certame, que o conduziram a uma sala no prédio onde funcionava a direção e a biblioteca daquele estabelecimento de ensino, onde, segundo fora informado, ele ficaria para desenvolver a sua atividade avaliativa, uma vez que, ele utilizaria máquina de datilografia comum, o que poderia acarretar em desconforto para os demais avaliados, devido ao barulho da dita, que poderia dificultar a concentração dos demais. Além disto, pelo fato de o material estar impresso em Braille – o que aliás foi um ganho inestimável –, o mobiliário estudantil existente nas salas reservadas para a realização das provas, talvez dificultasse o manuseio do material.

Portanto, José Mário ficou alocado na sala da direção, acompanhado de uma funcionária para oferecer suporte, quando necessário. Ali, ele teve diante de si e sob os seus dedos, o caderno de questões propostas para a prova de língua portuguesa, de literatura, de língua estrangeira – por acaso e por presunção, o francês fora a língua por ele escolhida, visto possuir pequenos rudimentos adquiridos ainda na quinta e na sexta séries, cursadas ali mesmo –, bem como algumas questões que compunham a prova de redação, além do tema sobre o qual ele deveria dissertar.

Depois de ter procurado ler com atenção cada enunciado; depois de ter procurado responder as proposições de acordo com aquilo que entendera ter aprendido e apreendido acerca das matérias postas à prova; depois de se esforçar por interpretar os trechos de obras e autores inseridos como mote para as questões propostas; depois de procurar intercalar a sua compreensão com a elaboração de respostas plausíveis e, de pretender demonstrar a sua compreensão do que lera, por meio das aplicações feitas no formato de escolha de uma das sentenças dentre cinco delas, dispôs-se a discorrer sobre o tema que fora proposto para a elaboração de um texto dissertativo: “A Televisão como janela para o mundo”, proposição com a qual divergira por todo o escrito, talvez, influenciado pela sua condição de cegueira, que o fazia não entender que a “televisão” tivesse um tal papel, bem como, pelo seu pertencimento a uma instituição religiosa que “reprovava” a posse e a utilização daquele instrumento “perigoso” para a fé – ainda que apenas retoricamente –, que poderia desencaminhar aqueles que a tivessem como norteadora de modo de agir e de pensar.

De toda a sorte, ele estribara-se na perspectiva de que aquele meio de comunicação seria capaz de direcionar – para bem ou para mal –, a construção social de um pensamento hegemônico fundamentado quase que exclusivamente nas imagens – muitas vezes manipuladas para alcançar os objetivos de seus formuladores –, limitando a construção de um pensamento plural, tirando partido daquele modus operandi, com objetivos nem sempre consoantes à construção de um processo social baseado no equilíbrio e na equidade. É claro que ele temera muito por ter divergido daquilo que acreditava ser a forma dominante de pensar que o propositor do tema viesse a querer que fosse, por assim dizer, referendado, não obstante o seu receio – que posteriormente se mostraria infundado –,José Mário não recuou um único milímetro daquilo que se propusera a dissertar sobre o tema ali proposto.

 

Alagoinhas – 14 de dezembro de 2025 – primavera brasileira

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com 

domingo, 7 de dezembro de 2025

O TEMPO DA GRADUAÇÃO - 1986-1991 - Parte X.

26 de janeiro de 1986 – as provas – I.

 

Em mais um arrazoado construído a partir de fragmentos de memórias de um tempo já pretérito que ainda não se fez passado já passado, uma vez que os seus sedimentos ainda podem ser escavados nas diversas camadas que compõem a memória, este escrevedor traz a tantos quantos se dignem a ler as linhas que se seguem, mais um tratado em que o caminhar de José Mário se faz reconstruir, ainda que fragmentariamente, apontando para o seu empreendimento no concurso de pavimentar o caminho que o leve a ingressar no ensino superior, com vistas a uma busca por implementar um processo formativo que lhe dê as ferramentas de trabalho no campo do ensino, bem como as condições de sua inserção econômica e social. Conforme assevera Paul Ricöeur (1913-2005), “[...] a memória continua sendo a capacidade de percorrer, de remontar no tempo, sem que nada, em princípio, proíba prosseguir esse movimento sem solução de continuidade. É principalmente na narrativa que se articulam as lembranças no plural e a memória no singular, a diferenciação e a continuidade. [...]” (RICÖEUR, 2007, p. 108). Este escrevedor procura desenvolver os tratados que constrói a partir da memória, tomando a proposição acima transcrita, como fundamento basilar em que se estriba.

Era chegado o domingo, dia em que José Mário estaria pela primeira vez, diante de um certame em que igual a um bom número de outras pessoas, faria um conjunto de provas por meio das quais, sendo aprovados, ingressaria em um curso superior, ministrado por uma entidade pública de ensino. Portanto, se aproximava a hora em que tudo aquilo que buscara aprender – ou revisar; ou ainda, reaprender – durante todo o tempo transcorrido entre o dia em que fizera a inscrição para se habilitar a participar do desafio que era, sobretudo para ele, o intento de se fazer imiscuir entre os aprovados e, o momento em que se daria o combate pelas quarenta vagas no curso de licenciatura em História, seria posto à prova.

A noite anterior àquele 26 de janeiro foi de sono agitado, iniciado ainda cedo, quiçá antes das vinte e uma horas; noite longa, quase interminável; madrugada que se fazia arisca e, não chegava; alvorada marcada pela algazarra alegre da passarada que parecia teimar em não se apresentar aos ouvidos atentos daquele quase insone rapaz; o cheiro do amanhecer que se fazia fugidio, esquivando-se do nariz que tanto esperava poder o aspirar e, finalmente, perceber que ali sim, era chegada a hora de se levantar. As horas que não dormira, foram marcadas pelos ruminares das últimas lições; foram inundadas por perguntas que não se conseguiria respostas: qual será o tema da redação: Qual será a modalidade da redação: será uma “dissertação”? Será uma “descrição”?... Assim pensava; mas também, procurava se esforçar por reconciliar o sono, visto que a manhã que tão ansiosamente esperava chegar, seria longa e, exigiria concentração, atenção e cuidado para melhor apreender a leitura das questões, compreender o que se cobrava do candidato a partir dos enunciados nelas propostos e, sobretudo, entabular as respostas com lógica e coerência.

Enfim chegada que fora aquela manhã, José Mário se pusera de pé; tomara sua ducha fria; se encaminhara para o café. Aquele, saliente-se, fora um tanto diferente do padrão de café, uma vez que, sua mãe, entendendo que ele teria que estar por toda a manhã envolto na tarefa de fazer as provas; e ambos, não dispondo de recursos que permitisse a aquisição de lanches ou frutas para enganar a fome, lhe pusera um apetitoso prato de feijão com mocotó que ela acabara de preparar ainda antes do nascer do sol, que ele, evidentemente, se deliciara com a iguaria, entendendo que aquilo seria, sim, suficiente para aguentar todo o tempo que teria de provas, visto, como se disse, não ter outra maneira de mitigar a fome, no caso de se apresentar antes que pudesse terminar a sua realização.

Desta forma, tendo terminado o “almoço antecipado”; tendo tomado a sua xícara de café, vestiu-se, apanhou os seus instrumentos de que se valia para execução daquele tipo de tarefa – máquina de escrever Olivetti; reglete e punção para escrita em Braille – e partira em direção ao local das provas, que seriam aplicadas no espaço do seu velho conhecido “Estadual”. Saíra pouco antes ou pouco depois das seis da manhã; solitário, como quase sempre o fizera, percorrera o caminho habitual que o levara para o Centro Integrado Luís Navarro de Brito por tantos anos; todos que ali cursara o primeiro e o segundo graus. Fizera o trajeto a pé, pois, por ser um domingo, temia não passar ônibus em um horário que lhe permitisse chegar por volta das sete, quando seriam abertos os portões, procurando assim, fugir de algum transtorno que o impedisse de ter acesso ao local das provas. Quase fardado e calçado no seu tênis do tipo Kichute, aquele mesmo  dos últimos anos do segundo grau, andara sempre seguro do que fazia e do porquê fazia aquele trajeto, que, embora seu já conhecido, nunca lhe parecera tão longo e o seu fim esperado, tão demorado de se completar.

Portanto, logo após se distanciar cerca de quatrocentos metros do seu espaço de moradia, atravessara a via férrea e depois, a precária ponte sobre o rio Catu, ali, ele andara sentindo todo o frescor daquela manhã de verão, quando o sol se apresentava mais condescendente com o viajor, sem contar com o aspirar dos muitos cheiros do longo caminho, até então, pouco transitado por automóveis; aquele Luís Viana quase interminável, ainda era um bairro residencial, que, em uma quase madrugada de domingo, se mostrava bem mais silencioso, permitindo que se pudesse ouvir os chilreares dos muitos pássaros que povoavam a grande diversidade de árvores que ali existia e os últimos zunidos daqueles bichinhos noturnos que se refugiavam nos arbustos que formavam a paisagem do caminho que José Mário percorrera confiante, ansioso e temeroso, a um só tempo. Assim, embevecido pelos cheiros diversos vindos das chácaras que floresciam aqui e ali, deixando exalar os seus aromas tão suaves em delicados fragores de verão, ao longo dos cerca de dois quilômetros que foram sendo percorridos, seguia ele, procurando relembrar os ensinos de língua e literatura que recebera até aquele instante que se aproximava o momento de testar o quanto ele os apreendera. Ele, saliente-se, estava longe de apreciar todo aquele conjunto sinfônico que aquela orquestra da natureza lhe oferecia enquanto caminhava mergulhado naquela preocupação que quase o fizera indiferente à tão assombrosa harmonia estacional que o Eterno generosa e graciosamente lhe propiciava.

Enfim, pouco antes das sete horas, ele já lá estava, juntamente com uma multidão de outros seus concorrentes, certamente de origens sociais, econômicas e culturais bem diversas, que aguardavam a abertura dos portões, para então, darem início à jornada para a qual se inscreveram e dispuseram a enfrentar. Talvez, alguns já se conhecessem de outras jornadas; outro tanto, se encontravam pela primeira vez; José Mário, por sua vez, não fora reconhecido nem encontrara ninguém que lhe fosse conhecido. Ao serem abertos os portões, todos, absolutamente todos se dirigiram aos seus respectivos locais de prova, sem qualquer atenção àquele que, tal qual eles, também procurava se dirigir à sala indicada no seu cartão de inscrição, para lá, tomar contato com as provas e buscar responder as questões nelas propostas.

 

Alagoinhas – 07 de dezembro de 2025 – verão brasileiro.

 

Professor Jorge Damasceno – historiadorbaiano@gmail.com